Das coisas que mais gostei de escrever, e porque hoje é um dia especial, de corrida.

tarkovsky - o espelho 10
Tarkovsky

PASSAS OU NÃO PASSAS?

Público, 31-12-2011

Ano novo, vida nova? Sambando 2013, “o que será, que será?” Repetir-se-á daqui a horas, mais uma vez, a “passagem de ano”, que em tempos idos – lembrou Mircea Eliade – era sacralizada em rituais que eram como que o emergir do cosmos. Em celebrações tão agitadas quanto o caos era caos, para que assim se pudesse participar na ordem configurada pelos deuses, em desenvolvimento sustentado de eterno retorno. A mim também me convidaram para festas. Por outro lado, também oiço: “prefiro a passagem de ano ao natal”; “detesto a passagem de ano”; “eu fico em casa”; “ai, eu vou mas é divertir-me”; “passo a dormir”, etc. Apesar de passar de ano todos os dias, pergunto-me nesta época de forma especial: “passo ou não passo?”. Ou, o que é o mesmo, foi mais o ano que passou por mim, ou quero mesmo passar para o “novo”, que também virá no ano que “vem”? Ou não?

É o tempo e o seu significado que aqui estão implicados. Festas à parte, este tempo serve, como todos os minutos, para alguma coisa? Saramago, pouco antes de morrer: “Pilar, encontramo-nos noutro lugar!”. Pregados nas cruzes, Cristo ao bom ladrão: “estarás hoje comigo no paraíso!” Pascal: os dias são para se encontrar no comboio que é a vida, o que falta no bilhete perdido, a sua origem e o seu destino. Platão, dos escravos agrilhoados na Caverna: cada um terá que virar a cabeça “por si próprio” e sair para fora. Krishnamurti: quero viver uma vida em segunda mão, como quem olha para uma montra? Ou em dizeres nossos: levas a vida a ver passar navios; passará, passará, mas algum deixará? Maria “vais com as outras”?

Maria Ulrich lembrava às suas alunas – futuras educadoras de infância – que a liberdade é um bem tão precioso que nem Deus se atreve a tocar. Encontro-me na vida sem nada ter feito para isso, mas posso fazer dela, nas circunstâncias que me são dadas viver, o que a minha força, a minha inteligência e o meu coração, “se puserem a jeito”. Como aqueles dois homens que trabalhavam no tempo do gótico e do romano, responderam a quem lhes perguntou o que faziam. Um disse: “acarto pedras”. O outro: “construo uma catedral”.

Passas ou não passas? Eu vou comer 12 às 12, e vou decidir “existir”. Ou protagonistas ou nada. É a escolha entre agitação e movimento. Se não for a mãe da frente, é o filho lá de trás.

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