Woody Allen- To Rome

Há batas em Itália, ou Para Roma com Amor.

Papageno*

Sei que o filme não é recente e que provavelmente a maioria dos amantes do cinema, ou das sagas citadinas de Woody Allen já viram há muito a homenagem à cidade de Roma, mas estamos no mês do beijo e não me lembrei de um preconceito mais romântico do que a Fontana di Trevi.
Sendo um mau filme de Allen é uma excelente colectânea de sketches deliciosos com imagens-cliché associadas à capital italiana. Há um arquitecto norte-americano de meia idade que na sua juventude viveu na romântica Roma e esvaziou a alma mas encheu os bolsos a construir centros comerciais. Há um jovem arquitecto que busca o romance de Roma numa paixão proibida. Há um casal que vem da província em busca das riquezas de Roma, ela num vestido florido, naif, mas que de ingénua tem pouco, ele, o macho da casa que acaba por “descobrir” os prazeres da carne numa acompanhante de luxo que “conhece” toda a elite romana. O italiano comum, que não podia não ser Roberto Benigni, e que acaba por ser escolhido pelos paparazzi para ser famoso. E claro, o homem que só canta bem ópera no chuveiro e que é descoberto pelo excêntrico norte-americano, lá está só podia ser o próprio Woody Allen, para participar numa sumptuosa produção de Verdi, com direito à cabine de duche e sabonete.
Tudo isso foi filmado em Roma, a cidade que se transforma na massa que aglomera e dá unidade à aparente falta de coerência do filme. Mas podia ter filmado em Lisboa, se a capital portuguesa tivesse fama de cidade romântica. Mas tal como não temos Fontana di Trevi, a palavra romântico também não integra Lisboa, mas inclui Roma. Não sei se de facto existe alguma familiaridade etimológica, mas para o caso também pouco importa. O que é verdadeiramente importante, é o poder no marketing, do nosso imaginário em relação a um lugar que assim passa a ter a capacidade de dar sentido a um conjunto de situações aparentemente sem nexo. Aqui convém dizer que gosto da cinematografia de Woody Allen, acho que é um mestre em cruzar personagens e histórias que aparentemente seguem caminhos paralelos, engenho e arte que desta feita Roma não lhe inspirou.
E não obstante estarmos constantemente a adivinhar essa aura romana, acabamos por nunca a encontrar. Apercebi-de desta falta de encanto quando a mulher do italiano comum surge vestida com uma bata. Sim, tenho uma implicância com essa peça de vestuário, pensei que fosse algo exclusivamente português, aos quadradinhos azuis ou vermelhos ou em negro, algo que pensamos existir apenas no Portugal profundo, mas que ao estar a venda em qualquer loja chinesa, junto de lingerie pseudo-sensual e 100% poliéster, denuncia que poderá tratar-se de uma criatura que insiste em habitar muito lar citadino. Admito que também haverá batas em Itália, provavelmente até em Espanha e na Grécia, enfim, que será uma peça de vestuário típica do mundo latino, e que Woody Allen exibiu-a com o seu característico olhar trocista. Ao olhar para essa triste peça de indumentária pensei, é Roma, mas podia ser Lisboa. Não me interpretem mal, amo Lisboa, as suas ruas e vielas, a luz, as arquitecturas, os jardins e as pessoas, mas quando vou ver um filme que se chama Para Roma com Amor espero ser transportada para a capital italiana, onde aliás nunca estive. Também nunca visitei New York, Paris ou Londres, mas viajei para lá através do Tudo Pode Dar Certo, do Meia Noite em Paris ou do Match Point. Percebi como cada personagem representou um cliché que associo à capital italiana, mas nem o preconceito de romance de Roma me tiraram de Lisboa, tendo ficado apenas a convicção que também há batas em Itália.

* Papageno escreve no 100mim à segunda-feira

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