João J. Vila-Chã
FB – Público

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«O Santo Padre, Papa Bento XVI, encontrou-se ontem com o clero da Diocese de Roma, os «seus» padres. O encontro foi um daqueles que se realizam regularmente, mas desta vez o seu tom foi especialíssimo graças às circunstâncias do tempo presente. Acolhido com uma enorme ovação por parte dos presentes, e a incontida emoção do seu Vigário para a Diocese de Roma, cardeal Agostino Vallini, o Santo Padre, depois de se «lamentar» da impossibilidade de fazer uma alocução formal, fez o que só um ser humano dotado de uma enorme força intelectual e de uma grande vivência é capaz de fazer: falar durante mais de 45 minutos, sem qualquer suporte escrito, do que foi a sua experiência, desde logo como perito, do Concílio Vaticano II, sendo que no processo não só foi capaz de prender a atenção de todos como, pelo menos por duas vezes, levou a audiência a soltar risos de oportuna descontracção. As palavras proferidas, em meu entender, vão ficar na história das interpretações autênticas do Concílio que se começou a desenrolar há cerca de 50 anos atrás; sobretudo, vai ficar na história da interpretação do Concílio Vaticano II a pertinente oposição que Bento XVI ontem estabeleceu entre o concílio real, baseado na Fé, no Amor da Igreja e do Povo de Deus, e o que o Papa designou por Concílio virtual, o dos jornalistas e dos mass media, um concílio visto sobretudo à luz das contraposições políticas e, por isso, destinado a ficar infecundo. Ora, disse ontem o Santo Padre aos seus padres em Roma, e assim a todos nós também, que o único Concílio que tem, pode ou deve ter, um futuro é o Concílio Real, ou seja, o Concílio dos dois Papas e dos Padres Conciliares que o fizeram, o Concílio dos Teólogos que o pensaram em profundidade, e não o concílio da superficialidade, do esquecimento do que mais importa, ou seja, de Deus e da Sua Palavra, da experiência comunitária da Fé, o Concílio da Palavra e da Tradição que, como disse o Santo Padre, é já manifestamente o único capaz de sobreviver, de nos fazer seguir adiante, de induzir um verdadeiro Futuro, e uma Nova Esperança, na vida da Igreja. Bento XVI reafirmou também o seu propósito de se esconder do mundo numa vida de oração e reflecção. Estou certo que uma vez entrado no seu Retiro, um que está definitivamente destinado a durar o resto dos seus dias na terra, Bento XVI continuará a ajudar a Igreja, não pela sua acção directa, mas pelo modo distinto, sereno e pacífico, com que levará por diante a sua condição de Homem da Igreja e Sujeito da Oração que na mesma, pela mesma e com a mesma, quotidianamente se eleva a Deus, o Único que realmente nos congrega em propósitos de Paz, de Serviço, de Justiça e de Verdade. Estamos felizes, porque Bento XVI, mesmo deixando de ser Papa da Igreja, vai continuar a ser nela o que sempre foi em sua vida adulta: servidor autêntico da Palavra, intérprete da Tradição, promotor de uma sempre maior, e mais vasta, Comunhão.»

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