educar já

Claro que Maria Ulrich não o disse assim. É só por causa do “Grândola vila morena”, que falo desta forma.

Estamos em crise. A cantoria do Grândola é um sinal. Então? O que faz falta é saber quem sou, quem somos. Isso passa pela educação e pela liberdade. Porquê, porque NO CENTRO ESTÁ A PESSOA; A LIBERDADE É A CHAVE DA EDUCAÇÃO (Maria Ulrich). Só assim a política renasce. Fazer contas é ESSENCIAL, mas a prova dos 9 não passa nunca.

Maria Ulrich foi uma mulher desassossegada: uma grande educadora, mulher de cultura e intervenção política no sentido amplo do termo. Era neta de Carlos Mayer, e ela realmente tinha uma educação fantástica como é de calcular. O pai era um intelectual, professor em Coimbra e por várias vezes exerceu a função de diplomata; a mãe, filha de quem era, portanto uma mulher curiosa em relação ao mundo, muito excêntrica, viajava muito, organizava muitos serões culturais. De modo que esta conjugação deu em Maria “algo” muito rico. Apesar de passar muito tempo sozinha, com os pais muitas vezes em viajem, e educada quase o tempo todo no estrangeiro em colégios internos em França, acabou por ter uma formação fantástica misto do aventureirismo da mãe e do rigor científico do pai.

A certa altura acabou por ir desenvolvendo uma certa concepção de educação, mas que não saiu assim do ar. Ela era uma pessoa muito especial (uma “special one”). Devido à sua força de carácter era por vezes considerada arrogante, com mau feitio, fria. Mas a verdade é que ela tinha uma coisa fantástica. Ela dizia que “a mediocridade é pior que o piolho”; tinha um horror à mediocridade.

A certa altura ela vê-se envolvida num Inquérito Nacional. Já nessa altura se dizia que Portugal estava em crise; e porque “vê” a crise, vive-a como um dilema. Tendo vivido no estrangeiro está habituada a uma exigência que não encontra em Portugal, estranha a mediocridade – não quer dizer que ela veja tudo como medíocre, porque ela era uma mulher positiva e optimista. Mas de qualquer modo ela vê essa diferença e ter-se-á tentado a aceitar os muitos convites que lhe foram feitos para trabalhar no estrangeiro.

Só que ela prefere ficar cá porque conheceu uma mulher que a convidou para a Acção Católica, Júlia Guedes, pessoa que a cativou desde o primeiro momento por ter uma humanidade maior. Maria Ulrich diz mesmo que não foi ela que escolheu a educação, “foi a educação que me escolheu a mim”. Fazem um Inquérito Nacional e chega-se à conclusão que a crise do país se funda na crise da educação. Hoje é assim também.

Então ela diz: se a crise está na educação vamos então por começar por “atacar”, por resolvê-la, dirigindo a nossa acção para quem educa os educadores; os educadores não sabem educar, não sabem o que isso é. E cria uma das primeiras escolas de educadores de educadores.

Maria Ulrich diz muitas vezes: “(…) como é poderá educar integralmente aquele que flutua indeciso entre várias opções?”[1]

Mas afinal o que é educar? A educação para Maria Ulrich centra-se na pessoa. Cada criança é uma pessoa. E por isso é que ela é capaz de reter histórias “para sempre”. Diante de uma criança ela não se põe com aquele discurso do “tadinho, nha, nha, nha….”, mas olha-a como pessoa, um conjunto de talentos; diante da qual não há que incutir uma mensagem mas ajudar a despontá-los no confronto com o que a circunstância oferece. Aí está: a liberdade.

A liberdade é a chave de toda a educação. A liberdade é algo de tão sagrado que nem mesmo Deus ousa “tocá-la”.

Porque a criança é assim entendida, como pessoa, é que não é preciso vir com malabarismos “eduquês” ou com histórias esquisitas do senhor azul e do senhor amarelo … as crianças percebem tudo ! Tenho verificado isso com as que conheço, elas assimilam o que vêm o e o que sentem; não adianta fingir, podemos e devemos ser naturais e elas compreendem…. E se o nosso desassossego nos impede de tomar posição, que sejamos transparentes na procura honesta do querer querer saber as respostas.

[1] Maria Ulrich, Jornal “Traço de União”, 1975.

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