Django libertado

por Papageno*

Django

Ao ver o majestoso Django, o mais recente filme de Quentin Tarantino, lembrei-me das declarações do Chefe de Estado sul-africano, Jacob Zuma, algures em finais de Dezembro de 2012, segundo as quais ter um cão como animal de estimação não fazia parte da cultura africana e leva-lo passear ou ao veterinário era uma clara imitação da cultura branca. Não vou contar nem a história, nem o final, para não frustrar expectativas de quem ainda não viu o filme, mas enquanto os cães retraçavam o Dartagnan – o escravo – gladiador que já não aguentava mais lutar – não pude deixar de pensar no reparo do Presidente Zuma. É verdade, Django é ficção e passa-se em 1858 algures no sul dos EUA, mas também é verdade que o Apartheid só acabou em 1994. Já não havia escravatura, mas havia gente a ser tratada abaixo de cão.
Este aparte leva-me às críticas feitas ao filme quanto à alegada violência excessiva (se é que existem níveis aceitáveis e não exagerados de brutalidade, mas isso levar-me-ia a novas divagações). Sei que a referência era feita à quantidade astronómica de sangue e explosões. Mas é Tarantino, pela sua natureza um filme seu é violento, tal como tem inevitavelmente diálogos geniais, e o Django não é mais brutal do que o Cães Danados ou o Kill Bill, apenas tem um orçamento superior. Tal como a mesada da altura carnaval dos miúdos acaba inevitavelmente em bombinhas de vários tipos, também o dinheiro nas mãos do Tarantino acaba em explosivos e sangue falso, e eu gosto dessa sua faceta de Peter Pan milionário. Mesmo porque o impacto das vísceras espalhadas pelos sete cantos é muito menor do que o das chicotadas nas costas dos escravos, essas sim fizeram serrar olhos, mas disso já nós tínhamos na Escrava Isaura e felizmente não houve censura à novela de Bernardo Guimarães.
Muito poderia dizer acerca do Django, acerca da forma fantástica como a banda sonora reúne música digna de um clássico dos westerns com rap, acerca do brilhante trabalho dos actores – o sotaque e a ironia britânicas de Christoph Walz, o ar gingão de Jamie Foxx e a malevolência de Leonardo DiCaprio – acerca da caracterização e das cores que nos arrastam para o Mississípi, acerca do humor digno dos Monty Python na cena em que os membros do Ku Klux Klan não se entendem com os barretes brancos, poder podia, mas não seria a mesma coisa, e há algumas que só vendo.
Para quem não gosta da violência excessiva recomendo que não veja o filme, mas também escusa de ligar a televisão e muito menos ler jornais, porque estão cheios de histórias de gente a ser tratada abaixo de cão e de canídeos distratados por essa mesma gente. Admito que muitas pessoas não irão apreciar o exagero kitsch quase infantil de Django, lá está, cada cabeça sua sentença, mas trata-se sobretudo de uma questão de gosto e não de violência.

* Papageno escreverá um artigo no 100mim, à 2ªfeira

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