Jesus - Pasolini 10
Jesus do Evangelho segundo Mateus (1964), de Pasolini

Acredito mesmo em Deus? Tudo pode não passar apenas de uma ilusão! De um entretem ou descanso de consciência. Ou de uma consolação. Como posso saber?
Isto faz-me lembrar aquela pergunta de uma freira a Teresa d’Ávila : será que amo mesmo Deus? Resposta da santa: não lhe basta saber, irmã, que Deus a ama?
Um dos meus professores de filosofia brincava sempre connosco por causa da transcendência e da imanência. Apanhavamos cada baile! Foi com ele que aprendi muito. Orientou-me a tese de mestrado, precisamente sobre essa matéria. Tive o privilégio de o assistir durante seis anos na Católica. E ele não se importou que os alunos gostassem mais das minhas aulas do que das dele. Sobretudo os rapazes. Eu era muito mais interessante do que um padre já entrado, chato, e a marcar sempre golos. Com ele aprendi a aprender e percebi, entre muito, que se não sei trocar uma coisa por miúdos é porque não percebi. E dizia ele que a maior parte das vezes, no refúgio da última proposição do Tratactus ( daquilo que não se sabe, devemos calar-nos), nos calamos cedo de mais. E citando Lubac dizia muitas vezes: a mística é uma colheita da tarde.

Transcendente? Os meus dedos são transcendentes às teclas do computador onde agora escrevo? Claro. Tal como as teclas o são em relação aos dedos. Baralhava e tornava a dar.
“Transcendência” é apenas isto. O que está noutro plano.
Quantas “transcendências” andam por aí, e a nada transcendentes. Quantas deuses imaginados, apenas o mesmo do mesmo, e ao sabor do que me convém. Eu quero uma transcendência transcendente. Para pior já basta assim.

A transcendência em que acredito é mesmo transcendente porque todos os dias me acontece o impossível, para as minhas “competências”. Estar viva, o meu coração bater (estômago e por aí), o mal não ter na minha vida a última palavra, perdoar, amar, acreditar nas pessoas, apesar das suas sacanices e das minhas também, não “apreciar” (hmhm) a minha sogra e ter a certeza que Deus a ama tanto ou mais a ela do que a mim (Ele tem as suas preferências; preferia João a Pedro, apesar de ter escolhido este último para primeiro papa). Acontecem-me milagres todos os dias. A vida é um milagre.

É esta transcendência que eu amo: não tem nada a ver comigo, embora me corresponda totalmente; liberta-me de ter que fazer contas e ser escrupulosa (BRRRRRR); permite-me a independência de ser absolutamente livre de qualquer juízo, a não ser o da minha própria consciência. Não me importar – caso seja absolutamente necessário – de ir pra fogueira. Ela deixa-me de queixo caído. E dá-me um sinal: se mudo, alguém me muda. À medida que avanço até posso ter certezas que dantes não tinha. Este, isto é assim, este é assado. Claro que me posso enganar. Mas não se engana também a ciência? Decantar os preconceitos. Existir a música, a arte o sol, pessoas felizes, caras. Tudo.

Uma transcendência que não se chama “motor imóvel”, mas que se MEXEU e resolveu nascer duma rapariga de 15 anos que sempre esperou por uma proximidade “assim”, embora não fizesse a mínima ideia que a barriga dela (e a terrível cruz) ia estar implicada. É pelas mesmas razões que Ele permanece hoje e que eu o posso “comer” todos os dias. Assim como encho os pulmões todos os dias e gosto de alheira, chocolate ou café. E nozes. E pesto. E travesseiros da piriquita.

Como é que a transcendência das transcendências “cabe” em mim, no mais imanente do meu “dentro” (S. Agostinho, Confissões, livro 3; e o célebre livro 10, 27ss)? Não sei fazer essas contas. Basta-me a alegria que me dá, um dia de cada vez. A prova de que Ele, sim, acredita em mim. Um bocadinho parecido com aquela noiva de José. Como diz o evangelho: Maria abriu “…o caminho para o Senhor passar! (Lc 3,1-6).

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