anais nin

Fugir ao cavalo vendido por vaca, ou em nome da democratização da literatura erótica.

Papageno*

Após ler os jornais, e não só portugueses, desta semana, fiquei com a convicção de que ou se é homossexual às escondidas ou se contém carne de cavalo ilegalmente. Esse pensamento, trouxe-me à lembrança umas célebres declarações do Presidente boliviano, Evo Morales, em 2010, de que comer frango provocava calvície e homossexualidade, se bem que não sei se por essa ordem… Não vejo problema algum na falta de cabelo e pouco me interessam as orientações sexuais de quem quer que seja, desde que seja de livre vontade, sem prejuízo para outrem e em consciência, divirtam-se (!), seja a comer cavalo, seja a “tomar no cu”, como sugeriu, recentemente, Francisco José Viegas!
Não sei se foi a falta de conteúdo generalizada ou se falta de profundidade minha, mas não me ocorria nada para escrever, e a segunda-feira já me batia furiosamente à porta… Lembrei-me então de um artigo que li na última edição da revista Sábado, As novas fantasias sexuais das mulheres portuguesas, ou uma análise jornalística de como o livro As 50 sobras de Grey de E.L. Gray. tem vindo a influenciar a sexualidade da cidadã lusa anónima.
Antes de opinar sobre a questão apenas cumpre dizer que sempre gostei de literatura erótica, entre autores consagrados como Anais Nin, Mario Vargas Llosa e Alberto Moravia a obras clássicas como a História de O e novelas gráficas de Guido Crepax. Nunca procurei os livros por “essa” temática, comprava, em livrarias ou feiras, porque calhava, e assim estão em prateleiras, desarrumados juntamente com todos os outros livros que habitam a minha casa, sem nenhuma ordem aparente, seja género, língua, cor de capa ou autor, não tendo direito a nenhum cantinho “especial”. Nunca encarei essas obras de forma diferente, nem sequer me lembro de sentir, na adolescência, a comichão na ponta dos dedos como quando se mexe, quase clandestinamente, num qualquer objecto centenário religiosamente guardado, seja o relógio do avô, sejam as porcelanas da avó. Como tal, nunca sequer pensei que uma livraria devesse ter uma secção própria dedicada à literatura erótica, pois no fundo não passam de livros de ficção que enfatizam o sexo, mas que não são sexo, senão seriam provavelmente livros médicos ou anatómicos. São livros que criam fantasias, se forem bons, como qualquer outro livro de ficção, se forem maus não abandonamos a realidade… O que para mim é a bitola para qualquer livro de ficção, seja do livro infantil impermeável a Joyce ou Dostoievski. Para mim era tão natural estarem na livraria entre outros livros, arrumados por autor, numa qualquer secção de ficção, como em minha casa.
Mas ao ler o artigo e ao folhear a obra em questão, não só mudei de ideias, quanto à necessidade de haver uma secção própria para livros eróticos em livrarias, como quase tive a compulsão de fazer um abaixo-assinado para o efeito. Confesso, não li o livro, muito menos as sequelas, sentei-me numa qualquer livraria e tentei ler excertos desgarrados, até tentei ler um capítulo seguido, não consegui e não gostei. Eu não gostei, mas há muitas pessoas que gostam, o que não contesto nem critico. Mesmo porque acho bem que se leia, seja o que for, nem que seja a revista Maria ou a Automotor, e aqui não estou, de forma alguma a julgar a qualidade literária ou jornalística dessas publicações. Mas o que me chocou foi o facto de para, aparentemente milhões de pessoas por este mundo a fora, as 50 sobras de Grey ser o único livro erótico à face da terra, uma bíblia da sexualidade, capaz de criar “novas fantasias sexuais” como diz o artigo. As fantasias descritas no livro e no artigo não são novas, são milenares para a humanidade, mas, provavelmente, primeiras para os leitores, no sentido de não existirem anteriores, ou velhas para substituir.
Não gostando da obra, que não li na íntegra nem tenciono ler, admito que contribuiu para a redescoberta e até a democratização do erotismo no séc. XXI e, aparentemente, para a felicidade de muitos cidadãos anónimos. Como não há verdadeira democracia sem educação, também nessa área parece-me imperativa a formação. O ensino só é possível se for despertada a curiosidade do aluno, e essa é a parte mais difícil, e a que aparentemente já foi conseguida. Agora só falta continuar a estimular (e não, não se trata de um trocadilho ordinarote) permitindo o acesso e divulgando literatura de qualidade, evitando que um qualquer leitor envergonhado tenha que gastar as poucas energias que a dureza da realidade lhe deixa para ganhar coragem e abordar um qualquer funcionário de livraria em busca “desses” livros. Mas é claro que escusa de estar sinalizada com setas luminosas, eventualmente estigmatizastes para o leitor, ou acompanhada por obras de divulgação científica sobre a sexualidade com capas gráficas, não vá alguém esquece-se do que se trata, pois apesar de tudo estamos a vender fantasias, algo que tem pouco de explícito.
Num momento em que as pessoas buscam, desesperadamente, instantes de felicidade para fugirem ao negrume das lasanhas de carne de cavalo e a conspirações baseadas em pseudo-vícios que só o são porque vividos às escondidas, parece-me de aproveitar o facto de os livros se tornarem, de repente, sexys. Não só a criação de secções de literatura erótica poderá ser uma excelente ideia comercial, que aqui ofereço, como uma nobre causa, na evasão, mesmo que momentânea, da realidade, na promoção da fantasia, e quiçá da felicidade.

* Papageno escreve no 100mim à segunda-feira

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