foto: Marilyn Monroe
 
 
fonte : Ipsilon, 19.03.2011
 

“Sou uma dançarina que não sabe dançar”

Luís Miguel Queirós
«Em “Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters”, ouvimos a própria voz de Marilyn falando consigo própria (uma voz que tem tanto de sol como de sombra). Pode ser uma experiência fascinante, depois de tantos anos a ouvir o que os outros disseram dela

“Marilyn Monroe: Fragments” reúne, anuncia a respectiva capa, “poemas, escritos íntimos e cartas” daquela que foi a mais icónica actriz de cinema de todos os tempos. O livro foi lançado no final do ano passado e fez furor na imprensa mundial: a mulher que que Hollywood nos apresentara como um paradigma da loura burra, uma cabeça de adolescente cândida num desejável corpo de mulher adulta, era, afinal, uma alma dilacerada e uma poetisa em potência, se não de facto. 

Antonio Tabucchi, que assina o prefácio da edição francesa, pergunta: “E se Marilyn, em lugar de ter tido essa extraordinária beleza que a tornou célebre através do cinema, tivesse sido uma mulher de aspecto banal?”. E responde: “Teria publicado em vida o que agora vamos ler e ter-se-ia provavelmente suicidado, como Sylvia Plath”. E as pessoas possivelmente diriam, como disseram de Plath, sugere ainda Tabucchi, que se matara por ser “demasiado inteligente e demasiado sensível”. Na verdade, meio século decorrido sobre a morte de Marilyn, e após incontáveis biografias e documentários, a possibilidade de a actriz ter sido apenas uma loura atraente e desprovida de miolos já só ressurge em textos como o de Tabucchi (ou como este que agora está a ler), que se propõem demonstrar, não se sabe bem a quem, que Marilyn, afinal, não era parva nenhuma.  E há sempre o risco de, no entusiasmo de revelar a “verdadeira” Marilyn, nos deixarmos levar pelo excesso de zelo. Veja-se o título, exacto mas ligeiramente pomposo, do livro agora lançado: “Fragmentos: poemas, escritos íntimos e cartas”. Parece o tipo de designação que se adoptaria para uma compilação de papéis póstumos de um autor conhecido, que não acrescentaria nada à sua obra, mas permitiria conhecer um pouco melhor a “persona” civil por trás dela. Sucede é que não existe nenhuma obra de Marilyn, para lá da que resulta do conjunto das suas interpretações no cinema, essa sim, ainda hoje esteticamente subestimada. Ou existirá a obra que este livro reúne, mas nada neste punhado de textos dispersos permite supor que a actriz era uma Sylvia Plath, ou para lá caminhava. Além do abismo que as separou em termos de talento literário, não é evidente que se possam descortinar aqui indícios de uma pulsão suicida. 

É verdade que alguns dos escritos que o livro arruma na secção de poemas são efectivamente poemas, o que é já surpreendente. E teria sido quase chocante para a generalidade dos fãs da actriz, caso este volume tivesse sido publicado há 50 anos. Quem imaginaria, então, que a voluptuosa e apatetada vizinha de Tom Ewell em “O Pecado Mora ao Lado” pudesse escrever coisas como esta: “A verdade é que por vezes não suporto Seres/ Humanos – Sei que têm os seus problemas/ como eu tenho os meus – mas estou realmente/ demasiado cansada. Tentar perceber,/ fazer concessões, ver certas coisas/ tudo isso me esgota.”? O livro incui sete poemas não datados, escritos em folhas soltas, e alguns outros, geralmente fragmentários ou inacabados, encontrados em dois cadernos, misturados com apontamentos vários. De um desses sete, que começa com o verso “Vida/ Sou as tuas duas direcções” – e no qual Marilyn diz de si própria que é “forte como uma teia de aranha/ ao vento” -, conheciam-se já versões anteriores. Na Internet podem ainda encontrar-se, de resto, três ou quatro poemas atribuídos a Marilyn que este livro não contempla. Um deles é possivelmente melhor do que qualquer um dos agora revelados: “” Tempo/ Sê gentil/ Ajuda este ser cansado/ a esquecer o que é triste lembrar/ Solta a minha solidão/ Sossega o meu espírito/ Enquanto devoras a minha carne.”  Não menos interessantes são os apontamentos íntimos, as reflexões sobre si própria e a sua vida, passagens diarísticas, olhares sobre episódios e relações do passado, juízos sobre terceiros, e ainda a correspondência, que inclui uma notável carta a um dos seus psiquiatras, Ralph Greenson.  Quase nada do que está neste livro terá sido escrito com a noção de que poderia vir a ser publicado, e por isso se sente uma pungente autenticidade. Se não nos repugnar excessivamente a dimensão voyeurística que espreitar a intimidade de outrem implica, ouvir assim a própria voz de Marilyn falando consigo própria pode ser fascinante.

É essa a principal mais-valia destes “Fragmentos”, tanto mais que, em contraste com os milhares de páginas que outros lhe dedicaram, os testemunhos directos resumiam-se, até agora, às entrevistas que deu e a um livro de memórias bastante lacunar publicado em 1954: “My Story”. O inesperado aparecimento destes textos quase meio século após a morte de Marilyn deve-se a um acaso. A actriz legou boa parte dos seus bens, em testamento, a Lee Strasberg, o seu mestre no Actor’s Studio, que venerava como um guru. Quando Strasberg morreu, em 1982, os pertences da actriz passaram para as mãos da sua jovem viúva Anna, com quem se casara já depois do presumível suicídio de Marilyn. Anna Strasberg veio mais tarde a descobrir duas caixas com papéis de Marilyn e mostrou o material a um amigo da família, Stanley Buchtal, que pediu a opinião do editor Bernard Comment. Na nota de abertura do livro que ambos acabaram por publicar, Buchtal e Comment agradecem a Anna Strasberg, enfatizando que as suas motivações “nunca foram comerciais”. Uma passagem a ler com algumas reservas, sabendo-se que Anna, em 1999, ganhou mais de 30 milhões de euros leiloando na Christie’s um vasto conjunto de “memorabilia” marilyniana.  A par dos textos, o volume inclui fotografias, algumas pouco conhecidas, que corroboram a imagem de uma Marilyn intelectual: em fato de banho, absorta na leitura de um muito manuseado exemplar do “Ulisses” do Joyce (a julgar pela foto, estava quase a acabá-lo), ou no cimo de um escadote tirando da estante uma obra sobre Goya, ou admirando uma escultura de Degas, ou apropriadamente deitada na relva enquanto lê as “Folhas de Erva” de Whitman.

No início da carreira, Marilyn trabalhava de dia, fazendo pequenos papéis no cinema, e estudava à noite na Universidade da Califórnia, onde se inscreveu em cursos de História da Literatura e História da América. Tinha uma biblioteca de 500 livros, bem escolhida, e o seu interesse pela literatura enquadrava-se num deliberado desejo de se cultivar. Fê-lo com sucesso, e este livro é uma prova disso, já que, estando organizado cronologicamente – ainda que, na ausência de datações, a sequência seja muitas vezes especulativa -, mostra a evolução da escrita, que começa por ser um tanto básica, gramaticalmente desconexa e salpicada de erros de ortografia para se tornar mais segura. 

O volume abre com um longo texto em que a actriz evoca uma relação que teve na adolescência com um homem de 21 anos, possivelmente o seu primeiro marido, o marinheiro James Dougherty. Explica que era um dos raros homens pelos quais, nessa época, “não sentia repulsa sexual”. Um termo forte, que poderá explicar-se pelos presumíveis abusos de que terá sido vítima nas casas de acolhimento por onde passou. A insegurança e a inibição sexual são tópicos constantes nas suas notas. “Mesmo fisicamente tive sempre a certeza de que qualquer coisa em mim estava errada”, escreve em meados dos anos 50.  Mais surpreendente é encontrarmos a mesma insegurança no que respeita à representação. “Ponho-me diante da câmara e a minha concentração, e tudo o que tento aprender, desaparece”. Antes de uma rodagem, escreve: “Estou a tentar arranjar maneira de interpreter este papel… Como é que poderei ser essa rapariga tão alegre?”.  Essa aguda consciência do abismo entre a imagem que projecta – a grande actriz de cinema, a sedutora de poder magnético, o símbolo sexual – e a imagem que tem de si própria (não necessariamente mais verdadeira do que a anterior), exprime-a de forma lapidar nesta frase. “Sou uma dançarina que não sabe dançar”.  Pouco antes de se envolver com o dramaturgo Arthur Miller, a actriz, que já tinha sido casada duas vezes – a segunda com Joe DiMaggio -, encara as relações sentimentais com notório cepticismo: “Só uma parte de nós consegue alguma vez tocar uma parte de alguém”, diz, “e o mais a que podemos aspirar é a procurar a solidão do outro”.  Mas o seu casamento com Miller parece demolir todas as reservas. É a época, efémera, dos seus textos mais felizes. “Ter o teu coração (…) é a única coisa que alguma vez me aconteceu completamente”. Um paraíso de que não tarda a cair, regressando aos apontamentos melancólicos e auto-depreciativos. 

Um dos textos mais estranhos é a descrição de um sonho em que Strasberg, vestido de cirurgião, a abre, sob o olhar de Miller, e tudo o que sai de dentro dela é serradura. E um dos textos mais notáveis é a carta que escreve ao psiquiatra a queixar-se do tratamento no sanatório onde foi internada, ao mesmo tempo que discute o filme “Os Inadaptados”, evoca a relação com Kazan ou a influência de Strasberg, explica que lhe bastou um retrato de Freud para perceber que era “um deprimido”, e ainda cita Milton: “As pessoas felizes nunca nasceram”.  Mas este livro não mostra apenas uma Marilyn sombria. São também frequentes as referências a episódios felizes, como uma calorosa viagem de camioneta com 60 pescadores italianos – “nunca conheci cavalheiros mais encantadores” -, ou, mesmo no fim da vida, as notas que revelam que continuava a procupar-se com o quotidiano, organizando listas para festas, passando receitas de cozinha, confiando a Strasberg a sua intenção de montar uma produtora, em associação com Marlon Brando.  Mesmo quando está mais em baixo, o tom é quase sempre o de alguém que quer reerguer-se, e não o de alguém que encara matar-se.» 

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