eduardo lourenço 2013

O PESO DA TIARA ABOLIDA

Eduardo Lourenço

Público, 15/02/2013

Nenhuma fraqueza humana explica a renúncia de olhos abertos a um tipo de poder tido e vivido durante séculos, quer na mera ordem temporal quer na ordem simbólica, como “eterno”. Só um teólogo eminente e um filósofo podia considerar um “oxímoro” insuportável, fora do plano da pura fé, esta eternidade assumida como natural. Aquela que é consubstancial a todo o Poder, se não divino, divinizante, como é próprio de todo o Poder, natural ou naturalisticamente incarnado e exercido. Tal era, a título paradigmático, na ordem histórica de que o Ocidente emergiu, o Poder que chamamos pagão, antes de o Cristianismo o ter transfigurado sem jamais ter conseguido aboli-lo.
É um gesto inédito o do “último” Papa, dilacerado entre duas formas de Poder e por elas e nelas crucificado. A História real da Humanidade não foi nunca e porventura não será jamais outra coisa que a tentativa de eternizar simbolicamente a tão visível precariedade da sua pretensão. Não é fácil para um cristão e mais a mais para aquele que os simboliza estar sentado tranquilamente na “cadeira de Deus”. Mas era mais fácil quando durante milénios toda a forma de Poder era efectiva ou metaforicamente, a um título ou a outro, um acto relevando da “graça de Deus”, tal como os monarcas cristãos em tempos o revestiram. Ou os não-cristãos, em nome daquilo que a seus olhos releva igualmente ou é estruturado por um tempo fora do tempo ou a ele transcendente. Precisamente, o que chamamos “eternidade”.
Este consenso sofreu – ao menos no mundo ocidental, durante séculos sublime ou inocentemente “eternista” – um abalo sem precedentes. Desde os meados do século XIX, a Igreja Católica tornou-se – sem o querer, e num sentido ainda em curso – o histórico e nada mítico “cordeiro de Deus” que uma nova humanidade e a sua cultura rejeitam ou dispensam. Poucos papas, salvo o angustiado Paulo VI, terão vivido tão literal mas também tão calmamente a banalizada “morte de Deus” na consciência contemporânea como Bento XVI. Na sua essência e numa perspectiva meramente profana, essa “morte”, para além da sua função dialéctica e crítica da boa consciência religiosa do Ocidente, resume-se na inversão das perspectivas entre a “eternidade” e o “tempo”. O tão celebrado “fim da História” é menos a constatação de que esta ou aquela potência política ou cultural, dominantes durante séculos, deixou de seduzir (entre elas a Igreja), como o facto evidente de que a iconização do puro presente e suas fulgurações irresistíveis se substituíram àquelas utopias da alma e da inteligência que postulavam, ou já eram em si mesmas, a imagem de uma vida eterna nelas antecipadas. Em suma, por idolatria, não menos eterna da alma humana.
Depondo como quem descansa o peso da sua tiara virtualmente anacrónica e renunciando nela a uma “eternidade” inumana por uma outra visão mais cristã do tempo de Deus como não-Poder, o mais suave dos papas não dilacera a túnica sem costura do Cristo (há tantos séculos dilacerada). Restitui-lhe o sentido e o esplendor da única eternidade que conta aos olhos de um cristão. E que não é a do ouro e seu peso de sangue, nem da glória e sua ilusão, mas a da consciência do seu nada no espelho do tempo mortal do nosso coração. De todas as abdicações míticas do Poder fáctico ou da ficção, desde Ricardo III a Cristina da Suécia, esta de um Papa a quem estava reservada uma descida histórica da Igreja análoga à das Catacumbas que foram para ela esperança e luz de um mundo novo, é a mais enigmática e crucial para o destino do Ocidente. O historiador cristão Jacques Le Goff assimilou-a a uma abdicação real. Também é isso. Mas talvez mais importante seja o desafio que representa para uma outra “realeza”, a da Igreja que desde a sua origem subverteu todas as figuras naturais do Poder e que agora despe o seu manto real por “conta de Deus”. Que fazer deste “cadeaux”, para uns envenenado e para outros sublime?
A História não é o mito em que a convertemos. É só a imagem do improvável e, sobretudo, imprevisível em que nos projectamos e nos esperamos. É o segredo e o mistério da incondição humana que miticamente aí se confere um sentido sem garantia alguma nos céus e na terra. A “morte de Deus” é só a mais tangível expressão de uma Civilização lúdica onde banha e agoniza, ameaçada de extinção, a antiga sarça ardente através da qual “a voz de Deus” se nomeava.
O Siegfried elegante que sem elegância nenhuma um jornal francês chama “pastor alemão”, apesar da sua aparência frágil, teve a força da alma e a intuição profética de abdicar conscientemente da sua imagem sublimada. Já é raro pelos tempos que correm. Foi, é a sua maneira de recusar a objectividade demoníaca do que é só porque é.
Muita tinta e durante muito tempo esse gesto voluntariamente breve e simples terá no seio da Igreja, onde unicamente tem leitura, a glosa contraditória de tudo o que conta neste mundo. O seu sentido só a mesma Igreja – agora já a comunidade inteira dos seus fiéis – o precisará. Não se exclui que apesar deste espectacular momento de “depressão” segundo o cânone do mundo – mas a Igreja não está fora dele – e por causa dele, como consciência aguda de uma fragilidade que não a natural de um simples homem, embora sucessor de Pedro, nestes tempos wagnerianos, o povo cristão se dê um outro Siegfried desarmado e sem outro Poder que o do seu Mestre que o não tinha e em seu nome “venceu o mundo” que o não venceu.

Advertisements