henrique leitão 2

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Uma das minhas “histórias da ciência” com o Henrique (que sortuda eu sou!). E tenho mais…

Acerca da abertura do Ano Internacional da Física 2005, na sede da UNESCO, em Paris, disseste que o Discurso que o então secretário de Estado da Ciência teve a honra de proferir tinha sido brilhante. Uma pedra a 360º. Verdade. É com gosto que o releio e partilho. Porque ajuda a conhecer o valor da ciência na minha vida.

Física para o Futuro
13 de Janeiro de 2005.

«Senhoras e Senhores,

É com grande prazer que me dirijo a esta distinta Assembleia, na cerimónia de abertura da Sessão da Conferência Inaugural do Ano Internacional da Física 2005.

Como alguns de vós saberão, Portugal foi, desde o início, um apoiante firme e activo da Declaração de 2005 como Ano Internacional da Física. Na verdade, promovemos o projecto de resolução submetido à 32ª Conferência geral da UNESCO, bem como a que foi submetida à 58ªAssembleia Geral das Nações Unidas.

Desde o início deste processo estivemos em total acordo com a sugestão da Sociedade Europeia de Física e também com os argumentos apresentados na 24ª Assembleia Geral da IUPAP (International Union of Pure and Applied Physics) no sentido de 2005 ser declarado o Ano Internacional da Física.

Além disto, demos o nosso inteiro acordo aos objectivos estabelecidos pelo 3º Congresso Mundial das Sociedades de Física para a celebração do centenário das principais descobertas de Albert Einstein.

Ao celebrarmos um Ano Internacional da Física estamos, antes de mais nada, a reconhecer a grandeza e excepcional importância da Física como um esforço intelectual ímpar em que toda a humanidade se tem envolvido há séculos.

Na verdade, pode mesmo dizer-se que é um esforço intelectual milenar pois desde a remota Antiguidade até aos nossos dias os homens têm tentado incessantemente compreender os mistérios mais profundos da realidade que os rodeia.

A Física é, sem dúvida, um dos maiores empreendimentos intelectuais na história da humanidade.

Em certo sentido a Física ocupa um lugar único entre todas as ciências. Nenhuma outra ciência conseguiu combinar até hoje, de forma tão profunda e tão frutuosa, a relação entre observação da natureza e aplicação de técnicas matemáticas.

Nenhuma outra ciência conseguiu tantos sucessos, tantas respostas para as perguntas com que se debatia.

É, pois, compreensível que a Física se tenha tornado num modelo que muitas outras disciplinas científicas têm pretendido imitar e, ao mesmo tempo, que a própria designação “Física” se tenha tornado sinónimo de um conhecimento certo, seguro e rigorosamente fundamentado e testado.

Isto não significa que a história da Física tenha sido uma serena história de acumulação de saber. Pelo contrário. Foi sempre uma história pautada por debates e polémicas, foi sempre uma história humana, com toda a paixão da alma humana.

Na verdade, como todos sabemos, alguns dos mais profundos e vivos debates intelectuais que afectaram a história da humanidade, nasceram de polémicas em torno de assuntos de Física e o facto de esses debates terem influenciado outros âmbitos culturais, artísticos, filosóficos e religiosos, é uma confirmação da excepcional importância da Física.

Comemorar o Ano Internacional da Física significa também afirmar um conjunto de princípios básicos que unem todos os físicos e que constituem como que os fundamentos epistemológicos desta ciência:

que a razão humana é capaz de superar mesmo as interrogações mais perturbadoras;
que a natureza é compreensível;
que a matemática é fonte de saber seguro sobre o mundo natural;
que a observação, a experiência é, como diziam os navegadores portugueses do passado, “ a mãe do conhecimento”.
O extraordinário sucesso da Física não é apenas uma fonte de regozijo que vem do passado; é uma fonte de esperança para o futuro.

Mas todos os empreendimentos humanos têm um lado mais obscuro. Precisamente no século XX, quando os progressos e conquistas da Física atingiam um desenvolvimento nunca igualado, os físicos viram-se a braços com graves dilemas éticos.

Saber é verdadeiramente uma forma de poder e muitos físicos sucumbiram, e sucumbem ainda hoje, a usar o seu saber ao serviço de poderes muitas vezes totalitários.

Tudo isto exige dos físicos uma elevada responsabilidade moral, e todos esperamos que o Ano Internacional da Física sirva para sensibilizar, sobretudo os mais jovens, para a responsabilidade que vem com o conhecimento.

Mas também aqui temos bons motivos para celebrar com alegria: a história da Física é muito mais a história do conhecimento que foi posto a bom uso, do que o contrário.

Toda a investigação nasce sobretudo do desejo de satisfazer a curiosidade, mas é natural que depois os resultados dessa investigação sirvam para resolver problemas, por vezes problemas prementes, aumentando a duração da vida humana.

O progresso material que a Física gerou é de uma tal dimensão que é impossível de contabilizar. Temos razões fundadas para acreditar que o progresso da Física ajudará a resolver muitos problemas que hoje afligem os povos e as sociedades do nosso tempo.

Como conclusão, partilho a convicção de que a Física proporciona uma base significativa para a compreensão da natureza, proporciona aos homens e mulheres os instrumentos para construir as infra-estruturas científicas essenciais ao desenvolvimento; e a convicção de que a investigação na Física e as suas aplicações foram e continuam a ser uma importante força motriz dinamizadora de desenvolvimento científico e tecnológico.

A Física é um pilar fundamental da cultura contemporânea, que não pode ser substituído nem removido. Promove, pois, o bem-estar de toda a humanidade.

Depositamos a nossa esperança na Física e na Ciência no sentido de poder encontrar as soluções para os muitos problemas que afectam as sociedades modernas.

Portanto, estamos profundamente preocupados com a auto-exclusão dos jovens em relação à Física, não só porque os físicos desempenham um papel insubstituível nas sociedades baseadas no conhecimento, mas também porque o fenómeno da auto-exclusão se está a alastrar para as áreas afins da Ciência e Tecnologia.

Em Portugal estamos muito empenhados nos ideais e objectivos do AIF2005. Em particular, estamos empenhados em sensibilizar o público para a importância da Física, e em aperfeiçoar o ensino da Física nas escolas.

Vemos na celebração do Ano Internacional da Física, uma excelente oportunidade para atrair mais e melhores estudantes para a Matemática, Ciência e Engenharia.

Desejo a todos um muito bom Ano da Física.

Possa Einstein trazer o entusiasmo pela Física ao público em geral e inspirar uma nova geração de cientistas e engenheiros.

Muito obrigada.»

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