Arca_Russa_08 (1)

do filme A ARCA RUSSA

Fonte : Passa Palavra 22 Janeiro 2013

Arca Russa: O reino da aparência estética e os impasses histórico-filosóficos

Por Danilo Chaves Nakamura

O tempo histórico apresentado por Sokúrov convida, a todos nós que reclamamos por outra sociedade, a não alimentarmos ilusões acerca de nós mesmos.

Introdução
Fiodor Dostoiévski, em Memórias do Subsolo (Zapíski iz Podpólia), dá voz aos lamentos de um representante da aristocracia intelectualizada russa, que vivia no século XIX “os seus dias derradeiros”. O romance é de 1864, ou seja, de um período onde a modernização e a ocidentalização iniciada no século XVI avançavam em ritmo acelerado. A tradição e o enraizamento da vida provinciana e comunitária desencantavam frente ao processo de racionalização capitalista.
Nas palavras do “paradoxalista” da novela:
“Todos os atos humanos serão calculados, está claro, de acordo com essas leis, matematicamente, como uma espécie de tábua de logaritmos, até 108.000, e registrados num calendário; ou melhor ainda, aparecerão algumas edições bem intencionadas, parecidas com os atuais dicionários enciclopédicos, nas quais tudo estará calculado e especificado com tamanha exatidão que, no mundo, não existirão mais ações nem aventuras.
Então – sois vós que o dizeis ainda – surgirão novas relações econômicas plenamente acabadas e também calculadas com precisão matemática, de modo que desaparecerá num instante toda espécie de pergunta, precisamente porque haverá para elas toda espécie de respostas. Erguer-se-á então um palácio de cristal. Então… bem, em suma, há de chegar o Reino da Abundância”. (DOSTOIEVSKI, F. 2000, p. 37-38)
O personagem vivia de modo consciente a decadência de uma forma de vida. Dostoiévski vislumbrava o que ainda estava apenas em germe, ou seja, uma sociedade totalmente racionalizada: “[…] se a vontade se combinar um dia completamente com a razão, passaremos a raciocinar em vez de desejar”. Diante dessa queda no subsolo, sua solução apaziguadora era refugiar-se em tudo que era “Belo e Sublime” – “[…] Uma preguiçosa e embriagadora passagem à arte”.
Num registro mais recente, “Arca Russa” (Russkiy Kovtcheg), de Aleksandr Sokúrov [1], apresenta o resultado dos prognósticos formulados por Dostoiévski. Filmado em 2001 num único plano seqüência, o filme é, antes de tudo, um diagnóstico de nosso tempo histórico. Para isso, o diretor trás para o presente a formação nacional russa com o imperativo de participar da modernidade ocidental, o fracasso da experiência revolucionária no início do XX e os dilemas da Rússia atual.
Mas, embora existam semelhanças – lamentações, vida encasulada, contemplação artística como operação compensatória – os dois registros diferenciam radicalmente no que se refere ao tempo histórico.
Seguindo as formulações de Reinhart Koselleck, tempo histórico constitui-se no processo de determinação da distinção entre o passado e o futuro, ou, em termos antropológicos, na diferenciação (sem a qual não haveria história) entre experiência e expectativa. Exemplo: com a Revolução Francesa e a Revolução Industrial, a burguesia pode reclamar intelectualmente o mundo inteiro desenvolvendo sua filosofia da história que, com base real e fictícia, correspondia à inexorabilidade do progresso capitalista. O mundo da técnica e industrialmente formatado concedia ao homem períodos de tempo cada vez mais breves para que se pudesse assimilar novas experiências, ou seja, o processo histórico modificava a relação entre o campo de experiência e o horizonte de expectativa, pois sempre novos acontecimentos eram inseridos na experiência vivida e as expectativas eram sempre desgastadas nas novas experiências.
“[…] na modernidade, a diferença entre experiência e expectativa não pára de crescer, ou melhor, que a modernidade só pode ser concebida como um novo tempo depois que as expectativas se distanciaram de todas as experiências anteriores. Esta diferença, como vimos, encontrou sua expressão na história em si e sua qualidade específica de tempo moderno no conceito de “progresso”.” (KOSELLECK, R. 2006, p. 322)
No período de Dostoiévski (e o imediatamente posterior) a Rússia sofria de maneira dramática a expansão capitalista teorizada por Koselleck. Todavia, tinha-se ali o momento de maior criatividade e imaginação política, seja por parte do povo, seja por parte da intelligentsia. Paralelo ao encasulamento do personagem aristocrata dostoievskiano, tínhamos no horizonte a expectativa de uma sociabilidade alternativa, um desvio em relação à inexorabilidade das leis capitalistas. A Revolução Russa foi a abertura para a realização.
Mas, e o atual tempo histórico? Qual a relação entre experiência e expectativa após o fracasso da Revolução Russa? A Arca Russa de Aleksandr Sokúrov é uma tentativa de resposta.
Arca Russa
– Abro os olhos e não vejo nada. Apenas me lembro que houve um acidente. Todos buscaram segurança, cada um como pôde. Só não me lembro do que aconteceu comigo [2].
Após o anúncio de uma catástrofe, Sokúrov nos leva para uma longa viagem pelo Museu Hermitage/Palácio Imperial. Viagem que presentifica o passado recente da história russa (últimos três séculos). Somos guiados pelo olho da câmera num fluxo contínuo da memória (plano seqüência de 96 minutos). Memória contínua e cuidadosamente seletiva, que nos revela o que é digno de salvação.
Há dois narradores, um é a voz do olho da câmera (“Rússia”) a outra voz é a de um diplomata francês do final do século XVIII (“Europa”) [3]. São eles quem exteriorizam as lamentações, os julgamentos e as ironias em relação à história. Também são eles que revelam as preciosidades artísticas do museu e que interagem com os personagens históricos e visitantes contemporâneos. É interessante apontar alguns detalhes da interação entre os dois narradores: quando se encontram, ambos estão perdidos no Museu. “(…) Nossos caminhos devem se separar [4]” diz a “Europa”. O primeiro personagem histórico citado é Pedro “O Grande”, czar que governou com a determinação de transformar o país numa potência da Europa Ocidental. É a “Europa” quem anda na frente, abre as portas e fala com os personagens; o russo está sempre atrás, não aparece e os personagens históricos e visitantes não o vêem nem o escutam. No último baile, a “Europa” se nega a seguir adiante e acompanhar a “Rússia”.
A idéia do filme num único plano seqüência foi, nas palavras do próprio diretor, um meio permitido pela tecnologia digital e não um objetivo (ou tarefa artística). “O trabalho da arte cinematográfica não consiste em rodar, consiste em compor”. (SANTOS, L. 2002, p. 68.) Composição que, em nossa hipótese, é a sobreposição de imagens históricas de tempos históricos distintos. Ao contrário do que muitos críticos afirmaram, Sokúrov não é anti-Eisenstein por não ter feito o trabalho de montagem. Tampouco por ter mobilizado apenas imagens da elite e excluído o povo. Se prestarmos atenção, veremos que há no filme uma mobilização de arte(s) da elite “aristocrática” ligadas à idéia de “bom gosto” do período absolutista – quadros renascentistas, música erudita, teatro de corte e etc. – para fazer cinema que é historicamente entendido como uma arte de massa “democrática”. Uma das riquezas do filme está nesse paradoxo (aristocracia/democracia). Uma comparação com os filmes de Eisenstein não pode ser apenas formal – montagem ou plano seqüência – é preciso trazer para o primeiro plano o contexto histórico para afirmar a oposição de Sokúrov a Eisenstein.
* * *
Mas, o que é digno de salvação? O que a arca russa está salvando das catástrofes eminentes de que Sokúrov fala?
“Na história bíblica há tão poucos homens e, aparentemente, os homens não são dignos de salvação? […] Mesmo na Arca de Noé faz-se supor que naquela altura a humanidade não era digna de salvação. Além do capitão do navio, esta era representada por um simples casal, equivalente a qualquer outra espécie de bicho”. (CAKOFF, L. 2002, p. 119)
No filme as questões que se colocam são: quem entra na arca? Por quanto tempo fica nela? Quais os perigos de ser atirado de modo precipitado, justa ou injustamente, no mar? Quando a tempestade começou e quando ela vai passar?
Na seqüência do filme são colocados para dentro da Arca personagens históricos como Pedro o Grande (tirano para a “Europa” e o homem que permitiu aos russos se divertirem para a “Rússia”), Catarina II, Nicolau I, Nicolau II, a princesa Anastácia, damas e oficiais de corte, o príncipe da Pérsia Khozrev-Mirza, Puchkin (que segundo a “Europa” não é nada especial [5]). Artistas e suas criações são destacadas – Pessoas eternas, pessoas eternas… Que vão sobreviver a todos nós [6] – os quadros e as esculturas flamengas, italianas e etc., o teatro de corte, a orquestra imperial russa, a mazurca, a ópera “A vida para o Czar” de Mikhail Glinka. E pequenos detalhes e trivialidades históricas [7], como Catarina II correndo para fazer xixi ou ensinando etiqueta para crianças, a atitude do czar Nicolau I que pessoalmente salvou obras no grande incêndio de 1837, as desculpas do comissário persa em relação ao assassinato do diplomata russo Griboedov, o jantar dos Romanov e o pedido de desculpas de Anastácia ao pai por ter chegado atrasada, visitantes conversando e guardando segredos com os quadros, as esculturas e etc.
São muitas as interpretações sobre essa composição de períodos históricos distintos convivendo num mesmo espaço e tempo. Agamben enfatiza que os lamentos de Sokúrov têm como alvo o vazio do poder. Arca Russa, enquanto contemplação do poder, é uma contemplação do vazio e por isso a elegia deve romper a sua forma, pois não tem nada a lamentar (por isso a figura do estrangeiro – “Europa” – que ironiza e interrompe a todo o momento os lamentos da “Rússia”) [8] (AGAMBEN, G. 2006, p. 81). Nicolás Ocaranza fala duma arca habitada por fantasmas, por personagens que, fechados em seu próprio mundo, foram incapazes de perceber a efervescência política e cultural que a Rússia estava vivendo. As imagens elitistas e nostálgicas, para o crítico, seriam o fluxo livre e inconsciente da memória (OCARANZA, N. 2007). E Kriss Ravetto-Biagioli fala duma “comunidade imaginada” [9], ou seja, a Rússia enquanto nação seria muito mais produto de uma imaginação e de um sonho do que de um distante passado histórico. É por isso que o povo não está presente [10]. (RAVETTO-BIAGIOLI, K. 2005, p. 18).
Se considerarmos a contemplação do poder (do vazio de poder deixado pela URSS), a cegueira da aristocracia e a efervescência política do passado, mais a idéia de uma nação imaginada, talvez conseguiremos entender a presentificação do passado. Resumindo, são esses três pontos abertos pela modernidade/capitalismo – poder soberano, antagonismo de classe e nacionalismo – que ainda hoje nos deixam à deriva e sujeitos a catástrofes.
* * *
Antes de concluirmos, é importante pontuarmos como o filme aborda a Revolução de Outubro. Evento que foi não só uma esperança local no século XX, pois fez, em alguns momentos, a “Europa vibrar de alegria”, como fizera a Revolução Francesa no XVIII (KOCHAN, L. 1962, p. 365). Entretanto, os acontecimentos tomaram outros rumos em relação às aspirações e esperanças de emancipação do homem desejada pelos bolcheviques e seus predecessores. Sokúrov dá um significado para a Revolução sem considerar essas aspirações e, principalmente, vê o evento como uma ruptura de diálogo com a Europa.
Diz a “Europa” sobre a convenção jacobina durante a Revolução Francesa: “Foi sob a convenção que tudo foi devastado [11]”.
Sem meias palavras, diz a “Rússia” (Sokúrov): “Você não conhece a história da Rússia do século XX. Nossa convenção durou 80 anos. Uma verdadeira revolução. Muito triste [12].”
No final do filme, os narradores se (re)encontram após ficarem alguns minutos separados, a “Europa” dança a mazurca com damas e oficiais e a “Rússia” somente observa. É uma referência ao último grande baile (1913) organizado por Nicolau II antes da Revolução. Encerrado o baile, a “Rússia” lamenta: “Perdido… Estou triste. Vamos!?” Responde a Europa: “Para onde? O que encontraremos lá? Vou ficar”. A Rússia se despede: “Lá? Não sei. Até mais ver Europa… Acabou [13].”
As pessoas vão saindo conversando. E mesmo após o baile, peças teatrais continuam acontecendo. A “Rússia” acompanha o fluxo e o Museu/Palácio começa a balançar. “Parece que estamos flutuando [14]”. A “Rússia” olha pela janela e vê o mar por onde o Museu/Palácio (Arca) flutua e diz: “Senhor… Senhor… Que pena que você não está aqui comigo. Você entenderia tudo! Olhe… O mar cerca tudo. Estamos destinados a navegar para sempre… A viver para sempre[15]”.

Conclusão
“É o fim dos fins, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é a inércia consciente! Pois bem, viva o subsolo”.
Paradoxalista – Memórias do Subsolo – F. Dostoiévski
“Foram para o submundo. Para baixo, para baixo! E não existem mais”.
Narrador – Arca Russa – A. Sokúrov
A consciência artística que Sokúrov levanta como forma de subterfúgio e/ou projeto político não é nova ao longo da modernidade. A idéia sempre retorna, principalmente quando temos diante de nós eventos políticos que abalam o establishment social. Os reclames por uma sociedade alternativa, nesses casos, elevam-se para o reino da aparência estética, mas repousam sobre as antinomias insolúveis do pensamento burguês (LUKÁCS, G. 2003, p. 260). Exemplo:
“Schiller, com a Revolução Francesa diante dos olhos, cujas crueldades cedo apagaram seu entusiasmo por ela, imagina ser possível transformar, através da educação estética, os súditos do Estado Absolutista em cidadãos aptos a integrarem um Estado moral e nacional, sem ser necessário recorrer à revolução” (ARANTES, P. 1996, p. 199).
Bem entendido, projeto schilleriano é uma tentativa de resolução dos impasses colocados pelo atraso alemão, mas é também uma contraposição à violência revolucionária. É um programa para a revolução passiva. Na Rússia do XIX, onde a saída revolucionária era cada vez mais evidente, Dostoiévski, através de seu personagem, ironizava essa solução contemplativa: “Uma preguiçosa e embriagadora passagem à arte”.
A consciência artística de que Sokúrov fala não se põe como projeto nos termos schillerianos, uma vez que não existe projeto, nem horizonte. Se a arca está fadada a flutuar para sempre num mar sempre igual, não há um horizonte que seja diferente da experiência. Sokúrov apresenta um tempo histórico fechado para o novo, e o que temos a fazer é evitar novas catástrofes, nos fecharmos em arcas salvadoras.
Catástrofe que para o diretor é sinônimo de Revolução Russa, “convenção” que durou 80 anos. Aqui, ele se aproxima de uma série de intérpretes da Revolução Russa que “stalinizam” todo o fenômeno soviético, como se tivesse sido um Gulag gigante do começo ao fim, e que também interpretam o período como um afastamento da história européia [16].
Enfim, repetindo o que já foi dito, o processo aberto pela burguesia nos séculos XVIII e XIX instaurou uma filosofia da história que transformava a história em instrumento normativo da luta política, seu movimento alargava a distância entre experiência e expectativa. Essa filosofia da história naturalizava e encobria a violência do processo, mas por outro lado abria o espaço para a utopia, afinal o desdobramento não era pura ideologia, era também real. Hoje, se seguirmos Sokúrov, veremos que o espaço para a utopia desapareceu. A distinção entre o campo de experiência e horizonte de expectativa encurtou, e o que se vislumbra para o futuro é evitar que o pior aconteça [17]. Concordemos ou não, o tempo histórico apresentado por ele – embora carregado pelo duplo caráter de qualquer filosofia da história (realidade e ideologia) – convida, a todos nós que reclamamos por outra sociedade, a não alimentarmos ilusões acerca de nós mesmos.
Para alterar a situação, não temos escolha, precisamos penetrar no Grand Monde e abandonarmos as arcas.

Bibliografia:
AGAMBEN, Giorgio. “Arca Russa – A Elegia de Sokúrov”. In: Las Ranas. Arte, Ensayo y Traducción. Buenos Aires, Abril de 2006, Ano 2, nº2, p. 81. URL: http://flanagens.blogspot.com/2008_09_01_archive.html.
ARANTES, Paulo Eduardo. “Uma questão de tacto”. In: Ressentimento da dialética: dialética e experiência intelectual em Hegel: antigos estudos sobre o ABC da miséria alemã. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 177-210.
BIAGIOLI-RAVETTO, Kriss. Floating on the borders of Europe Sokúrov´s Russian Ark. Califórnia, 2005. URL: http://www.ucpress.edu/journals/rights.html.
CAKOFF, Leon. “A proximidade de um mestre”. In: Aleksandr Sokúrov. São Paulo: Cosac e Naify, 2002, p. 120-121.
DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Memórias do subsolo. Trad., prefácio e notas de Boris Schnaiderman. São Paulo: Ed. 34, 2000.
KLEIN, Naomi. “O ID capitalista – A Rússia e a nova era do mercado Rude”. In: A doutrina do choque – A ascensão do capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008, p. 293-311.
KOCHAN, Lionel. A Formação da Rússia Moderna. Lisboa: Editora Ulisseia, 1962.
KOSELLECK, Reinhart. “‘Espaço de experiência’ e ‘horizonte de expectativa’: duas categorias históricas”. In: Futuro Passado – Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-RIO, 2006, p. 305-327.
LUKÀCS, Georg. História e Consciência de Classe – Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
OCARANZA, Nicolas. “El sentido de La história em Arca Rusa”. In: [En línea], Imá-genes en movimiento, 2007. URL: http://nuevomundo.revues.org/index11812.html.
PIPES, Richard. História concisa da Revolução Russa. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2008.
SANTOS, Laymert Garcia dos. “Entrando na Arca Russa”. In: Aleksandr Sokúrov. São Paulo: Cosac e Naify, 2002, p. 65-103.
Filmografia
Arca Russa (Russkiy Kovcheg) de Aleksandr Sokúrov (2002). Duração de 96 minutos.
Notas
[1] Produção Rússia/Alemanha, 2002. Duração 96 min. Roteiro e direção de Aleksandr Sokúrov.
Aleksandr Nikoláievitch Sokúrov (1951) nasceu em Podorvikha, na região de Irkutsk, Sibéria Oriental. Formou-se em história na Universidade de Gorki (atual Níjni Novgorod). Em sua filmografia extensa podemos destacar: Moloch (1999), Taurus (2001), Salvai e protegei (1989) e Alexandra (2007).
[2] Tempo: 1 minuto e 44 segundos.
[3] Os narradores serão referidos como “Europa” e “Rússia”, sempre entre aspas. Quando não houver aspas, as palavras se referirão ao continente e ao país.
[4] Tempo: 5 minutos e 58 segundos.
[5] Tempo: 24 minutos e 50 segundos.
[6] Tempo: 35 minutos e 18 segundos.
[7] Diz Sokúrov: “[…] Se queremos falar de coisas sérias, devemos nos ater a detalhes aparentemente desimportantes. Caso contrário, engrossaremos a humanidade que se deixa cair em armadilhas, que se torna incapaz de perceber mesmo os detalhes mais triviais de uma paisagem do campo. […] É esse exercício que devemos aplicar para evitar novas catástrofes e permitir que os homens voltem a ser personagens da história”. (CAKOFF, L. 2002, p. 119)
[8] “Mortais não devem seguir a realeza, cuidado para não a alcançar”. Diz a “Europa”. Tempo: 53 minutos e 45 segundos.
[9] “[…] criação desses produtos no final do século XVIII, foi uma destilação espontânea do ‘cruzamento’ complexo de diferentes forças históricas. No entanto, depois de criados, esses produtos se tornam modulares, capazes de serem transplantados com diversos graus de autoconsciência para uma grande variedade de terrenos sociais, para incorporarem e serem incorporados a uma variedade igualmente de constelações políticas e ideológicas”. (ANDERSON, B. 2008, p. 30)
[10] Segundo Liev Tolstói: “Nunca ouvi gente do povo manifestar sentimentos patrióticos; pelo contrário, freqüentemente ouvi os homens mais sérios e respeitáveis dentre as massas declararem indiferença absoluta ou mesmo desdém por qualquer espécie de patriotismo”. (In: PIPES, R. 2008, p. 25)
[11] Tempo: 47 minutos e 23 segundos.
[12] Tempo: 47 minutos e 42 segundos.
Em entrevista, acrescenta o diretor:
“Infelizmente, a fragmentação da história russa começa em 1917. É verdade que mudanças precisavam ser feitas, mas não como aconteceu. Para mim, a história tem muitas linhas. Não vemos nem o começo nem o fim. Não sabemos quando um fato se origina nem onde começa nem onde termina. Mas logo sabemos ver culpados para tudo. O nazismo é um exemplo. Foi preciso apenas um momento para que entrasse na vida de muita gente para sempre, que depois não sabia como se livrar dele. Ficou com muita gente para sempre. Mas se quisermos compreender e ver tudo. E ter essa visão antecipada sobre “os momentos” é algo muito frutífero para a criação e a consciência artística”. (CAKOFF, L. 2002, p. 116)
[13] Tempo: 1 hora, 25 minutos e 26 segundos.
[14] Tempo: 1 hora, 29 minutos e 32 segundos.
[15] Tempo: 1 hora, 33 minutos e 30 segundos.
[16] A nosso ver, não é possível analisar a Revolução Russa em bloco. Não podemos deixar de considerar todo o potencial emancipatório que ela teve na época e também, sem que isso seja desculpa para as atrocidades organizadas pelo Estado soviético, considerar a complexidade social russa frente ao desenvolvimento capitalista. Isso bem entendido, outro problema se soma: a derrota da revolução na Europa Ocidental. A Rússia ficou isolada num processo em que ela deveria ser apenas o estopim.
Também é duvidosa a idéia de afastamento do desenvolvimento histórico europeu. Seja pensando na modernização:
“[…] segundo a perspectiva da história russa, a revolução sem dúvida terminou com aquele espasmódico e insistente tema da história russa, que começou no século XVI com os esforços de Ivan para modernizar e ocidentalizar a Rússia. Neste aspecto da questão a revolução representa menos uma ruptura com o passado do que um esforço – bem sucedido – para substituir e levar mais adiante o trabalho de industrialização que o regime czarista não conseguiria a partir de determinado ponto. O marxismo apareceu na Rússia como um meio para desenvolver o país no capítulo das matérias-primas e mão-de-obra, capítulos que o czarismo falhou”. (KOCHAN, L. 1962, p. 366)
Seja pensando na relação direta que ela teve na construção e desmonte do Estado de Bem-estar social europeu:
“(…) Enquanto o comunismo existiu como ameaça, o acordo de cavalheiros que constituiu o keynesianismo sobreviveu; uma vez que o sistema perdeu terreno, todos os sinais de compromisso podiam ser, finalmente, erradicados. Assim, seria alcançado o objetivo purista que o movimento de Friedman havia lançado cerca de meio século antes”. Esse foi o verdadeiro significado do dramático “fim da história” anunciado por Francis Fukuyama, em sua palestra na Universidade de Chicago, em 1989: ele não estava de fato reivindicando que não existam outras idéias no mundo, mas que, com o colapso do comunismo, não havia outras idéias suficientemente fortes para construir um competidor à altura. (KLEIN, N. 2008, p. 300)
[17] Sobre o atual tempo histórico, nossa análise teve como referência uma palestra do professor Paulo Arantes num seminário organizado pelo grupo de teatro Folias em 01/12/2008.

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