S. Sebastião
S. Sebastião: Guido Reni

http://www.gulbenkian.pt/object160article_id3913langId1.html

Coro e Orquestra Gulbenkian, Alain Altinoglu (maestro)
Le martyre de Saint Sébastien, Claude Debussy

Quinta, 21 Fev 2013 | 21:00
Grande Auditório
CORO GULBENKIAN
ORQUESTRA GULBENKIAN
ALAIN ALTINOGLU (maestro)
MICHA LESCOT (ator) (o santo)
KAREN VOURCH (soprano) (a mãe)
ÉRIC BOUGNON (ator) (o pai)
BLANCHE KONRAD (atriz) (a criada)
MARIANNE CREBASSA (meio-soprano) (a gémea)
MARIE KALININE (meio-soprano) (a gémea)

Ação cénica em 5 atos.
Texto de Gabriele DAnnunzio.
Coprodução Cité de la musique, Arsenal de Metz, Clarac & Deloeuil > Le L@b e Filarmónica de Bruxelas.
Co-apresentação Fundação Calouste Gulbenkian.

Legendas em português.
Inspirando-se diretamente no filme Teorema de Pasolini, o Martyre de Jean-Philippe Clarac e Olivier Deloeuil adota «as revelações místicoeróticas de uma família burguesa, tocada pela graça de um estranho desconhecido chamado… Sébastien». Mais récita ou oratória do que ópera ou teatro no sentido tradicional do termo, o espetáculo da dupla francesa dá um novo fôlego à histórica criação de Claude Debussy e Gabriele dAnnunzio, estreada em 1911, um marco enquanto desafio às convenções da época.

Mais:
http://www.rtp.pt/antena2/?t=Claude-Debussy.rtp&article=2038&visual=11&layout=20&tm=18&autor=2040

“O Martírio de São Sebastião é uma verdadeira obra-prima que ainda não foi compreendida. Nesse dia Debussy compunha o seu Parsifal.” Esta era a opinião de Emile Vuillermoz, importante crítico francês, aluno de órgão e piano de Gabriel Fauré, e grande amigo de Maurice Ravel, e que assim fazia publicar a sua opinião na edição de 1920 da partitura de O Martírio de São Sebastião, uma obra para vozes solistas, coro e grande orquestra, composta em 1911 como musica de cena para a peça homónima de Gabrielle d’Annunzio. Segundo o musicólogo e biógrafo de Debussy, Edward Lockspeiser, “a obra incidental “O Martírio de São Sebastião” pouco tem que ver com os mistérios medievais e peças de natividade que eram apresentadas nas igrejas… a peça enfatiza o sofrimento dos dois gémeos, Marc e Marcellien, antes do milagre, o desgosto das mulheres de Byblos perante a morte do seu Adónis, e a dança estática de Sebastião sob os carvões em brasa. Para cada um dos cinco actos desta peça temos um prelúdio bem como numerosos interlúdios orquestrais e corais.”
Esta peça resulta da encomenda feita pela bailarina e coreógrafa Ida Rubinstein que interpretou o papel principal aquando da estreia de O Martírio de São Sebastião a 22 de Maio de 1991, no Teatro do Châtelet, em Paris. Talvez não surpreenda o facto de O Martírio ter sido fortemente censurado nessa altura. O Bispo de Paris denunciava as possíveis consequências que certos assuntos religiosos poderiam ter quando tratados dramaturgicamente; Os críticos leigos viam nesta obra uma tentativa de Debussy em compor um drama sacro à semelhança de Parsifal. Para estes, Debussy fora mal aconselhado ao sujeitar-se a ser comparado com Wagner. Debussy viu-se obrigado a defender-se, tendo escrito nos jornais: “É assim tão estranho, um homem que vê mistério em tudo, deixar-se atrair inevitavelmente pelos assuntos religiosos? Mesmo não sendo um católico praticante ou mesmo um crente, não tive que fazer um grande esforço para me deixar envolver por todo o misticismo que está implícito na história e no texto deste drama.”

Mas será que Debussy conseguiu mesmo deixar-se envolver pelo misticismo implícito no Martírio de São Sebastião? Tudo indica que Debussy teve que trabalhar com prazos muito rígidos impostos por Ida Rubinstein que queria levar a peça a cena o mais rapidamente possível, de tal maneira que Debussy teve que recorrer á ajuda do seu aluno André Caplet para terminar a orquestração. Ainda por cima Debussy encontrava-se doente nessa altura, tendo escrito ao editor Durand: “Digo-lhe que estou no fim das minhas forças.”

Como reacção ás criticas que se fizeram sentir ainda antes da apresentação da própria peça, Debussy e d’Annunzio fizeram publicar uma declaração conjunta de modo a clarificar os objectivos de O Martírio: “trata-se da glorificação, através da música, não só desse grande herói como de todo o heroísmo católico”. Mesmo assim a confusão entre as virtudes cristãs e as virtudes pagãs, que se levanta na peça com a identificação de Cristo e de Adónis, provocaram a ira dos espectadores. Segundo Lockspeiser a peça estava cheia da visão do próprio Debussy, que se descrevia como um músico pagão que via Deus em todas as coisas.

Resumo
O Martírio de São Sebastião acabou assim por ter uma recepção bastante fria. O enredo ofendia os escrúpulos dos católicos fanáticos; a produção no seu todo deixava transparecer incoerências que acabam por ser naturais quando um francês pega num texto de um italiano e a produção fica a cargo de um russo, Léon Bakst, um dos acólitos de Diaghilév. Foram essas incoerências que levaram Debussy a rever a obra, apresentando-a mais tarde, já com bastante sucesso, como uma oratória. Para esta segunda versão, Debussy contou com a importante ajuda do crítico e compositor Roland Manuel que reviu o texto de d’Annunzio, deixando, mesmo assim, a maioria do texto intacto. Foram ainda acrescentadas novas introduções orquestrais e vocais. Mais tarde, o outro colaborador de Debussy, seu aluno e também compositor, André Caplet iria aproveitar cinco momentos da partitura original para criar a suite de O Martírio de São Sebastião.

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