O beijo

Papageno*

Se morderes a língua Papageno, morres envenenado! Maldita a minha língua corrosiva que só o é para falar! Quando penso nisso ecoa na minha cabeça o refrão de um romance cigano russo (algo parecido ao nosso fado): “Beija-me que gosto de ti, beija-me que não te envenenas”. Antes te tivesses envenenado com o nosso primeiro beijo!
É fascinante como entre milhões de beijos que damos ao longo da vida, beijos fraternais, beijos amigos, a nossa mente grava, sobretudo, os beijos apaixonados. E, entre esses, têm um destaque especial os primeiros beijos. São os primeiros beijos que transformam sapos em príncipes e acordam princesas, é o primeiro beijo após o “pode beijar a noiva” que marca o compromisso entre o casal. Pode não ser o melhor, normalmente não o é, mas nesse caso pouco importa, o facto de ser o primeiro garante-lhe o lugar na nossa memória poética.
Não me lembro de ter lido um conto ou visto um filme romântico em que apenas após horas de marmelada contínua, que nem manobra de ressuscitação executada pelo médico do serviço de urgências, se tenha salvo a alma do apaixonado, não, quando tem que haver o milagre do amor ele acontece num só beijo, no beijo! E mesmo que a seguir venha a dita marmelada, que os beijos se espalhem à velocidade da luz pelo corpo do outro, que sejam melhores e mais intensos, é do primeiro que nos lembramos.
Talvez pela natureza desconcertante do amor apaixonado, esse beijo, enquanto materialização desse sentimento, mesmo que apenas momentaneamente, é gravado a ferros na nossa mente. Naquele instante não interessa o que vem depois, se a relação dura um segundo ou uma vida, mas para quem beija, aquilo é a concretização de todos os amores outrora vividos nos livros, nas telas do cinema e nos palcos de teatro. Porque quando gostamos podemos querer fazer muita coisa ao outro, abraçar, acariciar, tocar ou simplesmente olhar, mas antes de tudo queremos beijar, como se o acto de tocarmos com os nossos lábios na boca alheia fosse um ritual iniciático. Assim foi, falamos horas, antes do nosso primeiro beijo, mas nada daquilo teve valor até ser consumado no nosso primeiro beijo, aquele momento oficializou tudo para nós. Foi um mau beijo, provavelmente o pior que alguma vez demos, disfarçamos, dissemos que foi à primária… Não só o beijo foi mau como o lugar era péssimo, cheio de cargas simbólicas arrastadas de vidas passadas… Podia ter sido remédio santo, uma eutanásia para os nossos sentimentos, mas foi sobretudo um beijo vacina, não tocaste na minha língua e por isso não te envenenaste, mas habituaste-te à minha boca e aquilo que corrói os outros a ti apenas te faz rir… Antes tivesse mordido a língua quando falava do que ter-me envenenado com o nosso primeiro beijo!

*Papageno escreve no 100mim à 2ª feira

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