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Professor Nuno Crato: O ano é internacional da matemática, a crise não é de hoje, e o senhor, como matemático sabe muito bem “fazer as contas”. Neste caso da Educação. Como homem de “números”, sabe o valor da música, de Bach, e de Ton Koopman, que deu um concerto em Lisboa e apontou uma solução que pode ajudar a matar esta crise. Muito pode passar por si. Ora veja o que ele diz, e que destaco da conversa que ele nos deu e que pode ser lida na íntegra neste blog.

Koopman-Ton-conducting

«a música pode ser uma coisa “para todos” se for apanhada na escola»
Portugal (e não só Portugal) atravessa uma crise. Uma grande crise. O que é que a música pode trazer para ajudar a resolver esta crise? E também – o que vem a ser a mesma pergunta – pergunto-lhe se a música é uma coisa “para todos” ou se é apenas para alguns privilegiados? Não. Em relação ao que me perguntou primeiro, eu acho que a música pode ser uma coisa para todos se for “educada”, se for apanhada na escola. As crianças apanharem a música. E hoje já não é assim.
Onde? No meu país, já não. Não é como no meu tempo. No meu tempo as crianças cantavam todos os dias. Quando entravam na escola, quando saiam da escola. Eu penso que é muito triste que isso não aconteça mais… Então a música é para todos? A música é para todos. Porquê? Porque enriquece, porque pode enriquecer-nos. Com os problemas que temos… se estou triste, a música dá um alívio, não estamos sozinhos e penso que na crise – a Holanda também está em crise, como toda a Europa – precisamos de algo para “sair” dos problemas quotidianos… Mas isso é uma fuga? Mas uma fuga é bom ….Mas precisamos de resolver os problemas! E é com uma “fuga”? Sim, mas se o Estado não está resolver os teus problemas…a única coisa a fazer é esquecer…

« é preciso começar com as crianças, agora. Let´s kids sing again»
Mas o que eu pergunto é se a música pode resolver de alguma forma os meus problemas, com essa “fuga”? Você traz a música para a sua vida, não? Claro que faço isso.Como faz? Quando toco. E eu leio música e sou professor na Universidade. Não é abstracto para mim.

Mas devia ser “assim” (não abstracto) para todos, para mim que não toco nem dirijo um coro, ou orquestra!
Bom…é preciso começar com as crianças, agora. Let´s kids sing again. Mesmo na Holanda é extremamente difícil. Penso que nos outros países é assim também. Eu penso que cantar na escola é um ponto importante para mais tarde se apreciar ir a concertos. Eu faço pequenos festivais em França, concertos para crianças. Sério? Sim. E às vezes é no meio do nada, em escolas onde os professores querem mesmo ajudar, receber-nos. Fazemos um concerto uma vez por semana. Também na Holanda, uma vez por ano, há alguns concertos para crianças, organizados por dois grupos; na nossa região temos feito isto. Não são concertos muito grandes: são 35, 40 minutos. Às vezes sou eu que os faço, outras vezes é outra pessoa e no fim o que faço é deixar as crianças cantar. Portanto eu combino alguma coisa com os professores, para eles prepararem com os miúdos e às vezes digo-lhes: “não vos oiço! Podem por favor cantar mais alto?”

Lisboa, 4 de Março de 2013

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