DJANGO 11
Tarantino e o seu Django

Vi ontem à noite o Django, de Quentin Tarantino. Não me interessa ler primeiro a crítica. E nem tenho tempo! Escrevo quase sempre à minha “vista”, tirando, neste caso, o artigo de Papageno de anteontem, aqui no 100mim, que o considera majestoso. Claro que vivo neste mundo, e é sempre a questão da violência do sangue à grande e à francesa. Mas o que julgo é que este filme é de uma humanidade deslumbrante porque com a sua simplicidade me faz, mais uma vez, entrar no meu sangue. Nos sangues. Pouco me importa a intenção de Tarantino. Essa história das mensagens mata os filmes. O cinema é vida, e esta não tem mensagem, é um acontecimento. Olho por olho, dente por dente? Não. O que vi e vejo é que Tarantino tem olho e tem dente para mostrar o que é a vida. E quão ridícula sou ao tender para a demissão de viver em primeira mão.

Sangue? Conheço o que corre nas minhas veias e nas daqueles com quem me cruzo – e às vezes ignoro – todos os dias. Há o do talho. O da vida. O dos dedos cortados. O dos Hospitais. Realmente só vemos o sangue que queremos. “Tragam-me uma que tenha sido violada!”, gritava um jornalista duma influente cadeia televisiva norteamericana para fazer uma reportagem (contou-me um jornalista que estava lá e assistiu a este “fazer” jornalismo). E à noite papa-se no “telejornal”. E está-se a par e somos “solidários”, a distância. Humanos.

Talvez seja o filme mais simples de Tarantino. Na história, na clareza, na beleza da linguagem. Não é um western uma coisa simples? No centro há um amor que ganha, vencendo todos os obstáculos (não é isso que queremos para nós?) e uma justiça como desejo e exigência (também é connosco). Mas tudo acontece na câmara de Tarantino de uma forma impossível, numa linguagem imagética que é só dele, num humor descarado, óbvio, e que me faz rir do sério sem o banalizar. A cena do “final” da irmã de Leonardo DiCaprio é disso exemplo. Não é para distrair. Mas arranca uma brutal gargalhada muito, muito séria. O que con-centra ainda mais.

Qualquer criança o pode ver. Tarantino é também uma delas. Pode beliscar virgens ofendidas. Mas sabemos que o sangue não é sangue. Que estamos diante de hipérboles. E as crianças percebem isto tão bem. Fartinha de fariseísmos. Em violência clicamos, nós e os nossos, todos os dias e “no passa nada”. Eu cá falo por mim. E o pouco que vejo à minha volta é parecido.

A “imagem” do filme tem a marca Tarantino: uma imagem forjada. Isto é: o humano ( o olhar do Django é qualquer coisa de desarmante, penetrante, molhado, a pingar humano, a pingar-lhe o coração para cima de mim) cosido com imagens “quase” banda desenhada. A parecer kitsch. O olhar de Django é tudo isto e o olho de Tarantino capta genialmente tudo isso naquele segundo.

Imagens metáfora que nos dão um real de uma cor avivada, hiperbólica, inverosímel, enfim, toda ensanguentada. Mas de um sangue que – para usar a expressão de Chesterton que assim define o que é o “erro” – que é, acima de tudo, uma verdade enlouquecida.

Tarantino é um “brincalhão” que nos tira do nosso falso “sério” ao criar um mundo autónomo em que o sangue e as pistolas não o são. Com um orçamento mais “espaçoso” faz-me entrar nos nossos sangues e põe-me as pistolas na mão. E já perto do final, e entre a variedade e beleza de músicas da banda sonora, não se esquece, no meio de uma daquelas cenas de tiroteio fatal, que “Sometimes I feel like a motherless child”. Quem quer quer, quem não quer não quer. Não passa por isso a minha libertação?

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