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Bento XVI: bate um record
Fátima Pinheiro
Público 15.2.2013

Vinha de ouvidos cheios e perguntou do alto das suas catorze primaveras: “O que é resignar?”. Expliquei. “Demitiu-se!?, queres dizer”. Voltei a tentar responder. E muitas foram as reações destes dias. Destaco três: Durão Barroso, Henrique Monteiro e Julián Carron. A primeira sublinha que o papa não é um racionalista e aponta o carácter filosófico dum pensamento que forjou uma reflexão sobre a Europa. A segunda desconstrói o “papa do preconceito” e confessa o “papa verdadeiro”. E a terceira acentua a liberdade de um homem que sabe que o maestro da orquestra não é ele. Ou seja, os três matam a ideia de que estamos diante de um homem frio, preconceituoso e desertor. Antes sim: quente, simples e no lugar que alimenta o fogo da existência. “Mas isso nunca aconteceu?”, insiste ela. Sem saber, deu-me a oportunidade de afirmar que é precisamente o contrário. Ao resignar, Bento XVI bate até um record. E mais.

Durão Barroso na 2ª feira à RR: “Bento XVI tem uma preocupação muito grande com a ideia de “razão”; e quando se falava com o próprio Bento XVI notava-se essa constante atenção ao raciocínio e à necessidade de justificar, do ponto de vista intelectual também, uma sua posição. Mas em termos pessoais, aquilo que mais apreciei no contacto com ele foi a sua reflexão sobre a Europa. Bento XVI tem pensamento muito estruturado sobre a Europa; e mesmo antes de ter assumido as funções de Papa, escreveu bastante sobre isso, sobre a história e a filosofia europeia.”

Henrique Monteiro num artigo desta semana, “O Papa verdadeiro, não o do preconceito”, reescreve palavras suas de há dois anos ao apresentar em Portugal o livro A Luz do Mundo, entrevista de Ratzinger a Peter Seewald. No artigo destaca a luta central do papa contra a desregulação da ética que “levou a ganância e a especulação a deuses de pés de barro que se estatelaram no primeiro abanão…luta árdua contra a desvalorização da vida, da família, do esforço honesto e da esperança que pode e deve envolver não apenas os católicos.” E que a reação de Bento XVI às denúncias do escândalo da pedofilia não é “o que por aí anda a correr” mas esta: “Desde que sejam verdade são bem vindas – a verdade, conjugada com o amor corretamente entendido é o valor primordial”.

É sinal de humanidade por os pontos nos is, não misturar alhos com bugalhos. E prendemo-nos em acessórios, não nos atiramos para o essencial! Quem sopra a Igreja é o Espírito e só um homem livre se deixa levar assim. João Paulo II foi diferente. E não são eles homens diferentes? Ou será o papa uma figura estilo kafkiano? Um burocrata. Por isso dá gosto ouvir as palavras de uma pessoa que percebeu e cortou a direito, reconhecendo que o gesto do papa tem a imponência da confiança exclusiva na força do Espírito Santo. Julián Carrón em “A incrível liberdade de um homem agarrado por Cristo”, na 2ªfeira: “é como se Bento XVI nos dissesse com as palavras de São Paulo: Tenho plena certeza de que aquele que começou em vós a boa obra há de levá-la à perfeição até o dia de Cristo Jesus(Fl 1,6).”
Pois é Teresa, nunca aconteceu? ! Quem bate o record, sei lá, do salto em altura, também faz uma coisa que nunca aconteceu. Não é muito bom?

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