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É porque a “A vida é um mistério” que nos abraça.

Maravilhosa a entrevista de Manoel de Oliveira na última edição histórica do Expresso. Um homem onde vence um sim, e não a vã glória de mandar. Para quem a morte é uma porta. Já o tinha dito com estas mesmas palavras, bebidas na sua paixão pelo pensamento russo (neste caso Tolstoi), quando apresentou em Veneza o seu filme “O estranho caso de Angélica”, ao ser interrogado por uma jornalista sobre se tinha medo da morte. Acrescentou então, nessa conferência de imprensa, que não tinha medo da morte mas sim do sofrimento; e que ela é a certitude, tudo o mais é incertitude. Estranhei por isso o título escolhido para a entrevista: “A vida é uma derrota”. Porquê? Porque para mim o que ressalta das suas breves palavras, e da sua pessoa e obra, é que a vida é, sim, incompreensível. Mistério. E Oliveira di-lo explicitamente na conversa transcrita, e que teve lugar no Porto, na casa de uma família acolhedora em roda do seu patriarca. E ainda bem que ela assim é.
E o que quer isso dizer? Quer dizer que a vida “não cabe” em esquemas; que é maior que eu. Ser incompreensível não é o mesmo que não ter sentido. A vida é misteriosa sim, mas porque ilumina. Há uma saída, reconhece o cineasta ao Expresso.
E a sua filmografia sempre nos ofereceu – de diferentes ângulos, e ao longo de um largo percurso – que assim é, e que é o próprio eu que o reconhece, sendo nesse sentido correspondente à dúvida (palavra recorrente na entrevista de Pedro Mexia) que não se encolhe, e não se contenta com pseudo respostas que mais adormecem que consolam; que mais iludem do que proporcionam alegria e vida.
A derrota está nos desencontros ou amores frustrados, no não se ser dono do seu próprio destino, no não se ter decidido nascer, na tal incerteza que faz parte da existência de cada um de nós. Mas não é a palavra final, e muito menos aquela que melhor nos define. Oliveira diz sempre que o melhor filme é o que vem a seguir. Planeia agora “O Velho do Restelo”, com textos de Camões Cervantes e Pascoaes. Incerteza? E lembra do guião: “cuidado com as vitórias, porque podem redundar em derrotas (Camões).” “O aspecto não é concludente”.
Não somos seguramente senhores do nosso destino. Será que temos honra? Ou um gesto generoso?, interroga ainda Oliveira na entrevista. Reveja-se o seu recente filme “O Gebo e a Sombra”. Porque o cinema, que não existe (porque o que existe são as cadeiras, gosta ele de lembrar), “(…)dá-nos uma visão da vida”. O que é o mesmo que dizer que Oliveira nos passa a “batata quente” e nos deixa a vida nas mãos. Não é um cinema fast food, mas uma dúvida belamente fisgada. Cuide-se quem está de pé.
Oliveira: belo de dia e de noite. Sempre. Duvido que assim não seja. Um beijo.

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