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Ugetsu (1953), Kenji Mizoguchi

Ponho outra vez:
Herberto Helder canta a Carne “para se ver a luz”

Posted on December 17, 2012 by fatima100mim

Poesia

«A uma devagarosa mulher com a boca

do corpo cheia de sangue e a boca

do rosto cheia

de respiração, por cinco dedos meus

esquerdos, na curta duração de tudo,

a curta canção que pulsa

do fundo de si mesma:

a uma devagarosa mulher no mundo.

*

Nas mãos um ramo de lâminas.

Cada palavra tem mais à frente o lado escuro,

mais noutra posição armada, as suas zonas últimas

—ofertas do amor: a morte

e a homenagem»

……………….

«quero um erro de gramática que refaça

na metade luminosa o poema do mundo,

e que Deus mantenha oculto na metade nocturna

o erro do erro:

alta voltagem do ouro,

bafo no rosto.

*

Um espelho em frente de um espelho: imagem

que arranca da imagem, oh

maravilha do profundo de si, fonte fechada

na sua obra, luz que se faz

para se ver a luz»

“Mulheres correndo, correndo pela noite.

O som das mulheres correndo, lembradas, correndo

como éguas abertas, como sonoras

corredoras magnólias.

Mulheres pela noite dentro levando nas patas

grandiosos lenços brancos.

Correndo com lenços muito vivos nas patas

pela noite dentro.

Lenços vivos com suas patas abertas

como magnólias

correndo, lembradas, patas pela noite

Levando, lembrando, correndo.”»

«Em quartos abalados trabalho na massa tremenda

dos poemas.

Que me olham de tão perto que eu ardo.

Um dia hei-de ficar todo límpido,

ou calcinado nervo a nervo. Ou por me ver

Deus

de um canto das palavras, com sistinos

dedos pintados em torno à voragem

diuturna, tocando na matéria.

Ininterrupto, eléctrico.

Alguém poderia dar um grito.

Quase morro de medo ao sentir o meu nome.

Penso que apenas numa hora o sangue encharcaria

a roupa de alto a baixo, enquanto brilha o rosto.»

«Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne.

Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

rios, a grande paz exterior das coisas,

folhas dormindo o silêncio

—a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as casas deitadas nas noites

e as luzes em volta da mesa

e a força sustida das coisas

e a redonda e livre harmonia do mundo.

—Embaixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

—E o poema faz-se contra a carne e o tempo. »

«há sempre uma noite terrível para quem se despede

do esquecimento. Para quem sai,

ainda louco de sono, do meio

de silêncio. Uma noite

ingénua para quem canta.

Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou

que varre as pedras da cabeça.

Que mexe na língua a cinza desprendida.

E alguém me pede: canta.

Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:

canta até te mudares em azul,

ou estrela eletrocutada, ou em homem

noturno. Eu penso

também que cantaria para além das portas até

raízes de chuva onde peixes

cor de vinho se alimentam

de raios, raios límpidos.

Até à manhã orçando

pendúculos e gotas ou teias que balançam

contra o hálito.

Até à noite que retumba sobre as pedreiras.

Canta — dizem em mim — até ficares

como um dia órfão contornado

por todos os estremecimentos.

E eu cantarei transformando-me em campo

de cinza transtornada.

Em dedicatória sangrenta.»

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