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TON KOOPMAN: Nuno Crato (S) “LET´S KIDS SING AGAIN”

Um share de Ton Kopman no dia 4 de Março de 2013, depois do seu concerto na Gulbenkian.
A maior sofisticação está na maior simplicidade. A generosidade de um homem que respondeu a umas perguntas que tenho no coração. Ele volta a Lisboa em Outubro e traz Bach (para além da família, o seu mais que tudo) na batuta. A disponibilidade de alguém que afinal me “conhecia” de lado nenhum. O gravador registou. Aqui vai. A música entra na vida se começarmos a tempo. Tudo passa pela educação.

«eu tento esculpir as notas de uma forma bela»
Comecei por lhe perguntar o que é que a música lhe dá, a ele. Oh, é satisfação, contentamento, tristeza, ou seja, tudo! Música é emoção, música é harmonia. Portanto eu penso que as duas palavras são importantes. Quanto eu toco ou dirijo, para mim na música estão essas duas emoções, vêm ao de cima. A alegria, a tristeza que lá está, e também o ritmo. Eu tento esculpir as notas de uma forma bela. Eu estou simplesmente apaixonado pela música.

Como é que a música o atraiu? Sim porque há outras coisas tão ou mais atraentes que a música? Não, não é verdade…Quando era pequeno eu cantei num coro de rapazes, na Igreja, e com onze anos eu tornei-me organista na Igreja. Portanto eu comecei muito cedo. E se me perguntar o que é para mim mais “próximo” da música, também importante para mim – próximo da minha família, claro -, eu coleciono livros antigos; e tudo o que é antigo, como gravuras, pinturas, “azulejos”. Azulejos? Portugueses? Sim, portugueses também tenho, claro. Bonitos. E também algumas cadeiras portuguesas do século XVIII.

«é tão maravilhoso “fazer” a música que não se pode tocar sozinho!»
E há para si a distinção entre “dirigir a orquestra” e “tocar”? Ou nem sequer faz sentido fazer-lhe esta pergunta? Eu não gostaria de fazer apenas um dos dois. Eu gosto de tocar (culpado, se o fizer mal)… Isso é que é uma grande mentira!, digo. E com a Orquestra é tão maravilhoso “fazer” a música que não se pode tocar sozinho! E com o coro… Eu gosto de trabalhar com o coro. Tenho grande gozo nisso. E vejo os resultados porque posso olhar para eles, e eles têm mesmo vontade de fazer tudo o que eu lhes peço que façam…Portanto, eu gosto muito de fazer música com os outros.
Mas também gosto, às vezes, de me sentar sozinho em qualquer sítio e tocar…
Como o Papa, agora? Sim. No retiro em que vai entrar agora… Conheceu-o, encontrou-se com ele? Sim, encontrei-o em Regensburg quando ele era ainda lá cardeal. E falou com ele? Sim porque o seu irmão era lá músico e por vezes eu conduzia o coro de rapazes de Regensburg e algumas vezes ficava lá para jantar com esse irmão de Ratzinger. E algumas vezes o seu irmão vinha, o Papa. O Papa é um músico muito interessante e um homem muito intelectual. Eu gostei muito dele, E não sabia, claro que ele viria a ser Papa e veja agora o que faz a idade, e o que fez tal enorme trabalho para nós. Mas nunca mais me encontrei com ele.

«a música pode ser uma coisa “para todos” se for apanhada na escola»
Portugal (e não só Portugal) atravessa uma crise. Uma grande crise. O que é que a música pode trazer para ajudar a resolver esta crise? E também – o que vem a ser a mesma pergunta – pergunto-lhe se a música é uma coisa “para todos” ou se é apenas para alguns privilegiados? Não. Em relação ao que me perguntou primeiro, eu acho que a música pode ser uma coisa para todos se for “educada”, se for apanhada na escola. As crianças apanharem a música. E hoje já não é assim.
Onde? No meu país, já não. Não é como no meu tempo. No meu tempo as crianças cantavam todos os dias. Quando entravam na escola, quando saiam da escola. Eu penso que é muito triste que isso não aconteça mais… Então a música é para todos? A música é para todos. Porquê? Porque enriquece, porque pode enriquecer-nos. Com os problemas que temos… se estou triste, a música dá um alívio, não estamos sozinhos e penso que na crise – a Holanda também está em crise, como toda a Europa – precisamos de algo para “sair” dos problemas quotidianos… Mas isso é uma fuga? Mas uma fuga é bom ….Mas precisamos de resolver os problemas! E é com uma “fuga”? Sim, mas se o Estado não está resolver os teus problemas…a única coisa a fazer é esquecer…

« é preciso começar com as crianças, agora. Let´s kids sing again»

Mas o que eu pergunto é se a música pode resolver de alguma forma os meus problemas, com essa “fuga”? Você traz a música para a sua vida, não? Claro que faço isso.Como faz? Quando toco. E eu leio música e sou professor na Universidade. Não é abstracto para mim.

Mas devia ser “assim” (não abstracto) para todos, para mim que não toco nem dirijo um coro, ou orquestra!

Bom…é preciso começar com as crianças, agora. Let´s kids sing again. Mesmo na Holanda é extremamente difícil. Penso que nos outros países é assim também. Eu penso que cantar na escola é um ponto importante para mais tarde se apreciar ir a concertos. Eu faço pequenos festivais em França, concertos para crianças. Sério? Sim. E às vezes é no meio do nada, em escolas onde os professores querem mesmo ajudar, receber-nos. Fazemos um concerto uma vez por semana. Também na Holanda, uma vez por ano, há alguns concertos para crianças, organizados por dois grupos; na nossa região temos feito isto. Não são concertos muito grandes: são 35, 40 minutos. Às vezes sou eu que os faço, outras vezes é outra pessoa e no fim o que faço é deixar as crianças cantar. Portanto eu combino alguma coisa com os professores, para eles prepararem com os miúdos e às vezes digo-lhes: “não vos oiço! Podem por favor cantar mais alto?”

Desculpe tanta conversa, deve estar cansado… Vou beber um copo de vinho… UAU!!!!! Sim, sim, com amigos. Obrigada, foi tão bom conhecê-lo! Eu também. Bom, e que mais…? Eu estarei de volta em Outubro.

Ah! E não lhe perguntei do que é que gosta mais em Portugal, para além dos azulejos, claro. Eu acho que tem casas lindíssimas. Bibliotecas fantásticas. Como aquelas bibliotecas das Universidades. E a comida é muito boa. Coisas fantásticas. Gosto mais da comida portuguesa do que da comida espanhola. Fica-lhe muito bem dizer isso…E os vinhos que agora vou beber. Fantásticos!

Bach é o maior: é um arquitecto que toca o coração e a razão.
Ah, e já agora, qual é o seu compositor preferido? Bach. Eu também…Porquê? Porquê, porquê, porquê? Ele é como Leonardo da Vinci. Só há um Leonardo da Vinci. Bach é um grande arquitecto porque faz com as mesmas pequenas pedras o “dar” emoção e algo, “coisas” para o nosso cérebro; ele é capaz de música intelectual e de música que ao mesmo tempo toca o coração; ele é capaz, como ninguém, de harmonizar emoção e cérebro. É esta a grandeza de Bach.

E ups, a sua peça favorita de Bach? [ele fez aquela cara da fotografia que a Luísa tirou] (eu sei, sou terrível). Oh,….isso é impossível….Cada dia uma diferente! Cada dia uma diferente. Combinado. Até Outubro. Com Bach? Acho que sim, que é Bach.

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