MC - prego
O prego no caco

Hoje vou vender pregos no Caco (da Madeira) na Mercearia Criativa: estou a passar a publicidade porque são bons, MESMO. Não digo isto porque a Mercearia é do Carlos Moura Carvalho, meu cunhado. Claro que também é por isso, senão se calhar nem a conhecia, nem passava lá os sábados.

Faço de tudo um pouco. E tenho adorado lá estar. Acontecem-me as coisas mais espectaculares. A semana passada, por exemplo, estava com a Rita a fechar a loja, eram quase oito, lusco-fusco lá dentro, porta semi-cerrada, eu de esfregona, já desgrenhada, quando entrou o Paul Claudel. Queria vinho. Se ainda podia comprar. Claro que sim. Entrou, e quando me viu reconheceu-me. Tivemos uma boa conversa. Ainda bem que me lembrei de lavar pela enésima vez aquela entrada. A semana passada estava muito vento.

Vi (aos bocadinhos) como se faz pão; abro melhor as garrafas de vinho, e distingo-os melhor; preparo ostras sem me cortar. Constato as pessoas nalgumas das suas facetas. Ganho e dou mundo.

MC - Paulo Sebastião
Uma das oficinas de pão do Paulo Sebastião

É muito bom estar do outro lado, de avental, rabo de cavalo, uns acessoriozitos, e de cores mais pro uniforme. Menos, muito menos! (eu, que adoro produtos! e cores). E ser vista assim (o que às vezes me faz ter a sensação de estarem a olhar para outra pessoa; mas não, sou eu mesmo). Ensina-me o despojamento e a simplicidade.

A lavar louça, a tirar bicas, a servir as mesas. O que é curioso é que estou sempre a fazer a mesma coisa – lá, em casa, na rua, na empresa onde trabalho como relações públicas, a dar as aulas de filosofia ou botar discurso, a escrever -, a ser “eu”, e neste caso de uma forma revolucionária, diferente, rodeada de gente “bonita”, de formas diferentes; de pessoas tão, tão, diferentes, do lado de cá e do lado de lá. E como tudo vem ao de cima! O caminho tem sido belo, mesmo – e às vezes mesmo e através das partes menos direitas -, sou agora mais feliz. Alargo mais. Sou mais CRIATIVA, e mais MERCEARIA.

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Muito do que aqui escrevo, por exemplo, é escrito (mas mesmo), na minha cabeça, quando estou em tarefas em que estou sozinha. Mas o que gosto mesmo é o contacto com as pessoas. Falo demais, claro, o que não é muito próprio às vezes. Já me “zanguei” com as minhas colegas, o que é muito bom para nos conhecermos. Sim, porque as pessoas não se deixam à porta e ali são robots. Mas às vezes é assim. E tenho vindo, aos trambolhões, a ser uma pessoa “melhor”.

O estar com as pessoas tem sido maravilhoso. Às vezes não é preciso nada bombástico! Uma amiga disse-me um dia que tinha ido ao médico e que ele nem por um segundo a olhou nos olhos. Nunca mais me esqueci. Claro que às vezes esqueço-me ( e há aí quatro pessoas que acho nunca irei conseguir fazê-lo – que pena a minha, entristece-me mesmo). Mas na Mercearia é fácil. Mas, mas, mas, o fazê-lo lá, exercita-me no olhar os meus (quem sabe um dia eu vou deixar-me ser olhada por quem agora não consigo eu olhar!). E não o faço para vender mais. Faço-o por ser bom.

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Com uma miúda fantástica que foi lá petiscar

Gostamos (mesmo se dizemos o contrário; detesto a expressão “me da igual”, o nosso “tanto me faz”, pela simples razão que é mentira) que nos chamem pelo nome, se gostamos da sopa a escaldar ou morninha, que nos reconheçam, de que falem connosco, ou não. Lá está, gostamos que nos tratem como pessoas.

Acontecem-me tantas coisas naquela Mercearia. O que eu já aprendi e o que faço agora, é a noite e o dia. Como diz um dos meus filósofos preferidos, italiano, do século XIV, o “eu” conheçe-se em ACÇÃO.

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As Quiches Criativas

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Um momento de pausa

E tenho sempre presente o que diz uma senhora que lá vai quase todos os dias: “nada de estragadelas”.

MC - Azeite
Numa prova de azeite, com uma amiga do bairro que visita a MC muitas vezes

Quer ela dizer para não nos esquecermos de sermos e tratarmos as pessoas como pessoas. É óbvio, mas esqueçemos facilmente. Mas é simples. Às vezes é não dizer nada. Outras é aquecer mais a sopa. Um sorriso. Um adeus. Um volte sempre.

MC - tete

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