Tejo 10

É verdade. A palavra “abraço” não existe em francês. Confirmei. Descobri quando um dia estava a almoçar com uma francesa, num lugar magnífico em que se vê o rio e Lisboa toda. Ela estudou português e fala muito bem. Fazia anos e eu levei-a. A certa altura disse-lhe que aquele sítio era lindo e que apetecia “abraçar Lisboa”. E ela: “o quê?”. Claro que o que interessa é o abraço, mas não deixa de ser curioso que em francês não exista correspondente.

Descartes é adorado por todos nós, mesmo sem o sabermos. Corre nas nossas veias sem barulhos.

No célebre Discurso do Método – o do idolatrado “penso, logo existo” que nos explicam mal, desde logo no liceu, e depois fica tudo escangalhado e o erro passa a imperar- a base cai por terra. Mas passa desapercebido. A sua “prova” da existência de Deus utiliza dados que metodologicamente ele tinha posto em suspenso. Portanto, Descartes: “zero”. Só tens o maximum porque a parti da tua Filosofia o “eu” passou a poder ser pensado de forma mais humana. Mas não com o teu método e muito menos com essa “prova” de pés de barro. Tanto assim é, que depois de nos escortalhar em dois, o abraço do corpo e da alma é dado pela glândula pineal. Parece-me pouco.

Husserl percebeu isto melhor que ninguém e escreveu as “Meditações cartesianas”. Desde então a(s) fenomenologia(s) oferece-se ao pensar como um caminho a fazer por cada um, no qual o mundo e o “eu” se encontram abraçados. Um encontro dado. É a ideia de “intencionalidade” (“toda a consciência é consciência de”, matando o solipsismo logicamente impossível, de Descartes).

De direito, porque de facto a tendência das filosofias actuais é o acantonamento num ou noutro polo. Ou no “mundo”, e o eu é esquecido; ou no “eu” e o mundo é esquecido. Turvos. Faltam os abraços.

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