kabaree

“Cabaret” de Eduard Wiiralt, 1931

Não sou de intrigas, mas cheira-me que para alguns Deus morreu…

Papageno*

Em tempos de crise parece que a sacanice, para não usar uma expressão mais grosseira, cresce no ritmo proporcional à desaceleração da economia, como se o facto do clima ser mau nos autorizasse a ser ainda piores. O mundo é assim, nós temos que viver nele et voilá, tudo é permitido!
Nietzche declarou “Gott ist tot”, ou seja algo como “Deus está morto”. Crentes provavelmente dirão, Deus não morre porque não nasceu, é eterno e infinito. A mim o que me preocupa nem é se ele existe, a minha modesta pessoa não se atreve a pensamentos teológicos e filosóficos tão profundos. Muito menos me preocupa que ele tenha morrido, se morreu e o Sr. Nietzche ou outro comum mortal deu conta da ocorrência teremos que aceitar essa realidade. Quem o teve nas suas vidas viverá órfão, quem apenas ouviu falar nele poderá sempre dizer aquela coisa vazia que dizemos quando vemos na TV que alguém morreu ou damos conta que o Sr. do café faleceu devido a uma doença prolongada: “Que pena, era tão boa pessoa”. Fica bem e sempre me ensinaram que dos mortos ou se diz bem ou não se fala, a não ser raras excepções que apenas servem para confirmar a regra, vide Hitler, Estaline, Jack o Estripador ou outro sanguinário da mesma família.
O que me preocupa é que Deus tenha morrido e que ninguém tenha dado conta. Como acontece naquelas relatos escabrosos dum tabloide diário qualquer por este mundo fora, em que as pessoas são encontradas mortas passado anos, no seu apartamento, normalmente devido a um episódio mais ou menos rocambolesco. O que me preocupa é que muitos dos que se lhe dizem próximos, amigos, família ou vizinhos, pensam que ele não liga porque está bem, ou pior, que continuem a pavonear-se com a relação de proximidade que têm com Ele, como aquelas pessoas que se dizem amigas de celebridades, que normalmente nem conhecem os tais VIPs, a não ser numa rede social qualquer, muito menos são amigas de quem quer que seja…
E porque é que isso me preocupa? Porque sempre me assustaram os “pseudos” deste mundo, com excepção dos pseudónimos, com esses posso eu bem, os pseudo-amigos, os pseudo-crentes, as pseudo-celebridades… Que no fundo são como as joias falsas, até são bonitas, até brilham, mas estragam-se com facilidade. Mas lá está, eu até gosto de bijuteria, tem é que ser assumidamente pechisbeque, espampanante, exagerada e com um toque de kitsch. E o mesmo se aplica às pessoas, que venham os assumidamente descrentes, não crentes, os que se enchem de dúvidas, os malandros, até os canalhas e os patifes, os que acham que Deus nunca nasceu, os que pensam que Ele morreu e mesmo os que O mataram! Os que me preocupam, lá está, são os seus pseudo-amigos, os que nem sequer se preocupam com o que lhe foi feito, os que o deixaram a apodrecer há anos, ou há décadas, conscientes da sua já frágil condição física, num apartamento qualquer no Cacém, ou mesmo na 5ª Avenida em NY.
Não interessa se morreu rodeado de luxos ou na miséria absoluta, o que interessa é que morreu, e que a sua pseudo-família não deu conta, não quer saber e quando descobrir dirá com a sua pseudo-saudade o quão bem sempre o tratou, desdobrando-se em histórias que demonstrem a sua relação de proximidade… Pior, provavelmente nunca o descobrirão e Ele continuará a decompor-se com tudo o que isso implica… E porque não o descobrem? Porque encontra-lo, assim morto, implica assumir a responsabilidade dos anos e das décadas de não visita, bem como tomarem a consciência da fraca amizade que os uniu a Ele.
Assim, preferem não pensar Nele, mesmo que o cheiro a cadáver se lhes entranhe nas narinas, sintam o frio do seu corpo já decomposto e ouçam os barulhos dos vermes que comem a carcaça… Preferem evoca-lo que nem a uma celebridade ou uma pessoa poderosa para se manterem na sua vidinha, ou pior, tomarem de assalto a dos outros… Como os pequenos burlões de aldeia que não pagam o salário mínimo ao funcionário a quem dizem que a culpa é do Estado e dos seus impostos, ou as vezes nem se dão ao trabalho de inventarem uma desculpa, simplesmente não pagam e vão de férias para as Canárias ou compram o novo modelo de um descapotável ou todo-o terreno de luxo, mas que se safam sempre porque são pseduo-amigos do polícia, do juiz ou um qualquer vereador da Câmara…
E é por isso, e apenas por isso, que me preocupo com a Sua morte… Que olho com a mesma curiosidade mórbida para os seus pseudo-amigos com que vejo um acidente mortal na auto-estrada, do qual é impossível desviar o olhar, mesmo sabendo que iremos aumentar o transito e até poderemos provocar um outro sinistro, ou com que lemos uma historieta escabrosa num tabloide, que não nos acrescenta nada, enoja-nos, mas mesmo assim, por instantes, faz-nos sentir um formigueiro a percorrer o corpo… Que penso no Deus morto dos seus pseudo-familiares, eu sei que ele faleceu, e eles?! não sei nem quero saber se acreditam ou apenas fingem que Ele está vivo… É por isso e porque tenho que aprender a viver nesse mundo de Deuses mortos, de gente que carrega cadáveres do Divino… com carcaças cujo cheiro nauseabundo me atinge como um raio fulminante cada vez que se aproximam de mim e que se intensifica cada vez que evocam o Seu nome em vão… As vezes até consigo ouvir o rabear dos vermes ou sentir a textura farinhenta e o toque gélido do Seu copo putrefacto… Mas eles que o carregam e me o impingem não sabem ou não querem saber. Visto que eles não têm a cortesia de não expor o cadáver, o que me resta é aprender que nada disso é da minha conta, não me diz respeito…
Não gosto do cheiro, coloco uma máscara, não gosto do frio, visto um casaco impermeável que não permita que os fluidos do cadáver toquem a minha pele viva… Sim, às páginas tantas pareço um astronauta ou um cientista de um laboratório nuclear… Ninguém se veste assim, sou uma aberração, mas se não tenho a sorte de um herói nem a coragem de um louco para apontar para o cadáver de Deus e ordenar que as autoridades sanitárias o mandem cremar ou pelo menos o tranquem num frigorífico com uma porta hermética, pelo menos ficarei protegido para não ser conspurcado pelos Seus pseudo-amigos que constantemente se aproximam arremessando contra mim a Sua matéria morta…
Dito isso não pensem que não tenho mácula ou esteja livre de pecado, isso não, isso faria de mim um potencial cadáver de Deus, ou pelo menos material para relíquia de um qualquer Santo. Tenho os meus esqueletos, até uns quantos cadáveres de bichinhos atropelados que guardo com um carinho mórbido, possuo também uns quantos tumores malignos guardados em fermol… São é todos nada Divinos e preservo-os no meu laboratório privado, com a mesma religiosidade do cientista que arquiva os resultados de uma experiência falhada que nunca o é, apenas não prova o que queríamos ou esperávamos… Tento é guarda-los avidamente só para mim, sobretudo porque me envergonham… As vezes esqueço-me desta porta aberta, por engano ou por um estranho impulso exibicionista, até acendo a luz para se ver melhor, e de tempos a tempos assusto alguém com a visão desse espaço grotesco… Macabro, mas humano, porque todos o temos… Mas lá está, tento manter o bom tom, a táctica de um belo decote, não o escondo, mas também não o exponho ostensivamente… As vezes mostro mais do que gostava e por isso peço desculpa a quem assiste, periodicamente, ao meu pessoal circo de aberrações… Mas agradeço que já que não conseguem perder os hábitos exibicionistas que parem de me enviar convites para me mostrarem, num caixão de cristal, como se da Cinderela ou do Lenine se tratasse, o corpo, mesmo que embalsamado, do Deus que não sabem, ou fingem não saber, que morreu.

*Papageno escreve no 100mim à segunda-feira

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