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SARAMAGO

Poema para Luís de Camões

Meu amigo, meu espanto, meu convívio, Quem pudera dizer-te estas grandezas, Que eu não falo do mar, e o céu é nada Se nos olhos me cabe. A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo. Olho cansado as mãos, o meu trabalho, E sei, se tanto um homem sabe, As veredas mais fundas da palavra E do espaço maior que, por trás dela, São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória, Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença. E a ardência das pedras, a dura combustão Dos corpos percutidos como sílex, E as grutas do pavor, onde as sombras De peixes irreais entram as portas Da última razão, que se esconde Sob a névoa confusa do discurso. E depois o silêncio, e a gravidade Das estátuas jazentes, repousando, Não mortas, não geladas, devolvidas À vida inesperada, descoberta, E depois, verticais, as labaredas Ateadas nas frontes como espadas, E os corpos levantados, as mãos presas, E o instante dos olhos que se fundem Na lágrima comum. Assim o caos Devagar se ordenou entre as estrelas.
Eram estas as grandezas que dizia Ou diria o meu espanto, se dizê-las Já não fosse este canto.

(in PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

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