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Lenine, no seu Mausoléo, na Praça Vermelha, em Moscovo

Hoje, dia mundial do doente e dia em que a Igreja celebra as aparições a Bernardette, Lenine insiste em aparecer nestas páginas.

Foi há 13 anos. Então escrevi assim nos meus Cahiers (chique!!!) da Rússia: “A Margarida começou a ter aulas de ballet (em casa) com uma bailarina do Bolshoy, imagine-se! Hoje é o dia do 75 aniversário da morte de Lenine e, sem o sabermos, passamos pela praça vermelha e entramos no seu mausoleu, após espera, quase religiosa, numa fila de russos empunhando bandeiras, com a foice e o martelo, de um vermelho que nada tem a ver com o ‘vermelho’ da ‘praça’, com a mesma origem da palavra russa ‘belo’, e ‘santinhos’ de Lenine. Impressionante, emocionante. Dizia à Maria, Nunca na vida pensei estar aqui. Ela riu-se, fazendo que sim com a cabeça. A bicha é silenciosa, triste, cheia de respeito e expectativa, mérito e sacrifício. O calor que reconforta mal se entra no monumento, contrasta com o gelo cortante da espera. Cortantes, mas mais subtis, são também os olhares dos guardas que se perfilam à entrada, como que a dizer, sobretudo a nós, estrangeiras, Vocês saberão alguma vez apreciar o que estão para ver dentro de minutos? Mal se entra, o chão inclina-se progressivamente, escadas, muitos degraus, e muitos guardas, cada um inspecionando, as mãos, os olhares, os sacos, tudo. Uma invasão. Um inferno, à Sartre. As paredes são de mármore, de um preto rico, como de especial noite escura, ebânico, vestindo de mistério a mais rica pedra preciosa, a chave de todos os enigmas, a salvação da humanidade. De um preto a clamar silêncio, como que a dizer, Parem-se as cores, os tumultos exteriores, é tempo de ver a luz que eu, na minha tarefa purificadora, vos proporciono. Sobre um corpo morto e embalsamado, impecavelmente vestido de um preto aveludado, que contrasta intencionalmente com o vermelho do forro da caixa rectangular, duas são as partes que uma luz, de um cristal e denso amarelo, destaca: a cabeça e as mãos. Aquela, parece dar a cara de um homem a rondar os seus quarenta; estas, lutando contra a mortal ceifa, pretendem mostrar uma inteligência aguda e perene. Em silêncio se torneia o caixão envidraçado, em silêncio, são dois minutos, sem parar, que não há tempo para mais. Forbiden. Também não é preciso. Está visto. Impressionante.

Todo o dia tenho vindo a guardar esta fenomenologia do mausoleu nos tesouros da minha alma. O túmulo ficará para sempre, sem dúvida, nos anais da história russa, mas também, a partir de hoje, nos ‘vastos palácios da minha memória’, para usar a expressão que Santo Agostinho usa nas suas Confissões. “

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