LMCNome de Deus-1
Luis Miguel Sintra

Apenas duas palavras antes do texto integral. Luis Miguel Cintra dispensa comentários.Não há palavras. Aquilo que testemunhei esta tarde é que a cultura naquele teatro é imparável e de uma qualidade inestimável. Ouvir e ver o que se mostrou é, como diz T S Eliot, “entrar” num momento do tempo fora do tempo.

O texto de Claudel é de uma actualidade inpressionante. Para além de que – e sem querer exagerar – de tudo tem uma palavra a dizer. É como se a vida estivesse a acontecer toda condensada ali.A Beleza fez-se Carne. A vida é um Mistério. Eu não tenho que fazer nada. Por isso a páginas tantas leu Luis Miguel Cintra: “A primeira diligência da alma que escuta o apelo de Deus é descer nela mesma. Desce! Grita-lhe o Verbo Eterno, como Nosso Senhor a Zaqueu, porque hoje preciso de ficar em tua casa. Desce do teu poleiro, dessa árvore que faz lembrar ao mesmo tempo uma figueira estéril e a Árvore da Ciência do Bem e do Mal, recupera o teu tamanho natural, inclina o teu coração para mim e tudo o que em ti é capaz de escutar, ajoelha-te, renuncia por momentos à ideia de te mexeres. E a segunda saída, depois de termos encontrado Deus em nós, é sair com Ele, seguir o Filho que regressa ao seu Pai, obedecendo a essa voz que diz às Virgens da Parábola: Saí! – Tu, sai! Sai Jesus! Com todo o teu povo que te está submetido: depois disso nós sairemos. Eis a nossa religião, minha filha, que não é uma religião de permanência em nós próprios, mas de ruptura connosco mesmos, de movimento, de saída, de passagem em direcção a Deus”.

Relembro, ainda, que esta “leitura” de hoje se enquadra em O NOME DE DEUS -Pequeno ciclo de programação em torno da criação absoluta da peça O ESTADO DO BOSQUE de José Tolentino de Mendonça.

Janeiro 19 às 21h e 20 às 16h
Leitura encenada de Gennariello de Pier Paolo Pasolini, incluído na recolha de textos: Cartas Luteranas.
Tradução. José Colaço Barreiros
Leitura Luis Miguel Cintra

Janeiro 26 às 21h e 27 às 16h
Leitura encenada de dois capítulos de Au Milieu des Vitraux de l’Apocalipse de Paul Claudel (duas cartas à filha)
Tradução Maria João Brilhante
Leitura Luis Miguel Cintra

Fevereiro 7 a 24 de Terça a Sábado às 21h Domingo às 16h
O ESTADO DO BOSQUE
de José Tolentino de Mendonça

Encenação Luis Miguel Cintra
Cenário e figurinos Cristina Reis
Iluminação Luis Miguel Cintra e Cristina Reis com Rui Seabra
Som Joaquim Pinto e Nuno Leonel com Rui Seabra
Interpretação David Granada, Luis Miguel Cintra, Nuno Nunes e Vera Barreto

Agora sim, o texto de hoje.Marco a Bold as passagens que mais me impressionaram e às quais hei-de voltar.

Capítulos VIII e IX do livro Au milieu des Vitraux de L’Apocalypse, livro póstumo de comentários ao Apocalipse começado em 1928 e dado por terminado em 1932, publicado em 1966, editions Gallimard.
Tradução Maria João Brilhante

Capítulo VIII

Do Outro Mundo, Setembro de 1929

Minha querida filha

Recordas-te de como fui interrompido em plena sapiência interpretativa pelo nosso pequeno mensageiro que me trazia um telegrama. O mesmo telegrama que passei toda a minha vida a receber: Parti. (Sopram sobre mim e eis-me de partida, como um “floco de algodão”, ou como o ceifeiro Habacuc quando Deus o enviou junto de Daniel na sua cova, sem largar a sua marmita.) A minha marmita, é essa espécie de recipiente onde tentei amontoar os destroços do livrinho que o Anjo fez S. João comer. E agora existe entre mim, aqui onde estou, e ti, onde estás, esse não sei quê de convencional e de marulhante, que escapa à medição pela uniformidade, a que podes chamar se quiseres o mar ou a distância, mas que é para mim a forma habitual desta ausência de que sou o especialista e a interposição de uma vidraça intransponível e translúcida entre mim e tudo o resto. Já não tenho laços com nada, não estou verdadeiramente em parte alguma, e não tendo já nenhum sítio, no que me diz respeito, particular importância, permite-me datar esta carta simplesmente do Outro Mundo.
Este é particularmente notável pela quantidade de maçãs que o juncam. Rolam sob os meus pés. Tenho um sentimento na boca que me recorda o amaricari do Apóstolo; a malva branca e rosa, essa flor pela qual tive sempre um particular desafecto, floresce na erva molhada e chegou a estação de todas essas plantas que se assemelham à lã tingida e a um rascunho rasurado. O céu é cinzento, as pequenas teias de aranha sobre as sebes como camas de rede estão todas decoradas com gotas de água poligonais, ah, há chuva no ar durante todo o dia, e eu empurro, muito tempo, com o pé e a bengala à minha frente a mesma maçã. Sub arbore malo, diz um dos textos que me enchem a cabeça, sob uma árvore má a tua mãe (diz Deus a Israel) praticou o mal. Mal e maçã, é a mesma palavra em latim, da mesma forma que maçã significa todo o tipo de fruto em geral. É uma espécie de pequeno globo comestível que Eva estende misteriosamente a Adão no sublime quadro de Ticiano no Prado. Este país em que estou é estranho, todo cheio de enigmas e de alusões. Não nos fornece nenhuma razão convincente para estarmos aqui de preferência a outro lado. Até aqui as pessoas que o habitam tentaram destruí-lo mais do que aprisioná-lo. Está cheio de bossas e de buracos, passamos sobre ele de carro como sobre vagas, e se eu tivesse tempo contar-te-ía o nosso passeio do outro dia, em que os manicómios alternavam regularmente com as Escolas de professoras primárias entre Sodoma e Canaã. Essas montanhas arredondadas no horizonte mais nos sugerem o sono do que a paz e o honk! honk! das filas serpenteantes de carros na estrada não chega para incomodar o sonho desses Sachéns agachados.
Aqui e ali restam pedaços de selvajaria quase intactos, como restos de sonhos que se juntam ao estado de vigília. São sobretudo os charcos que eu aprecio – chamam-lhes swamps. Há uma prodigiosa variedade de flores, umas que conheço outras não.
Meto-me todo lá dentro, só a cabeça fica de fora e ali estou tranquilo. A frescura da água que passa através das plantas dos pés é-me tão agradável a mim como a uma planta.
Olho também com aprovação a pontuação errante dos insectos, os que pertencem à ordem dos Poilu e os da ordem dos Hoplitas, para não falar de toda a espécie de anões ridículos e de longas rapariguinhas: todos os mesmos que na Europa, mas cada um com uma diferençazinha inquietante. Sigo com o olhar as belas borboletas cambaleantes e basculantes, à procura sem dúvida do complemento de tubo digestivo que a natureza não se deu ao trabalho de lhes terminar. De tempos a tempos há as que acasalam e que voam com quatro asas, parecidas com o carro de Vénus. Quando estiver no cemitério sentirei a sua atrelagem impalpável passar sobre a minha vacuidade. Aquela que eu amo, diz o Cântico, é semelhante a não sei que cavalgada no carro de Faraó. Há também pássaros, uns negros e outros com um colete cor de rosa que lhes dá um arzinho impante. É pena que eu já não possa ouvir a conversas deles. Só os corvos permanecem meus amigos. Et Pharaon dixit ad Moysen: Cras. Não se deve confundir Faraó com Fetonte, é bem diferente, ainda que haja uma certa relação.
Quanto a vós, senhores esquilos cuja vida é uma série de estalos súbitos enobrecidos por um longo garbo vacilante, e quanto a vós, coelhos manhosos a que se chama aqui cottontails, tão joviais e roliços como o gordo macho humano quando nós pesamos dezoito libras, não tenho outra coisa a dizer senão que sois meus irmãos e dou-vos uma maçã.
Estou bem tranquilo no meio da vegetação. Era um lugar como este que Adão encontrara quando Deus o chamou ao Jardim. O grande vento que se segue ao meio-dia tinha-se levantado e Deus chamava-o por todo o jardim: Adam, ubi es? O outro evitava responder.
Ali, anuncia-me uma longa libélula, a última que não morreu ainda, no meio destes caniços que balançam os seus basculhos de veludo castanho, foi encontrado ontem um barquinho, é o berço de Moisés que mais tarde navegou até Belém seguindo pelo Jordão. Foi ali que toda a Igreja dormiu em tempos com uma gota de leite entre os lábios, toda envolvida com faixas sobre as quais as profecias estavam escritas em hebreu.
In secreto calami, diz o Livro de Job. O cálamo é o que serve para os Árabes escreverem. O meu amigo Schwob tinha-me dado um em tempos e perdi-o logo. In locis humentibus. Já é tempo na verdade de regressar à minha secretária e deixar esta sentinela que seria injusto chamar um torpor, quando ela é apenas uma espécie de olfacto generalizado e de atenção do espírito, tão fina quanto os pelos erguidos numa orelha de lebre. Cras! Cras! Diz-me o corvo compondo a sua gravata, que não pára de me acompanhar desde o Japão.
Pobre Pai! Como fomos maus! Como lhe causamos sofrimento! É do bom Deus que falo. Todos os dias podemos ler num monte de livros usados toda a espécie de parvoíces e de maldades acerca da ferocidade de Jeová e do Antigo Testamento que opõem ao Novo. Eu pelo contrário choro e o meu coração derrete-se ao ver tanta doçura e afecto. São precisamente estes acessos de cólera que me tornam tão simpático junto do pobre pai, tão humano, tão perto de nós. Ah, somos na verdade da mesma família! Sentimos que não sabe o que fazer com estes maus filhos, tão parvos, tão desleixados, tão ingratos, tão obstinados, – que mais irão eles inventar? Onde se foram eles meter? Em pleno charco, aposto! Vejam em que estados se puseram! Sente-se que fazem-no perder a cabeça. Só se fala disso em casa da Sagrada Família. No fim vamos ser obrigados a fazer qualquer coisa de desesperado! Et Deus dixit ad Pharaon: dimitte filium meum Israel! Que bondade para com o seu povo! Na verdade protegeu-o debaixo das suas asas!
É precisamente do Egipto que te quero falar, mas tenho tanta dificuldade em arrancar as minhas solas deste solo benevolente, quanto no passado os Israelitas da Terra de Gessen. Através da espessa Bíblia ouvi os relatos do Êxodo que vinham juntar-se às profecias do Apocalipse e não conseguia avançar sem decifrar o duplo acento destes versículos que se encavalgam. Ponho-me em marcha.
Moisés teve a sua revelação no deserto. Viu Deus. Deus revelou o seu nome que é o verbo Ser integrando nele todos os tempos. Revelou também ao profeta a sua missão que é libertar Israel. Israel é servo de Faraó no Egipto o qual o emprega em duros trabalhos de construção. Vai então ao Faraó e diz-lhe: Liberta o meu povo, devolve-me o meu filho Israel, liberta o meu filho Israel. Que quer isto dizer?
Israel é o povo de Deus e está misturado com um outro povo, é o escravo de um outro povo exclusivamente implicado em preocupações materiais e que não tem a noção do Ser único e transcendente. Não é verdade que esta situação se encontra em todo o lado desde a vinda de Cristo e especialmente hoje? Não vemos a mistura de duas Sociedades, uma Sociedade santa e virada para Deus que é a Igreja, uma sociedade pagã e virada para o mundo que é chamada espiritualmente Egipto (?) E Deus diz aos sucessivos Faraós: Deixa o meu povo! Deixa a minha Igreja! Os teus fins não são o dela! As tuas formas não são a sua forma. Deixa-a fazer a sua obra e acabar a sua missão. Deixa-a ser minha! Deixa os meus filhos serem meus! Não retenhas os meus movimentos. Não te agarres a Israel que se ergue para um outro destino e que calcando aos pés os teus ídolos dá ouvidos à sua vocação. – E da mesma forma Deus diz em cada época a Israel: Parte! Deixa isso! Sacode isso! Deixa à mulher Putifar esse casaco que te estorva! Sê só meu! Dá um empurrão! Vem comigo na solidão fazer uma caminhada de três dias! Deixa os mortos enterrar os seus mortos! Deixa estenderem-se no meio dos seus ídolos quebrados, no meio das suas instituições que se desmoronam e de todos esses nomes próprios meio apagados, todos esses povos cuja ocupação não foi senão preparar o seu túmulo!
Isto é o povo exterior, minha filha. Mas existe também em cada homem vivo um Egipto e um Israel, toda uma população interior de que te vou agora falar. É o povo agitante das nossas ideias, das nossas recordações, dos nossos desejos, dos nossos conhecimentos, dos nossos sentimentos. É esse povo de que se fala na prece no final da missa quando o padre diz a Jesus Cristo: Populum ad te clamatem propitius respice! É essa multidão confusa, essa barafunda informe, esse aglomerado de homens e mulheres e de crianças, que se comprimia em torno da montanha da Galileia e que Lhe mostrava o Apóstolo, dizendo: Não têm pão. – E noutro lugar está escrito: Não têm vinho. – É a própria Virgem Santa que faz essa observação. – E o Nosso Senhor contemplando essa massa de olhos e bocas disse: Misereor super turbam. Tenho piedade da multidão.
Há de tudo nessa multidão, impossível reconhecermo-nos nela. Há simples curiosos, há glutões, há traidores, há sábios, tão compactos e cheios de si próprios como rabanetes negros, há órfãos, há amputados, há viúvas em lágrimas, – há Israel! Tudo isso grita confusamente por Deus à vez, mas só Israel tem a ideia de o seguir, porque só ele possui as palavras da vida. E Deus diz através de palavras de silêncio às nossas outras paixões, aos desejos, conhecimentos, convicções e hábitos: Largai-o. Deixai-o ir comigo onde quiser. Bem vedes que não é feito para vós. Quando vos cansareis de vos agarrardes a ele e de vos sentardes sobre o seu coração? Deixai-o fazer uma caminhada de três dias e que ele sacrifique a mim, longe de vós e das vossas imundícies, no deserto, um holocausto completo da sua vontade, de que ele próprio será a vítima e o padre. Abri-vos e deixai-o passar.
Aqui está. Agora o terreno está desenvencilhado à nossa frente, se pensarmos que de cada vez que Moisés fala com Faraó, é a este duplo povo que ele faz uma admoestação.
Faraó emprega Israel no Egipto em trabalhos servis. Manda-o fazer tijolos, isto é, amassar terra, que prensam em seguida numa forma e aí está um tijolo. É o tipo de trabalho em série, totalmente baseado na quantidade, na geometria e no algarismo. O agricultor não pode dispensar a Providência, mas a indústria, sim, perfeitamente, só precisa de matéria-prima e de mão-de-obra. O tijolo, é o elemento da casa e da cidade. Faraó nem quer dar a Israel palha para armar a sua massa, como se faz actualmente com caules de ferro para o cimento. A palha, é o que resta do frumento quando o grão foi retirado. Aquilo que antigamente tinha uma estreita conexão com o frumento, mas que agora está dele separado, o que resta dos laços sociais, dos costumes e das regras morais úteis quando a fé em Deus se foi embora, quando da religio só resta a ligação. Mas nem disso o Faraó hoje quer saber, é preciso ir respigar as suas regras de vida, os seus elementos de solidariedade, por todos os lados, à sorte, dia a dia. Tudo o que se consegue juntar não passa de forragem vaga e palhinhas secas. Stipulam siccam. Dispersusque est populus per omnem terram Aegypti ad colligendas paleas.
Vejamos agora o que vai acontecer a Faraó, esse cruel tirano que quer obrigar Israel a ficar no Egipto. O Egipto, é o país ao qual o Profeta faz dizer: Meus est fluvius, o tempo é meu, o curso das coisas é meu, como um ribeiro no meio do meu corpo, e fiz-me a mim próprio, et Ego feci memetipsum. Quer impedi-lo de celebrar a Páscoa e de passar essa suprema passagem que é o seu destino, da mesma forma que nos últimos dias acumulam tijolos em torno da Igreja, muralhas de livros sem palha, para o impedir de passar e de saltar, de conduzir para fora deste país que se fabricou a si próprio o seu povo que em nenhuma parte encontra habitação permanente. Da primeira à última profecia a Bíblia está repleta de imagens que proliferam em torno das mesmas ideias, como as flores, essas rosas dos ventos, cuja corola é feita de uma espiral em todas as direcções. Para tomar apenas um exemplo, que signo é este que o Senhor dá a Moisés: Põe as mãos no teu peito e ele ficará leproso!
Pôr a mão no seu peito, não é o homem a olhar para si, a estudar-se a admirar-se a si próprio, a pôr a mão na sua própria estátua? E quando Deus lhe diz em seguida: Põe-na de novo no teu peito e ele ficará são, não é isso o olhar interior da penitência, a mão direita, instrumento da criação, que afasta os invólucros e que vem tomar contacto com o coração?
Faraó tem horror a Israel e no entanto não pode passar sem ele. Essa judiaria toda, essa beatice, tresanda ao seu nariz. Há uma certa emanação em torno de Israel que o enjoa. Foetere nos fecisti coram Pharaone et servis ejus. Um certo odor a morte totalmente inconveniente e deslocado no meio dos nossos belos ídolos inanimados. E no entanto Faraó compreende que existe no seu cativo algo de essencial. Não se pode deixá-lo partir desta maneira.
Bom. Eis Moisés e Abraão ambos frente ao Rei das trevas. Moisés, o velho balbuciante, é a profecia obscura e entrecortada; e Abraão, o seu infalível intérprete, é a Igreja ordenada para esse cargo.
Deus deu a Moisés uma vara, raio portátil, prolongamento da pessoa, emblema do poder, de rectidão e de medida, por meio do qual ele realizou todos os seus prodígios. Reges eos in virga ferrea, diz o Salmo, é uma regra de ferro que vence tudo e que quebra as fracas baixelas de circunstância, et sicut vas figuli confringes eos. Por vezes transforma-se em serpente, é como se estivesse animada de vida autónoma, como se penetrasse em todas as coisas à maneira de um elemento. É então um princípio maleável e devorante que aniquila as outras cobras postas a circular pela malícia dos mágicos.
A primeira praga do Egipto, é o sangue, esse sangue de que já tanto falámos sem conseguir estancar todas as suas significações. Moisés estica a sua vara sobre o Egipto e correu sangue, cruor, sobre toda a terra do Egipto. No rio e nas lagoas, e nos recipientes de madeira e de pedra, a água transforma-se em sangue. Apodrece. Os peixes morrem. Não há mais nada para beber. Todavia, as pessoas cavam poços à volta do rio e desse modo conseguem penosamente saciar-se.
O sangue é o elemento fluído intermédio entre a carne e o espírito e assim que a alma de alguém sofre, ele altera-se. O povo diz que ficou com o sangue revoltado. Deixa de ser o licor benfazejo e invisível que alimenta em segredo a população das nossas células. O sangue, mal aparece, mal o interior se torna o exterior, mal deixa de ser aniquilado na sua função, numa palavra, mal se torna propriamente sangue, coisa que não podemos nomear assim senão quando se escapou das nossas veias, indica sempre a lesão e o dano do nosso sistema circulatório. O pulso fica precipitado. O rosto cora. Os tecidos ficam injectados e congestionados. A temperatura aumenta. Não se consegue comer. As impigens e as comichões aparecem. A torrente interior carregada de venenos e de resíduos mortos que não consegue eliminar transporta por todo o lado a desordem e o sofrimento. Não é isto a pintura do orgulho e de um coração donde o amor está ausente, e onde o bater e o ir e vir dos nossos pensamentos já não encontra um fogo que o purifique? Quando Nosso Senhor elogia S. Pedro pela sua fé, Ele diz-lhe: Esta confissão, não é a carne e o sangue que ta fizeram proferir. E noutro lugar: O que suja o homem, o que transporta nele a doença e a morte, não é o que aí entra , mas o que daí sai. Ora aquilo que sai do coração por quatro portas é o Sangue. Num tal ambiente, nessa água morta e podre os peixes não podem viver. O peixe que vive na água, isto é na graça, e que não toca nunca a terra é o símbolo dos pensamentos de salvação, da natureza baptizada e o presságio sem membros mas com uma larga boca ávida e respirante do nosso estado glorioso. Sem falar desse vestido brilhante!
Eis pois a primeira punição dos que não querem dar a Deus o que Lhe pertence, esse filho no meio de nós detido e oprimido. Ela atinge o sangue, a própria fonte da vida e o ritmo essencial da nossa circulação, a respiração líquida.
Quanto á água que se corrompe nos vasos de madeira e de pedra, é o dom de Deus que se impregna e se putrifica nos corações animalizados. A madeira, é tudo o que é vulgar, comum, vilmente utilitário. Muitas pessoas têm o coração como um velho balde enxovalhado, como uma selha de animais, como uma gamela para os cães. E quanto a um coração de pedra sabe-se o que é.
Os buracos que fazem penosamente à volta do rio para aí recolher as infiltrações, é o trabalho que precisam de fazer para encontrar a Graça aqueles que não nasceram dentro dela, por exemplo os pobres hereges Ingleses. Quanto tempo foi necessário a um Newman para chegar à água clara!
– Da água passamos às rãs, é o segundo flagelo. O rio põe-se a ferver com rãs, é uma inundação, invadem a tua casa, o teu quarto, a tua cama, a cozinha, a zona dos criados, e misturam-se com os nossos alimentos. Sobem pelas próprias pessoas, entram-lhes pela boca. Olha! Justamente aqui está uma na erva aos teus pés, olha-a bem e diz-me o que vês.
Tem a barriga na terra, é a sua base, e as pernas dobradas e guardadas por debaixo como uma mola escondida, como se ela estivesse pronta a saltar de surpresa não importa para onde, executando uma espécie de detonação acrobática. Levanta a sua cabeça armada com grandes olhos redondos qual comadre ávida de mexericos e de coisas para ver. Ela é flácida, pegajosa e fria. Parece-se com espuma e lama. Salta pelo ar de repente e volta a cair sobre o ventre. Não serve para nada. Tem uma espécie de enorme boca sem dentes. Ela é vazia. Tudo nela é voz, que é uma espécie de voz de ventríloquo e quando todas as rãs de uma lagoa durante a noite conversam, é qualquer coisa!
Pois bem, na minha opinião, tudo isso, minha filha, quer dizer o imenso pântano das palavras vãs. Só tens de assistir a um jantar oficial, vê-las-ás saltar por todo o lado, elas escorrem do centro de mesa e atiram-se para a sopa e para o decote da tua vizinha. É chato, é inconsistente, não quer dizer nada e é sujo. É terra a terra, como se diz. Quando se escuta, entende-se que diz banalidades. Nasceu da saliva e vive na lama. São umas coisas que saltitam no mesmo lugar e não vão a lado algum. Onde quer que haja um grande ajuntamento, lá estão as rãs. Escuta o vasto coaxar social. Um salão, um teatro, a Câmara dos Deputados, aquilo ouve-se de longe, dir-se-ía uma panela a ferver, cada rã ladra sem escutar as outras. Admiremos esses queixos de senhora idosa e esses coletes amplos aos quais só falta uma cadeia de relógio em ouro. A rã vira a boca para o céu, mas ao mesmo tempo que emite ideias gerais há de cada um dos lados um grande olho que não nos perde de vista. Mas isso não é suficiente, as grandes cidades com os seus cafés e as suas avenidas fervilhantes não são suficientes. Multiplicaram-se as rãs, canalizou-se o seu coaxo, a rádio e o jornal despejam-nas nas orelhas em torrentes e aquilo salta por todos os lados. E mesmo quando estamos sozinhos, quando nos agitamos no nosso quarto, quando nos deitamos, ou quando sentados no meio de um bosque partilhamos connosco próprios filosoficamente o pão da lembrança e o queijo da esperança, as rãs não estão ausentes e a nossa existência passa-se no meio desses seres vazios e desses sons incoerentes. É o que nos diz o Salmo: Vere in imagine pertransit homo. Antes de passar o Mar Vermelho é preciso que Israel atravesse as rãs, para não falar dos sapos. A ebulição das rãs! Todas essas bolhinhas, ainda as vês agarradas às suas costas! Após o que reunimo-las em montes enormes quando elas morrem e a terra fica toda podre. Talvez se trate das bibliotecas. Com que coisa melhor se parecem as obras de Voltaire por exemplo do que com um grande monte de rãs mortas?
– A segunda praga vinha da água, a terceira vem do pó, eis aqueles a que a Bíblia chama Sciniphes. É uma espécie de pó vivo e ardente, conheci isso em tempos no pó de Pequim, nenhuma rede o impede de passar e devora-vos dos pés à cabeça. Não se vê nada, mas é impossível repousar, é-se atacado por todos os lados ao mesmo tempo e coçamo-nos com as mãos furiosamente.
Esta praga, minha filha, é a praga epidérmica. É o que ataca a nossa superfície, as mortificações da vaidade por exemplo. O nosso espírito regressa a ela todo o tempo, pica-nos no mesmo sítio e sentimos uma voluptuosidade dolorosa ao coçarmo-nos e ao despedaçarmo-nos. São as preocupações temporais, as invejas, as ambições, as inquietações com o dinheiro, as injustiças e os litígios, as vaidades exasperadas e frustradas. É o cilício vivo que nos impede de dormir, os piolhos espirituais, os agulhões agudos da forquilha do Diabo, as queimadelas lancinantes que nos fazem dançar e torcer na nossa grelha. Basta sobre isto. Haveria que escrever toda uma simbólica sobre as diferentes espécies de picadas dos insectos, o mosquito, o percevejo, a pulga, e as carraças vermelhas do mês de Agosto que vos entram por baixo da pele.
– Suponho que estás a seguir-me linha a linha pelo texto da Vulgata e então chegamos às moscas.
As moscas, minha filha, são a contrapartida diabólica das abelhas. As abelhas são esses insectos de ouro que voam de flor em flor para daí recolherem o néctar e a poeira, e que, bem carregadas desses puros elementos, regressam à colmeia para aí construírem o seu castelo teológico, todo repleto de uma vianda inefável. Falo da cera e do mel, da cera que a Igreja elogia no Sábado Santo e cujo consumo ardente acompanha cada manhã no altar o sacrifício de Nosso-Senhor, e o mel adorável e untuoso na nossa língua que é uma espécie de sacramento do sentimento.
As moscas pelo contrário, são os anjos negros da morte. Não voam de flor em flor, mas tudo o que está em vias de apodrecimento atrai-as por um lado e fá-las nascer. Que melhor imagem da arte e da literatura pornográficas, dos teatros, das conversas infames, e toda essa oficina de corrupção que se atarefa à volta das civilizações que se decompõem? Não é mel o que elas transportam, mas toda a espécie de pus, de matéria purulenta, de fermentos, e de doces intestinais. Tudo o que é a morte, tudo o que tresanda, tudo o que está a caminho da destruição, lá vão elas, trabalham ali dentro e vão transportar pedacinhos à direita e à esquerda. No outro dia quando te arranquei das mãos aquele livro de Marcel Proust, parecia-me que uma grande mosca da carne se passeava na tua cara, que passava sobre as tuas pálpebras e sobre os teus lábios o seu pincel embebido em suco cadavérico. Das retretes e dos matadouros elevam-se negras torrentes de moscas de toda a espécie, as que trazem a peste e as que apenas dão o carvão, as que sabem encontrar os recantos ternos, obscuros e húmidos da nossa natureza para aí desovarem. Porque destruindo pela boca, elas põem ovos pelo traseiro. Em torno delas um povo de néscios admira as suas bonitas cores metálicas e o casaco pitoresco que dão às irisações da carne podre. Eis a beleza, dizem eles, eis a vida! Que matéria para a análise! É verdade que as moscas fazem alguns estragos, mas isso não importa, porque em nome da arte e da beleza tudo é permitido. Este género de imbecis, nós chamamos-lhes papa-moscas.
– Parece-me, minha querida filha, que desde há um momento deixaste de me escutar. Eu percebo o que é. Leste antecipadamente a Quinta Praga e oiço-te a pensar: Meu paizinho, sinto muito, mas aí vais esbarrar. As moscas e a penugem esvoaçante da roseira brava ainda vá. Mas o que é que há a tirar do ponto de vista simbólico de uma epizootia? De todos esses animais que morrem, os carneiros, os cavalos, os camelos e as ovelhas?
Minha filha, não vale a pena ler a Bíblia se não acreditas que é a Palavra de Deus. A Palavra de Deus, não é a palavra do homem. Ora, se fosse necessário tomar a narrativa das Pragas, por exemplo, unicamente em sentido literal, qual seria a diferença entre a Palavra de Deus e a do homem? Não é preciso ser Deus para nos contar todas essas histórias, aliás instrutivas e edificantes. Quando dizemos de alguém: ele fala como um homem de negócios, como homem de Estado, como marinheiro, como militar, entendemos por isso que ele fala de coisas que conhece profissionalmente, de que é especialista e se tornaram para ele uma segunda natureza. Ora na Bíblia exerce-se a especialidade de Deus. Falar como Deus, é falar de Deus, da mesma forma que falar como homem, é falar do homem. A Bíblia de uma ponta a outra não fala senão de Deus e fala disso para todos os tempos e para todos os homens. E é o que constataremos como sendo exacto mesmo tomando-a no sentido mais literal, mais óbvio e mais puramente histórico. Mas não é proibido, a exemplo dos antigos Pais e segundo o conselho do próprio Nosso Senhor, de a Escrutar, de fazer aqui e acolá sondagens, poços à maneira de Isaac, que revelam as diferentes camadas de terrenos até que se chegue à água. Quando S. Paulo nos explica por exemplo que o preceito da lei: Tu não ligarás a boca do boi triturante, se aplica ao pregador que é digno de receber honorários, isso indica a que detalhe a interpretação simbólica pode legitimamente estender-se, qualquer que tenha sido a intenção primitiva do escrivão: e que vale a pena, lá onde o sopro telúrico faz mexer a varinha do feiticeiro, tentar um poço, mesmo que finalmente a água não apareça.
Tomemos então esse texto difícil num espírito de humildade, de reverência e de paciência. Trata-se dos animais. Mas na verdade, minha filha, tu habitas Paris neste momento, onde estão os animais então? Na minha juventude as ruas estavam cheias de cavalos e de pássaros. Desapareceram. O habitante das grandes cidades já não vê os animais senão sob o aspecto de carne morta que lhe vendem no talho. A mecânica substituiu tudo. E em breve será o mesmo no campo. Os animais faziam a aliança entre a terra e o homem. Há uma data de serviços que nos prestavam esses humildes irmãos e em que eles colocavam uma alma cheia de afeição e uma devoção obscura. O caseiro na sua quinta era como um rei no meio dos seus súbditos. Do boi lavrador, o grande engenho essencial aos quatro membros, até aos coelhos, até às galinhas na estrumeira, até aos pombos e às abelhas, nem um grau faltava, todo esse pequeno mundo à sua volta entrava na natureza de uma maneira múltipla e íntima, como se a vida que emana dele em toda a espécie de movimentos e gritos se propagasse pelos seus domínios. Agora uma vaca é um laboratório vivo, coisa que vi na Dinamarca, que se alimenta por uma extremidade e que se munge, através da electricidade, pela outra. O porco é um produto seleccionado que fornece uma qualidade de toucinho conforme ao standard. A galinha errante e aventureira é encarcerada e engordada cientificamente. A sua postura tornou-se matemática. Cada espécie é criada à parte e em série. Serão ainda animais, criaturas de Deus, irmãos e irmãs do homem, significações da Sabedoria divina que se deve tratar com respeito? Que se fez destes pobres servidores? O homem desfez-se deles cruelmente. Não há mais laços entre eles e nós. E os que ele conservou, retirou-lhes a alma. São máquinas, rebaixou a besta abaixo dela própria. E aqui está a Quinta Praga: todos os animais morreram, não existem mais com o homem.
Evidentemente, minha filha, não sustento de modo algum que estes pontos de vista proféticos fossem intenção do redactor do Êxodo. A palavra de Deus não é como um projector construído para iluminar à frente tal ou tal ponto em particular, mas como uma tocha geral que seguramos na mão e que leva a luz por todo o lado à nossa volta à medida que avançamos.
Toma aliás tudo o que acabo de dizer, não como uma solução mas como uma aproximação ao enigma. O animal é essencialmente uma figura, é ele que alimenta toda a retórica com a coragem do leão, a prudência da serpente, a doçura da pomba, etc., e por todas as portas da linguagem espalha-se até ao brasão e às marcas de fabrico. Foi especialmente construído para estar entre as nossas mãos como um alfabeto vivo e para nos introduzir das coisas visíveis às coisas invisíveis. E tal como a pomba e o cordeiro nos introduzem no próprio interior da Santíssima Trindade, assim todas as criaturas animadas nos dão uma pintura deste universo espiritual à sua imagem e de todos os movimentos que se agitam nas manjedouras profundas do espírito. Mas se não há uma realidade espiritual ao lado de toda esta presença material em nosso redor, se deste mundo ao outro podemos imolar de imediato todos os nossos animais de transporte, todas as nossas faculdades se reduzem à constatação e à exploração dos factos, e privamo-nos do meio de os conduzir, depois de os termos encerrado na Arca, até à montanha da consagração. No relato do Êxodo, minha filha, há uma palavra bem notável. O escritor sagrado não diz cuncta animalia, mas cuncta animantia, e, por outro lado, notas que ele não fala dos animais selvagens, mas apenas dos animais domésticos, dos que nos estão submetidos. Dever-se-ía então traduzir, não todos os animais, mas todos os animantes, tudo o que faz parte da nossa alma, tudo o que a ajuda a passar ao acto e à expressão e lhe dá movimento, figura e vida. É tudo isso, quando perdemos a noção de Deus, que perde a sua razão de ser. A alma perde o que a anima. O boi trabalhador, o burro heroicamente resignado, o cão amante, o camelo contemplativo e sóbrio, a galinha esquadrinhadora e glutona, o cordeiro do sacrifício, a ovelha fecunda e carregada de lã, o porco, ele próprio hilariante e saboroso, tudo isso está desafectado, tudo isso perdeu o seu interesse, tudo isso está morto, só há máquinas úteis, lojas vivas de matéria prima, que manobramos com mão mole e enfastiada. Os servidores da alma estão mortos. Ela é apenas servida por cadáveres vivos.
Em suma, a Quinta Praga do nosso Egipto espiritual, é o Aborrecimento.

Capítulo IX

Outubro de 1930

Minha querida filha

Tinha ficado no Aborrecimento, quando tive de interromper a minha carta para subir ao carro do Faraó e para responder ao convite que me fora endereçado para pintar o Outono entre o rio Susquehanna e o rio São Lourenço sobre um quadro tão largo quanto a metade da Europa.
(Os lagos são como os copinhos onde se vai refrescar o pincel de tempos a tempos.) O automóvel mudou com efeito totalmente as nossas relações com a natureza. Quando estamos a pé, tudo estava lá antes de nós, somos os peregrinos da Permanência e passamos, com uma progressão imperceptível, de um centímetro a outro e de um ponto de vista para outro ponto de vista. Mas com o automóvel tudo se pôs em movimento e dir-se-ía que somos nós que pincelamos a tela. Somos como o Todo-Poderoso que as imagens nos representam levado pelo seu carro de fogo e que sem se deter aplica à direita e à esquerda grandes pedaços da criação. Não se trata da dura trituração das antigas estradas europeias, acompanhada pelo tiroteio do motor. Agora deslizamos como no sono por correias lisas, voamos a toda a velocidade através da natureza sobre carris abstractos e como que neutralizados. E a pintura lentamente à nossa volta ergue-se e arredonda-se como uma paleta carregada de circunstâncias variadas, ela roda e joga, abre-se e fecha-se sob a acção de filamentos, como uma rosa da qual somos o centro, que se retraem ou se dilatam. Nós bebemos em poucos minutos todo esse sistema de lagos e torrentes contido numa das pregas do seu vestido e de onde muitos veados nunca saíram, ele apaga-se. Mal tive tempo de acabar os montes Adirondacks, de polvilhar com uma matéria branca esses pães luzidios com negros cristais que os terminam e é preciso fugir a toda a velocidade! E já a tempestade de chuva e de salpicos que essa áspera e selvagem floresta que acorre ao encontro do nosso capot chamava, se abate detrás da nossa caixa mágica. Estamos presentemente longe desse longo dia de céu azul, de chama e de cor, que houve ontem, ao longo do Lago Champlain, dessa passagem infinita de folhagens rosadas a que se misturam moscas negras, estrias com arremedos verdes e castanhos sombrios, (longe) da navegação sobre essas volutas de ouro e (longe) dessas horas repletas de maçãs. Atravessamos essa aresta e de um só golpe uma cidade inteira surge aos nossos pés, com os seus fornos, os seus edifícios de tijolo e vidro e toda a espécie de campanários. Ela mal teve tempo de completar o seu sistema de praças e ruas, antes de nela nos precipitarmos, primeiro a cabeça e dir-se-ía que as muralhas ainda tremem na mão dos maquinistas. Mas já a ultrapassámos e o último transeunte apaga-se da nossa percepção, como uma mancha cuja forma se espalha no mata-borrão.
E eis-me agora de novo frente à minha mesa de trabalho. Estou sentado sobre um pé, tenho a minha grossa Bíblia à minha esquerda, a língua entre os dentes e uma grande caneta de tinta permanente nos dedos.
O que me tranquiliza é que não tenho uma tarefa muito difícil pela frente. A Sexta Praga, são as úlceras, as vesicae turgentes, as diferentes espécies de bolhas vazias, que quando rebentam deixam no nosso corpo placas dolorosas e envenenadas: todas as manifestações e todas as feridas do amor próprio, todas as exposições de uma sensibilidade à flor da pele. Parece-me que já te falei disso, é inevitável que voltemos a cruzar de tempos a tempos o nosso rasto.
– A Sétima Praga é mais difícil: é o granizo, e recordo-me deste passo de Isaías: Ecce validus et fortis D[omi]ñus, sicut impetus grandinis: turbo confringens. Já falámos imenso do granizo e o horizonte tempestuoso do Apocalipse está riscado por ele por todos os lados. Nos celeiros do céu insultado amontoam-se quantidades de pedras, uma verdadeira moeda com a qual pagar as blasfémias da terra. O granizo tem os caracteres de uma crise, é fabricado em alqueires na tempestade e no raio, é um tiroteio súbito que se abre contra o mundo, eis o céu flamejante que nos lapida com pedaços de gelo, com ar endurecido, toda a vegetação é triturada, mesmo os homens e os animais, seus companheiros, são espancados no próprio lugar. Falava eu de uma moeda para nos pagar: o Apocalipse há pouco não dizia: um granizo que tem o peso de um talento? Essas pedras de água que servem para nos punir são menos duras e frias que os nossos corações. Chicoteiam-nos com elas. O granizo, minha filha, é pois, primeiramente, o símbolo desses espasmos, dessas revoltas bruscas da Natureza com as quais a nossa desobediência está obscuramente em relação e contra as quais toda a nossa ciência não será suficiente para nos prover. Somente a prece nos dá uma segurança contra as emissões furiosas do raio. Em segundo lugar ele é a imagem não apenas dos acessos de cólera da Natureza, não apenas das suas revoltas e das suas violências destruidoras, mas das do elemento humano. Olha para uma das nossas velhas igrejas pelas quais passaram a Reforma e a Revolução, deixando as suas marcas nas paredes como as linhas brancas das inundações. Vê esses pináculos demolidos, os Santos sem cabeças, esses vitrais em mil pedaços. Dir-se-ia uma vinha quando um tufão a danificou, onde não mais se encontraria um grão de uva. Os frutos e as folhas juncam a terra, é uma carnificina, como se diz, é um verdadeiro campo de batalha. Do mesmo modo a Humanidade de tempos a tempos tem necessidade de distender os nervos e é preciso aconselhar o Joseph Prudhomme e o Sr. Petdeloup a não a aborrecerem demasiado. Que se acautelem os homens e os animais em tal situação! É Paris após a Comuna quando as famílias recomeçavam a passear no meio dos nossos monumentos enegrecidos e respiravam a plenos pulmões o cheiro do petróleo, quando Bandiguet ardia sobre uma fogueira feita de maços de papéis do Tribunal de Contas. O nosso texto emprega por diversas vezes esta expressão para as vítimas das Pragas, Jumenta, os homens e os animais. Jumenta, são os bichos bons, os pobres diabos dos imbecis que se levam pelo cabresto sem saberem para onde vão e que pagam copiosamente pelos outros. Hoje mesmo houve um crash em Nova Iorque e todos os acessos a Wall Sreet estavam barricados com essa carne para canhão.
– Enfim, existe um terceiro sentido. O granizo, são as rajadas das paixões, que, na nossa juventude ou mais tarde, desabam sobre a nossa exploração interior e pilham as nossas searas nascentes. Isso começa pelo fogo, e acaba pelo gelo, quer dizer, pelo peso das preocupações materiais que nos incomoda e nos embrutece. Não somos mais que uma imagem de Deus infrutífera e mutilada. O Êxodo diz-nos que o linho e a cevada foram prejudicados, mas que o frumento e a flor de frumento, por chegarem mais tarde, não sofreram. O linho é a pureza que faz dos nossos corpos ao revesti-los os templos do Espírito Santo. A cevada, é o cereal que serve para os animais e que cresce nos terrenos pobres. Podemos compará-la a essa devoção à flor da pele e à flor do solo, a essa espiga leve e sem raízes de que se fala na parábola, que foi semeada na rocha e que um golpezinho de secura bastou para fazer morrer. O frumento pelo contrário vem mais tarde, serotinus, e o bom Deus quer muito fazer-nos ter esperança de que ele sobreviverá a muitas tempestades violentas mas passageiras. Assim seja!
– A Oitava Praga, são as locustas ou gafanhotos que um vento faz erguer-se sobre toda a terra do Egipto e que devoram tudo quanto existe de frutos e verduras. Falámos abundantemente dos gafanhotos, devem mesmo ter-te ficado alguns nos cabelos. Mas logo vem o vento de Oeste que se levanta e que os leva para o Mar Vermelho.
– A Nona Praga, são as trevas, as famosas trevas do Egipto, de que parece-me já falámos igualmente. Extenditque Moyses manus in coelum: et factae sunt tenebrae horribiles in universâ terrâ Aegypti tribus diebus. – Dixit autem Deus ad Moysen: Extende manum tuam in coelum: et sint tenebrae super terram Aegipti, tam densae ut palpari queant. – Nemo novit fratrem suum nec movit de loco un quo erat. Mas sobre este mesmo assunto não tenho outra coisa a fazer senão ler-te e comentar-te o décimo sétimo capítulo do Livro da Sabedoria: Enquanto os ímpios pensam que podem tornar-se senhores da nação santa: amarrados com os laços das trevas, encerrados sob telhados, como nós nos nossos assustadores sótãos sob andares sobrepostos, eles jazem por terra, fugitivos da eterna Providência, captivos e todavia em fuga face ao olhar eterno, trânsfugas da direcção que ele lhes indica. E enquanto se crêem escondidos no seio dos seus pecados obscuros, foram dispersos pelo véu tenebroso do esquecimento, eles dissipam-se pelos ares: com a consciência moral perdem a consciência de si próprios: é a perturbação e a anarquia dentro de si próprios, não acham o caminho, não reconhecem nada, terrivelmente assustados, transtornados por um espanto excessivo. Porque esta caverna que os continha, não os mantinha ao abrigo do medo. Não lhes dá nenhuma segurança. O medo era mais um laço a paralisá-los, porque um som descendente, qualquer coisa que se passa numa esfera por cima deles, um ruído que se propaga, qualquer coisa que determina os movimentos de queda na Bolsa, captada pelas antenas da rádio, assustava-os, prontos que estão a perder a cabeça, e pessoas tristes a aparecerem-lhes faziam-lhes medo. O som descendente, é a atmosfera de aborrecimento lúgubre que se abate sobre nós, as pessoas tristes, são as larvas de Ibsen, por exemplo, ou romances de Gide e de Marcel Proust. E nenhuma força de fogo podia fornecer-lhes luz, não, todos os clarões da Rua 42 e do Kurfürstendamn não seriam suficientes, nem as chamas límpidas das estrelas podiam iluminar esta noite horrífica. Subitamente aparecia-lhes um fogo cheio de terror, um fogo-fátuo, uma qualquer nova teoria filosófica, trazendo apenas o desespero: e escuta bem o que se segue, é prodigioso: atingidos pelo terror dessa face que não viam, estimavam ser piores essas coisas que eram vistas. Em todas as coisas há uma face que nós não vemos e é essa inquietação a par dessa ignorância que arruína e rói as arrogâncias da nossa alma. Não reconheces as abomináveis teorias de Kant e dos outros envenenadores que nos inspiram o desprezo pela Santa Realidade, pela criação e pela obra de Deus ao lado dos vãos fantasmas da imaginação e da falsa ciência? E todos esses mágicos grotescos, toda essa gloríola de falsa sabedoria, tudo isso acabava em vergonha e ridículo. Esses mesmos que nos prometiam expulsar a perturbação e o terror da alma enlanguescente, Nietzsche por exemplo, punham-se eles próprios a enfraquecer à nossa vista como que atingidos por uma caquexia lastimável e ridícula. Aqui chegamos a um passo difícil que traduzo literalmente: Porque se nada no aspecto dos monstros os perturbava, assustados pela passagem dos animais e pelo silvo das serpentes, tomados pelo tremor (como as crianças na profecia de La Salette), eles sucumbiam: e mais ainda, esse ar a que por nenhuma razão (ou abuso da razão) alguém poderia escapar, eles negavam vê-lo. Os monstros, são as construções fantásticas, mais hediondas que os ídolos polinésios, erigidos no desprezo de qualquer harmonia lógica e de quaisquer leis da vida e do bom senso pelos Senhores Filósofos, sem que eles fiquem de modo algum chocados com a sua absurdidade. Mas essas cidades da mentira que a ruína ataca mal são erigidas tornam-se o covil dos animais e das serpentes (herinacii domus, diz-nos o Salmo), dito de outra maneira dos apetites brutais e dos instintos insidiosos de destruição: o autor com a sua obra, tudo começa a tremer, tomado pela derrocada iminente. E quanto a esse ar, de que fala o final do versículo, e que os ímpios declaram com soberba que não vêem, ainda que os seus pulmões não consigam escapar-se a ele, que outra coisa é senão a fé em Deus indispensável à vida? O que é efectivamente o medo, acrescenta o versículo 11, senão a deserção dos auxiliares do pensamento? Quando nada mais temos para sustentar o recto emprego da nossa inteligência, quando atraiçoamos o património em nós da verdade e do sentido moral em benefício de vãs imaginações. E enquanto ele espera menos do lado interior, dos recursos interiores com os quais pode contar, calcula maior, e como que desmesurada, a não-ciência dessa causa à qual pede emprestada a sua tortura, tortura do espírito e do corpo para o pobre homenzinho, digamos Taine por exemplo e tantos outros desesperados que se torcem sob os pés cruéis desse ídolo sem substância que eles próprios fabricaram. O versículo seguinte mostra-nos a alma humana capturada entre a dupla vertigem da profundidade e da altura, engolida nos elementos e participando no seu sono, tomada pela loucura e pelo desespero: E se alguém caísse. Ei-lo internado num calabouço sem ferros, que eu conheci em tempos aquando da minha adolescência obscurecida por maus mestres. Desgraçados dos pobres e dos ignorantes, dos trabalhadores e dos operários, em tal Terror espiritual! Não existe sobre eles mais do que o jugo de uma necessidade inevitável. De uma ponta a outra são todos solidários de uma mesma noite. Estavam todos ligados, diz o versículo 17, pela mesma corrente de trevas. A sua escravidão era o instrumento da dos outros. O seu coração não está preparado para nada. Tudo o perturba, tudo o emociona, tudo o assusta, quer seja um espírito assobiante, um Voltaire por exemplo ou um Anatole France, ou a voz suave dos pássaros entre os ramos misturados, são os prazeres dos sentidos, as relações mundanas, ou o estrondo das pedras que se desmoronam, são os escândalos da Igreja (praecipitatarum, que catrapuz!) ou a corrida invisível dos animais que brincam, são todos esses divertimentos desconhecidos ou proibidos que a imaginação nos sugere, ou a voz forte dos animais que mugem, é a opinião à nossa volta, é a manada, ou se preferes, o rugido das paixões bestiais, ou ecoando das montanhas muito elevadas o eco, o barulho que a nossa própria voz faz na solenidade deste mundo desabitado. (Ainda há pouco o Sábio nos falava das altitudes do Inferno, dessa agitação das coisas inferiores que vem de cima, enquanto nós partilhamos os sonhos da impotente Noite.) – Tudo isso é a descrição das trevas do paganismo em que os povos aterrorizados rastejam entre os pés dos ídolos monstruosos, e dessas trevas mais espessas hoje ainda (nestes dias em que o suprimido princípio da Besta voltou a crescer) que a ciência materialista nos trouxe, tão compactas que podemos tocar-lhes, verificar a nossa ignorância, não apenas com as nossas mãos, mas com os instrumentos mais delicados e mais convincentes. As muralhas da nossa prisão aproximaram-se. Não declarava o ímpio que só acredita naquilo que pode tocar? Eis que lhe fizeram um fato de trevas à sua medida. Ninguém consegue já ver o seu irmão – Não tendo um pai comum, também não temos irmãos. Cada um por si. É o egoísmo geral, a avareza, a solidão mais invejosa, a serpente atada e reatada sobre si própria. Ninguém pode sair do seu lugar, já não é capaz de sair de si próprio. Fez um nó com o seu próprio corpo.
E durante este tempo, continua o Livro da Sabedoria, todo o vasto círculo de terras à nossa volta estava iluminado por uma luz límpida e contido numa liberdade real, em obras não impedidas. A todos esses infelizes somente era sobreposta uma noite pesada, imagem dessas trevas que haviam de lhes sobrevir. Eram a si próprios mais pesados do que essas trevas.
– Eis-nos chegados à Décima e última Praga e tenho muita vontade de a evitar, respeitando essa superstição sobre ser preciso em todas as coisas reservar o lugar do incompleto e do infinito. Tanto mais que nesse Extermínio dos Primogénitos a simbólica é de tal modo densa e confusa que nos levaria em toda a espécie de direcções estranhas à nossa bússola. No meio da noite, diz o nosso texto, Eu sairei pelo Egipto e morrerá todo o primogénito (no neutro) na Terra dos Egípcios, do primogénito de Faraó que está sentado no seu trono até ao primogénito da serva que está na pedra de amolar e a todos os primogénitos das bestas de carga, e haverá um grande clamor em toda a terra do Egipto. Que quantidade de pensamentos graças a estas palavras: No meio da noite, se erguem no nosso espírito! Será a noite da Criação? Será a da morte? Será a da ignorância? Pensamos no padeiro da parábola adormecido com todas as suas crianças no mais fundo das traseiras da sua loja, pensamos no clamor terrível que acorda de súbito as Virgens Loucas e Sábias, pensamos na noite de Natal e na da Páscoa. Tudo isso está ligado por uma rede de veias invisíveis e inumeráveis. Ponhamo-nos antes de joelhos, minha filha, e escutemos esta voz que emana do mais profundo do Abismo da Escrituras: No meio da noite Eu sairei. E esta misteriosa reprovação dos primogénitos, quantas alusões e signos orientam nessa direcção toda a História Sagrada! Quia prima abierunt. É Lúcifer precipitado do Céu, é Adão, é Caim, é Jacob que suplanta Esaú, é Absalão, são as primícias de qualquer mulher (omne masculum adaperiens vulvam) e de qualquer ser vivo que Deus ordena que se sacrifique ou se resgate pelo preço do sangue, é o Filho mais velho da Parábola, é Israel execrado! E, no meio de todas estas figuras, o Primogénito por excelência, o próprio Nosso Senhor, ao mesmo tempo reprovado e redentor! O Primogénito é assim mostrado num duplo carácter. Em primeiro lugar ele está mais próximo do seu autor, é a sua invenção original, é a sua primeira obra que serve de algum modo de exemplar e de espoleta para todas as outras, toma assim uma espécie de hipoteca sobre todo o resto da produção, ele é também essa primeira separação que o Pecado Original acentuou tornando-a culpada. O Primogénito está mais próximo da origem, mas está também mais próximo desse Pecado Original associado à sua aparição. Tem a seu cargo ao mesmo tempo a sucessão e a ruptura. Ele é o filho da Natureza e da Necessidade. E o que vem depois dele é o filho gratuito da Graça, o artífice da reparação. Sobre estas sugestões, detendo-se umas vezes num ponto outras vezes noutro, joga-se o jogo inumerável dos símbolos e parábolas da Bíblia.
Para o nosso propósito, que é a consideração dos castigos ligados a uma concepção puramente material da vida, apenas reteremos na primogenitura as ideias de rectidão e de continuidade. Deves ter notado ao ler a História de França que após reis criminosos ou escandalosos, como Filipe o Belo, Francisco I e Luís XV, a linhagem interrompe-se e a sucessão é retomada através dos rebentos colaterais. Dir-se-ía que a seiva secou no caule segundo esta palavra de Job: Numquid virere potest stirpus absque humore? Aut crescere carectum sine aqua? – E esta observação aplica-se não só às genealogias humanas mas às heresias e às doutrinas filosóficas que crescem em algumas semanas como juncos e depois põem-se a amarelecer. Olha em que triste estado por exemplo está hoje a teoria da Evolução. O Darwinismo propriamente dito está morto e em seu redor proliferaram uma quantidade de teorias amarelecidas que não prometem muito. – Seja como for, dir-se-ía que o homem infiel à vocação tradicional da sua raça, que fixa de alguma forma o seu destino sobre si próprio, como trai a sua origem descarta-se da sua própria continuação. Daí o vento árido que passa sobre as famílias e sobre as nações ímpias. Não nascem mais crianças. O poder divino da criação é-lhes retirado. É a árvore seca que não serve senão para ser lançada ao fogo. Porque continuaria então a ocupar a terra? O Primogénito (no neutro) abortou. Era depositário de qualquer coisa que já não é capaz de continuar.
Mas passemos a um outro patamar seguindo o exemplo do nosso pai São Gregório e encaremos esta situação interior de que te falava na última carta. Israel prisioneiro de Faraó, é o homem novo prisioneiro ainda do homem antigo, é o antigo documento do Tantum ergo que ainda não cedeu o lugar ao Rito novo; e a sua libertação, é a Graça que trabalha clandestinamente para desatar os laços da Natureza, é o homem novo que já não permite ao homem antigo continuar e apropria-se da sua herança, é o Amor sem qualquer som ou publicidade que se livrou da Lei. Esta dura Lei natural a que São Paulo chama a lei dos membros, a codificação dos meios, esta Lei que os nossos homens de Estado e os nossos sábios não deixam de trazer na boca. É a mãe sem quase disso se aperceber (III Reg., 3) que aproveita a cegueira e o silêncio da noite intempestae noctis silentio para sufocar o seu filho primogénito. E que outra coisa significam as curiosas indicações do Êxodo, que morresse qualquer primogénito, primogenitum, desde o do Faraó no seu trono até ao da serva na pedra de amolar e da prisioneira no seu calabouço? Que Faraó é este no seu trono senão a nossa razão? Quem é esta serva na pedra de amolar senão as nossas faculdades práticas, tudo o que empregamos no trabalho do campo, da fábrica e do escritório? Quem é esta prisioneira no seu calabouço, senão o nosso poder de desejar, ligado por dois atilhos como São Pedro, quer dizer, por um entrave interior e um obstáculo exterior, aprisionado no seio das coisas mais próximas? E que coisa é essa à qual a nossa alma assim encarada de um triplo aspecto dá origem, que fruto é esse que ela produz à sua imagem, senão o que existe de menos profundo e o que se apresenta em primeiro lugar, senão o mandatário do Pecado original e a própria criança da natureza caída, senão a nossa semelhança ilusória, esse ídolo à flor da pele que trazemos em nós e o nosso reflexo no espelho, senão essa pessoa tristemente conformada pelo hábito à imagem da nossa segunda natureza, senão a expulsão e a apresentação do lado de fora daquilo que é outra coisa diferente de nós mesmos? É preciso que a criança da natureza morra em nós e que seja substituída pela criança do Dom e da Graça. Nesse abraço mudo e envolto em trevas da carne e da alma, que se desejam uma contra a outra, não está dito que será sempre a carne a ser a mais forte.
Ela que tenha cuidado não vá eu um destes dias estrangular, ou em consequência de um movimento qualquer me aconteça não deixar viver, sufocar apoiando-me sobre ela com todo o meu peso, essa criança que me foi feita por um mestre ilegítimo. E não volte eu à minha verdadeira pátria, à minha verdadeira vocação, tendo substituído à criança da minha desonra a do meu furto e à da minha feminilidade a do meu arrebatamento: à que morreu durante a noite a que está viva durante a noite. Encontro nessa companheira mais inteligências do que as que ela crê e se porventura ela viesse a retomar legalmente possessão dessa criança que se tornou agora minha porque a alimentei com o meu leite e porque partilhei com ela o que está dentro de mim, tudo o que tenho a dizer, é que desconfie dela! Faria melhor em ma deixar inteira, já que com razão repudia nela essa separação, inacessível ao combate mais afiado.
O Anjo Exterminador passou; interrompeu misteriosamente em toda à volta de Israel a corrente da vida. E agora chegou o instante da separação, essa ruptura que Deus quis envolver com véus tão impenetráveis que não soubéssemos outra coisa senão que por milagre Deus separou Israel do Egipto. – Não houve um latido de cão, diz o versículo 7 para denunciar essa perturbação em nós e esse vasto êxodo dos homens e dos rebanhos. O movimento começou, propaga-se por todos os lados até ao fundo das aldeias mais longínquas, por todo o lado onde por entre os clamores selvagens dos pagãos castrados está escondido um Israelita com os seus filhos intactos. Por todo o lado é a confusão da mudança de casa e da Conversão. A Humanidade, evocada por Deus, remexe até ao fundo dos seus tesouros, requisita por todos os lados o ouro e a prata, tudo o que lhe pertence, tudo o que pode estando ao seu serviço ajudar a servir Deus, tudo o que o desejo e a sabedoria dos homens prepararam e balbuciaram durante a noite. Não é somente os vasos de ouro e de prata, é toda a arte, toda a ciência, todos os recursos da civilização, a beleza grega, a Lei Romana, os tesouros dos Reis Magos e Aristóteles para lá de Platão que a Igreja resgatou para continuar a sua marcha triunfal. Com os materiais das barragens que lhe opunham ela construiu as suas catedrais. Eis Israel com um grande esforço que se desenraíza do Egipto e que leva consigo a matéria inumerável do seu sacrifício. Há duas maneiras de sair que são ambas descritas pelo versículo 8 do capítulo XI. A primeira é uma descida: E todos os teus servidores, é o Pai que fala a seu Filho na figura de Moisés, descerão até mim e adorar-me-ão. A primeira diligência da alma que escuta o apelo de Deus é descer nela mesma. Desce! Grita-lhe o Verbo Eterno, como Nosso Senhor a Zaqueu, porque hoje preciso de ficar em tua casa. Desce do teu poleiro, dessa árvore que faz lembrar ao mesmo tempo uma figueira estéril e a Árvore da Ciência do Bem e do Mal, recupera o teu tamanho natural, inclina o teu coração para mim e tudo o que em ti é capaz de escutar, ajoelha-te, renuncia por momentos à ideia de te mexeres. E a segunda saída, depois de termos encontrado Deus em nós, é sair com Ele, seguir o Filho que regressa ao seu Pai, obedecendo a essa voz que diz às Virgens da Parábola: Saí! – Tu, sai! Sai Jesus! Com todo o teu povo que te está submetido: depois disso nós sairemos. Eis a nossa religião, minha filha, que não é uma religião de permanência em nós próprios, mas de ruptura connosco mesmos, de movimento, de saída, de passagem em direcção a Deus: E quando os vossos filhos, como tu hoje, vos perguntarem: Que religião é esta? Dir-lhes-eis: É a vítima que imolamos em memória da passagem do Senhor, quando Ele passou sobre as casas dos filhos de Israel no Egipto, ferindo os Egípcios e libertando as nossas casas. E todo o povo, tendo-se curvado, adorou.
– E, se quiseres, deixaremos por agora Israel continuar o seu êxodo, acompanhando-o simplesmente com um olhar aprovador, em direcção à longa linha de montanhas de nácar e de pérola por detrás da qual se estendem as paisagens atormentadas do Apocalipse. É ali que nós próprios chegamos por um desvio e que nos espera a tarefa interrompida que precisamos de reintegrar. Fiquemos um momento sobre esta colina a esta hora em que o sol se ergue, enquanto aos nossos pés, desfila tribo após tribo a coluna interminável dos homens e dos rebanhos. Uma elevação de fumo ardente precede-os e eles não sabem onde vão, mas nós, nós temos todo o itinerário em perspectiva, do Nilo até a essas paisagens incertas que nos deram a reconhecer, semelhantes a Calebe, filho de Jéfoné, e a Josué, filho de Nun.
– E visto que me sobra um pouco de papel, aproveito rapidamente para colocar aqui um texto sobre os tremores de terra de que me poderia esquecer. É um versículo do Livro de Job: Et tenuisti concutiens extrema terrae et excussisti impios ex eis. Compreendes: é como uma coberta que seguramos pelos quatro cantos e que sacudimos: ou como uma joeira. Não se sacode sem segurar firmemente ao mesmo tempo e a prova de que Deus nos segura é que nos sacode. – Ele precisa absolutamente de recuperar esse dracma perdido. – Nessa agitação geral, não há maneira de os maus elementos se dissimularem. Picam-nos um a um. – E do mesmo modo essas grandes crises morais que nos transtornam o espírito e o coração, mas que nos limpam. É aquilo que um filósofo chama a purgação das paixões.
Regressemos a Calebe e a Josué. Reconhece-los, minha filha! Não te esqueceste das nossas duas testemunhas, nem desses dois peregrinos que dobram sob o peso de um cacho desmesurado. Escuta o que nos dizem acerca disso os Livros dos Números e do Deuteronómio. Vale a pena prestar atenção, porque também nós não deixamos de acampar com Israel sob as suas doze insígnias às portas desses campos maravilhosos e suspeitos. Moisés enviou dez emissários, um por cada tribo, para inspeccionar a Terra Prometida e eles regressam aterrados. É verdade que ela jorra leite e mel, alimento e suavidade. Mas não há como nela entrar e habitá-la. Tudo o que vimos é desencorajador. Ibi vidimus monstra quaedam filiorum Enac de genere gigantes: quibus comparati quasi locustae videbamur. Que é que nós somos, nós, pobres catolicozinhos, ao lado de Gigantes da Ciência e da Filosofia Modernas (nunca colocaremos maiúsculas em demasia), ao lado de personagens como os Goethe e os Renan, e de sistemas tanto mais impressionantes quanto nunca percebemos muito bem como se harmonizam. Gafanhotos, minha filha, simples gafanhotos! O que é o Cura de Ars por exemplo ao lado de todos esses patifes entripalhados? Esta velha que recita o seu terço, este papa-hóstias repugnante que vemos sempre meio engolido num confessionário com as suas peúgas de lã branca tricotada que caem em caracol sobre os seus sapatos, não vais dizer-me que sabem tanto como o Sr. Renan, membro da Academia Francesa, professor no Colégio de França, e toda essa raça de Gigantes que dominam todo o século XIX desde Goethe até Tolstoi. E não só isso, mas o volume que eles fazem! Monstra. Teorias que se elevam até ao céu e não há maneira de nos havermos com elas porque derretem e transformam-se à medida sob o vosso abraço sem perderem nada da sua atitude triunfal e ameaçadora. E não só isso! Mas o número está contra nós. Maxima multitudo est. São superiores a nós em todas as coisas: et nobis statura procerior? Nada a fazer com tais espertalhões! E que cidades subindo até ao céu! É com o Evangelho que ides tomar tudo isso? Julgaríamos escutar os primeiros cristãos quando entraram em Roma, em Éfeso, em Benarés e em Pequim, ou um pobre padre lituano desembarcando em Ellis Island. Urbes magnae et usque coelum munitae. É todas as Universidades do mundo que temos de tomar de assalto. Vale mais regressar ao Egipto rapidamente. Eis o que nos dizem os exploradores. E para nos reconfortar há apenas as duas Testemunhas que atestam isso rasgando as suas vestes (quer dizer cujos filhos de Deus sabem encontrar o sentido através do saco feito de pelos de animais e de crinas irritantes), há apenas os dois Testamentos que nos dizem: A terra a que demos a volta é muito boa.
– E as duas colunas, uma de grossa nuvem durante o dia e a outra de fogo durante a noite, que conduzem o povo de Israel, não as esqueçamos! Enquanto os nossos olhos se regalam com o espectáculo desta mesma terra à volta de nós, a grossa nuvem do testemunho, como diz São Paulo, frente a nós, parece-nos qualquer coisa ao mesmo tempo de insubstancial e de obscuro. E no entanto, bem poderemos procurar, não há outro laço entre o céu e a terra senão essa barreira sombria e inacessível, caminhando através do século sempre a mesma. Mas quando a noite cai sobre o mundo e o nosso espírito desconcertado não distingue nada mais aí, fica todavia para nos guiar, como os Magos outrora, este peregrino de luz, esta conjunção metafísica, que transcreve na estrada as intenções do céu. Quando nos falha o conhecimento, fica o Amor e a afirmação vertical da nossa Redenção através do Nada de tudo o resto.
É sem dúvida em comemoração desta dupla presença que Salomão ergueu no seu palácio e no seu Templo as duas colunas decoradas com filetes, com granadas e com lírios, de que se fala nos livros dos Reis e de Jeremias e que se chamavam Jachim e Boaz. As testemunhas já não estão a caminho; receberam residência; estão fortemente enraízadas no solo em frente do trono do Rei e do Santo dos Santos. E quanto à decoração dos capitéis, a esses troféus que as colunas trazem na cabeça: as cordas ou os filetes (retiacula) lembram o que lemos em Ezequiel acerca da Siccatio sagenarum, são os laços em comprimento e em largura da Constituição divina, que não deixam escapar nada, a construção de todas as coisas que é fundada sobre a cruz: temos aí uma imagem da Fé. As granadas são esse fruto feito de sementes envolvidas por uma polpa vermelha e translúcida, ao mesmo tempo deliciosa e ácida, que deleita ao mesmo tempo e que excita o paladar. É acerca delas que o Cântico escreve: Emissiones tua paradisus malorum punicorum cum pomorum fructibus. Semente, sabor antecipado, toda a Esperança está nisso. E finalmente os lírios, não são eles a Caridade, segundo esta palavra do Cântico: Labia dilecti, lilia distillantia myrrha (a mirra significando a imortalidade). É para eles sobretudo que eu chamo a tua atenção. Não é curioso ver honrar no Templo de Jeová a flor Sagrada do Egipto, da Índia e de toda a Ásia? Eu poderia meditar longamente sobre isto no fundo destas lagoas que te descrevi na minha última carta. – As duas colunas são feitas de bronze fundido, isto é, de uma mistura de prata e de cobre. A prata é a palavra de Deus argentum purgatum septuplum, purificada sete vezes pelo Santo Espírito, e o cobre é a sonoridade terrestre, todo esse material de imagens emprestadas à nossa morada, todo o rumor incluído no fundo do nosso solo. As colunas Jachim e Boaz hoje, são as torres gémeas das nossas catedrais e o bronze delas é o dos sinos.
Acabei a minha passeata egípcia e na próxima carta reintegrarei contigo o Apocalipse e essas regiões ambíguas onde o presente está em trabalho do futuro. Basta-nos para isso, após termos deixado os Judeus entregues ao seu empreendimento de colonização, virar à direita e ir ter com o nosso grande rio Eufrates.

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