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O estado da cornucópia: o teatro acabou?

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Cornucópia significa bênção, abundância. É também um Teatro que faz 40 anos e acaba de estrear uma peça com base num livro encomendado ao Pe Tolentino Mendonça pela Guimarães capital da cultura. “O estado do bosque”, no Domingo, foi seguido de uma conversa com o autor, os atores e o encenador, um deles, Luis Miguel Cintra. Eu, especialista em teatro, poesia, literatura, transcrições narrativas e afins? Não. Escrevo aqui uma experiência estética e o que vejo nesta segunda incursão de Tolentino pelo teatro. Gosto de me meter, sublinhou na conversa connosco. As palavras e os gestos aqui implicados são uma aposta poética, não fosse o diretor deste Teatro um homem que, tal como o seu Manoel de Oliveira, nos põe a liberdade nas mãos e que de máscaras, só mesmo as do teatro. Só vai ao bosque quem quer. E se vai, vê-se numa grandiosa e simples emboscada. Acabaram-se os teatros. Há trilho para mim? Parece que ele já me encontrou.
O texto é uma explosão poética e atinge meteoricamente quem se põe a jeito. Forjado de palavras que todos entendemos – e passamos a entender melhor – não significa, por isso, que seja brincadeira, à solta, sem o peso do pó. É um direito que tem do avesso, ou no forro, uma densidade metafísica carregada de sabedorias seculares (a começar pelo título), que se dá assim, em câmara clara. A encenação tem a beleza e a magia de nos mergulhar nas perguntas que temos gravadas no coração. Tem um coração e serás salvo, ouve-se a certa altura. Vi várias vezes e de cadeiras diferentes, e é sempre uma coisa nova. Como eu. Mais: tem a potência de me fazer entrar no bosque da minha vida de uma forma que, sem deixar de ser profana, é uma sagração.
Os silêncios, os vários estares às escuras, a energia das palavras e dos gestos, as caras de espanto naquele limiar entre as cadeiras e tudo, a leveza e seriedade da performance, cortam a direito, e encontramo-nos algures em nós, a respirar, rir e chorar a paredes meias. Deixamos de estar no teatro, a assistir. Começa assim: Qual é o sentido do trilho? E repete e repete: Tens medo?.
Esta obra de arte, como as outras, é aberta. Entendo-a como um nada que pode ser tudo. As certezas que tenho como adquiridas são espetacularmente dançadas. De que vale uma resposta se eu não fiz a pergunta? Trata-se então da pergunta pelo sentido da existência, que é o que Luis Miguel Cintra reconheceu estar sempre a fazer no que produz ou re-presenta. Por isso ele acreditou desde o início na pinta deste teatro para o levar a cena. Para Tolentino trata-se de uma produção que escancara a humanidade do humano. Do perguntar, do profano, como ele sublinha. Partimos do que vemos, tocamos – tinha sublinhado há dias à TSF – como poderia ser de outra forma? Sim, não podemos deixar de ser materialistas. Carne.
A história é simples e inteligível, é a minha. Encontro-me nascida e vou à procura do porquê. No teatro vivem: Jacob, Peter Weil, Viviane Mars e o Destino (gravação em repeat de uma infância na Casa Rosa). John Wolf – pleno da imponência de Cintra – vai à frente, é um guia no sentido em que ajuda a perguntar, a despertar para a viagem. Está à porta do bosque. Quem apenas quer a meta não viaja. Mas é cego!? Explica Tolentino: porque ele aprende também. Todos se precisam uns aos outros.
O estado do bosque pode levar a uma pergunta capital, que nos pode levar a uma resposta inesperada, um acontecimento. Não tem mensagem (esta, na arte, está sempre a mais). A certa altura diz o cego: basta dizeres SOU. O facto é que eu sou. E daí? Eu aconteço? Sou acontecida? Andamos aqui a viajar ou a fugir?, grita-se. Pergunta abençoada, até 24 de Fevereiro, em cena. Na minha memória sempre.
Não há receitas, etiqueta, ou etiquetas. No final da primeira das sete cenas: sinto que o teatro acabou. Quem se prende às muletas, e ao diz que diz, morre, ou vive de uma má tristeza. A boa tristeza é a da saudade. Wolf sabe que o que falta é esta espera. Repete-o. E que há sinais para uma liberdade. Tens ouvidos? Pés teus? Por isso termina assim: segue.
O teatro acabou. A cornucópia não.

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