metro Olaias

Luis Miguel Cintra leu este texto que abaixo transcrevo aquando da entrega do Prémio Pessoa a Eduardo Lourenço, na Culturgest. Na altura escrevi aqui no 100mim: The oscar goes to Luis Miguel Cintra: calor que provoca arrepio!
Posted on May 25, 2012 : Na entrega do Prémio Pessoa 2011, e tirando a estrela da festa, foi Luis Miguel Cintra – e logo a seguir o António Câmara – quem disse com todas as letras a palavra que falta a Portugal. E disse-o a ler um texto que escreveu, de oito minutos, o tempo que lhe deram.

O texto chegou hoje. Aqui vai.

«Que Portugal queremos daqui a 25 anos?»

Luis Miguel Cintra

É desconcertante para mim o tema deste debate. “Que Portugal queremos daqui a 25 anos?.” A pergunta, na sua aparente ingenuidade, quando lhe tentamos responder, levanta a cada palavra tanta questão complexa que com certeza garantirá uma animada conversa, mas não pode chegar, nem com certeza aspira, a nenhuma útil conclusão.
Não me passa pela cabeça que esta primeira pessoa do plural possa ser o conjunto dos portugueses. Não creio haver neste momento, nem nos tempos de que me lembro, qualquer sentimento de unidade nacional que permita reconhecermo-nos num mesmo desejo comum para o país em que vivemos e onde a maioria de nós terá nascido e que se chama Portugal. E tenho muitas dúvidas de que o desejo de cada um dos portugueses passe pelo desejo de termos um país assim ou assado ou cosido. Coisa que aliás não será necessariamente negativa. E bem se entende que muitos não gostem particularmente de ser portugueses. Quantos portugueses têm o país que eventualmente quiseram há 25 anos atrás?
Que Portugal é esse? Que é isso? Uma faixa de terreno que não tem unidade geográfica e por isso é tão boa para o negócio turístico mais umas quantas ilhas no Atlântico? Uma unidade social com características próprias que a distinguem de outros chamados países? Como? Se cada vez se reconhece menos uma identidade social nacional, já que cada cidade cada vez menos se parece consigo própria e mais com o padrão de habitação pré fabricado e internacional, e até a tabuleta que em cada lugar diz “centro histórico” passou a ser mais forte que as diferenças entre cada resto de castelinho ou solar barroco conservado como parque de diversões ou centro comercial e a 2 quilómetros das auto-estradas que nos deram para ligarmos umas cidades às outras, ficam esquecidos restos de paisagem cada vez com menos vida social? Portugal? O resto de uma identidade histórica que foi sempre duvidosa e problemática e que cada português cada vez menos conhece, tendo passado o conhecimento da História a fazer parte do ócio a que em princípio os cidadãos têm direito, um hobby como outro qualquer? Se o 25de Abril passou a ser pouco mais que o que se vê naquele filme que a Sic passa todos os anos, e se vai apagando toda a memória do que foi mesmo verdade e português e só português nesses dias de revolução, e tudo isso cada vez menos interfere na vida de cada um?
Resta-nos de especificamente português a língua que falamos e que ainda não é o inglês. Mas não são com certeza os protestos apaixonadamente portugueses contra o acordo ortográfico que vão dar força à identidade portuguesa, acreditando que seremos mais portugueses se, negando a realidade e esquecendo a História, nos quisermos demarcar dos muitos mais brasileiros que portugueses que a falam, e deixarmos que cada vez mais o português do Brasil deixe de ser Português e os brasileiros menos nos entendam, menos livros escritos por portugueses leiam, e que, sem acordo ortográfico cada vez mais a língua portuguesa dos brasileiros falada por muito mais pessoas, deixe de ser o português que lhes ensinámos. A mim é-me indiferente. Não me interessa nada ser português ou chinês. Quero é estar com os outros e a língua portuguesa é quem muitas vezes o impede. Mas parece que melhorámos e nas artes a internacionalização é agora prioritária fora da Europa. Mas quem não dança um samba ou um funaná, fica de fora, porque nem o ex-mundo português percebe o que falamos.
Sou uma mistura de basco, francês, inglês e português, nascido em Madrid, comecei por falar castelhano, o que me interessa é conhecer os outros diferentes de mim, e sobretudo que toda a gente seja feliz, todos e cada um. E não estou a desconversar. O assunto é grave. Gostava, como toda a gente, de ser mais feliz. O trabalho dos nossos “representantes” eleitos, é trabalhar para que isso aconteça. Algum deles se lembrará? Eles sim, têm de saber o que queremos para daqui a 25 anos, não podem escapar à pergunta, porque para isso lhes pagamos. São “representantes” dos portugueses, divididos por grupos, é certo, e reduzidos a percentagens. Mas a sua competência depende de saberem responder à pergunta que aqui nos é feita. E todos terão pensado nisso? É logo aí que, para mim a porca torce o rabo.
Em nome de que valores distintos se dividem e distinguem esses grupos a que chamamos partidos? Socialistas ou sociais-democratas, por exemplo, têm diferentes noções de felicidade? Já não falo de partido para partido, que todos sabemos que não, mas temos de dizer que sim, porque dizem que a democracia parlamentar é o garante de alguma liberdade. Quem ousaria negar que quem ordena é o povo? E aqui nem pergunto, já todos sabemos como, de repente ou não, o dinheiro, que diz o povo que não traz felicidade, mesmo quando o há, é o que os une e o poder de o gerir o que os divide, e o resto é cantiga.
Mas deixem-me ao menos usar uma palavra portuguesa que não sofre com o acordo ortográfico e todos identificamos com ser feliz, mas que nunca vem à boca de um político (imaginem a gargalhada pública a que se sujeitavam!) e em que no entanto tantas vezes se disse, até pelas vozes mais reaccionárias, que éramos campeões, e é aquilo que já ninguém diz mas é o que para mais gente corresponde a ser feliz: o amor. Alguém se lembra que devia fazer parte da vida política?
São com certeza muito diferentes os «portugais» que os vários portugueses querem. E demasiado vago e com certeza descentrado o denominador comum das suas vontades. Mais fácil seria encontrar o denominador comum do seu desgosto por um país que acaba por se definir apenas pela sua organização política, traduzida numa administração pública que, estou convencido, concede aos cidadãos um cartão de cidadão que diz que são portugueses mas que, assumida ou tacitamente, os cidadãos sistematicamente reconhecem que não consegue sequer corresponder à vontade fictícia que os resultados eleitorais revelam e que grande parte reconhece como sua inimiga. Cobram impostos e multas, não tratam bem da saúde nem do ensino, comem muito dinheiro público nos seus salários. E defendendo-se sempre com declarações de impotência financeira baseadas na obediência a ordens estrangeiras.
Mas, voltando ao nosso debate, suponho que a primeira pessoa do plural a quem a pergunta se dirige será o conjunto de premiados escolhidos como ilustres e aqui presentes de quem se finge esperar um influente consenso mas de quem de facto se espera apenas uma interessante variedade. E pergunto eu: porque será que cada um deste nós há-de querer um país? Por mim falo: nunca pensei ter um, nem quis que esta terra onde vivemos fosse só dos portugueses. Aprendi mesmo de quem olhou com olhos de gente para a História de Portugal que o génio português foi a miscigenação, e que nas artes a originalidade portuguesa foi sempre a de encontrar a sua identidade na maneira só sua de misturar influências. Defender-me da mistura com outros povos, priva-me de viver de igual para igual com muita gente. Sei que o que agora queria era um país cheio de não portugueses em igualdade connosco, os que cá se tentam refugiar com um sentido da vida que talvez nos ensine a querer alguma coisa mais que dinheiro para ter conforto, e que encontram tantas vezes um sentido da alegria não normalizada e mais perto do essencial, só porque, com trabalhos tantas vezes ilegais, algum pão aqui conseguem para comer. E conseguem-no porque a administração funciona mal. Porque o controle pela administração pública, continuemos a chamar-lhe assim, graças à falta de dinheiro para ainda maior policiamento sobre as pessoas que vivem neste canto da Europa, ou por atraso na formação informática dos funcionários, ainda não funciona em pleno. Há poucos dias vivi uma situação sintomática: para ser absolvido do crime de não conhecer ainda uma nova lei feita como as outras pelos políticos que elegemos e que passou a exigir que aos 60 anos tenha de renovar a carta de condução, coisa que estava em contradição com o documento legal que a administração pública me deu onde figura ainda a data de que só caduca a carta aos 65, gastou o Estado, entre funcionários jurídicos e policiais, e trabalharam depressa e competentemente, pelo menos 2 horas de trabalho de, que eu tenha visto, pelo menos 7 funcionários, 14 horas de salário. Para nos trazer a todos mais felicidade? Para nossa Segurança. Ao que a felicidade chegou! Que é senão desconfiança a burocratização que tão caro nos sai, mesmo com poupança de mão de obra e despedimentos em tempo de crise? Isto é, desculpem, desamor.
Tenho 63 anos. Já pouco importa para mim o que quero para daqui a 25 anos. O que me faz aqui estar não é com certeza dizer aos outros que quero ter um país diferente daqui a 25 anos. Se não o tive até agora, não acreditam com certeza que com 63 anos eu acredite que me vão fazer a vontade quando tiver 88. Se Deus ainda me der vida com essa idade hão-de concordar que ter um país assim ou assado ou cosido será com certeza completamente secundário. E pouco interesse terá dizer-vos que quero um serviço de saúde decente, ou melhores transportes públicos. Querê-lo-ia qualquer cidadão em qualquer país. Ou até que mais especificamente quero que aos 88 anos, se lá chegar e não estiver já privado das minhas melhores faculdades, porque casos de longevidade criativa, como o de Manoel de Oliveira vão sendo cada vez mais raros, veja finalmente reconhecido o meu trabalho e o de outros artistas, como de interesse público por um financiamento pelo Estado que me permita fazer teatro não comercial em melhores condições do que até aos 63 quis ter e não consegui.
Mas gosto de viver e quero que depois de mim a vida seja cada vez mais prezada. Só queria que daqui a 25 cada um fosse mais livre de querer do que nós somos. E tivesse mais liberdade de saber e fazer o que quer. E que todos percebessem como a sua liberdade de pensar, de escolher, de construir a sua vida, passa por um respeito pelo ser humano e por si próprio que passa por exigir conhecer como a vida e os homens podem ser diferentes disto. Passa pela construção única e pessoal de vidas diferentes para cada pessoa. 25 anos não é muito tempo. Os premiados que aqui estamos, suponho que todos já o andamos a tentar há mais tempo e ainda pouco conseguimos. Duas coisas deviam ser prioritárias para a nossa felicidade num novo conceito de liberdade que passa pelo respeito pelo outro: a total mudança do sistema de educação e a prioridade na responsabilidade pública para a chamada vida cultural de toda a gente, gastos não lucrativos, a fundo perdido, se a medida é o dinheiro, e independentes das leis do mercado. Creio felizmente que já muitos descobriram que nem vale a pena sujar as mãos e que o que importa é um regresso aos valores humanísticos capazes de voltar a conceder aos indivíduos a liberdade de ousarem ser quem querem ser, sabendo o que fazem e orgulhando-se de um novo sistema político que corresponda de facto à sua vontade.
Aos 63 já se percebe que só há uma razão: ser feliz. E que só serei feliz quando todos o formos, e que só o seremos quando estar com os outros for reconhecer o outro como outro eu, tão livre como eu teria gostado de ser. Gostaria que em 25 anos se conseguisse construir um sentido da responsabilidade individual que acredito ser indispensável para se ser feliz. Com o meu trabalho é para isso que tenho tentado contribuir. E foi a tentar que encontrei a felicidade possível.

Luis Miguel Cintra

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