beijo de judas  - Pasolini
do filme «Evangelho segundo Mateus», de Pier Paolo Pasolini

ESCÂNDALOS NA IGREJA: SACANAS SEM LEI?
8.3.2013

Igreja é sempre notícia, e nem sempre pelas boas razões. E há a boa-nova, para quem se interessa. Há semanas destaca-se 28, dia da resignação de Bento XVI, que não deixa de ser uma inédita renúncia quaresmal (anunciada dois dias antes da 4ªf de cinzas). E também as notícias de escândalos sexuais que vêm, ou não, a ser comprovados. Entre nós, há dias, a roleta caiu em D. Carlos Azevedo, alvo de uma denúncia em 2010 por suspeitas de assédio sexual a membros da Igreja. A-bordo este caso apenas indiretamente. Sublinho sim que escândalo vem do grego obstáculo e que obstáculo é, por um lado, impedimento, e, por outro, possibilidade de uma bela corrida. E que não se diga a alguém que sofreu tais violências: não passa nada, com o tempo vai melhorar. Mas antes: o tipo foi uma grande besta, fez-te uma ferida que arde muito, merece umas boas num sítio que eu cá sei. Um sacana sem lei?

No bispo não entro porque as contas são feitas entre mim (cada um) e Deus. E Deus não só sabe matemática, como me conhece como ninguém. Não quer dizer que não se deva tratar deste assunto, mas isso é outra coisa. Até porque cada caso é um caso e o alarido e a indignação geral falam cedo de mais e, muitas vezes, desconhecem tudo o que está em jogo. O gosto mórbido pela execução do outro em praça pública (já no Coliseu, em Roma, era assim) concentra-me fora de mim, o que às vezes me dá muito jeito. E faz vender. Não é bater só no jornalismo, mas sim no preferir-se uma qualquer verdade da notícia, à notícia da verdade.

Ao assediado, ou violado, ou whatever, explicaram-me que nas feridas emocionais negativas não se pode, como num computador, carregar no delete. Porquê? Porque é assim que somos feitos. Ficam sempre. Contaram-me a história de uma mulher cujo tio gostava de brincar com ela, ao colo, com o ursinho de peluche. Tinha então cinco anos. Ela. Casou, mas não conseguia esquecer aqueles momentos da sua infância, que melhor teriam sido preenchidos com outros peluches. Infeliz sempre, com um pó – escondido – ao sexo oposto, separou-se, e virou-se para mais do mesmo, uma colega sua, mais velha, também professora de história, numa viajem de estudo ao Egipto.

Ensinaram-me ainda que a única forma de lidar com essa ferida, embora complexa, é simples. É não mentir, identificar o que aconteceu: tu não foste feito para aquilo; tens uma dor que eu nem consigo imaginar. E inundá-la de feridas positivas, experiências que tracem uma vida nova. Conheço pessoas que se dedicam a esse trabalho. Muitas pertencem à mesma Igreja daquele bispo. Mas disto pouco se fala. Vidas que se dão e vivem a construir uma ressurreição aos bocadinhos (há quem fique num estado a precisar de cura a vida inteira). Melhor que uma insurreição que quase sempre é fazer justiça por mãos próprias, o que não leva a lado nenhum, apenas a duas cabeças cada vez mais enterradas.

Bento XVI insistiu sempre em falar destas denúncias. Que a Igreja tem podres disse-o bem claro e, docemente, com palavras duras. Nalgumas das suas viagens apostólicas foi mesmo ele que puxou o assunto. Nunca fugiu com o rabo à seringa: “desde que sejam verdade são bem vindas – a verdade, conjugada com o amor corretamente entendido é o valor primordial”. Porque o amor não tem medida ou lei, escapa-nos por entre os dedos. Não somos nós que o fazemos. Claudel perguntou no Anúncio a Maria: para que serve a vida se não for para ser dada?

Pergunto: terá existido alguém, existe alguém, que não tenha experimentado (por segundos que fosse) esse amor incondicional? Decido hoje tender a agitar-me menos e a olhar o outro como ele merece. Incondicionalmente e graças a Deus, que o conhece a ele e me conhece a mim como ninguém. Porque me faz em cada instante (fecho os olhos e oiço a batida do meu coração). Por isso sei que gostarei sempre de notícias e de fazer notícia.

28 de Fevereiro de 2013: dia de notícia. Comprei o jornal e bebi a minha italiana. Os obstáculos? São para te saltar melhor. Como na história do lobo mau. Sou uma sacana sem lei. Pertenço à família do “nega” de Pedro: a do Conclave, que afinal é mais cedo do que se esperava, e onde quem vai soprar é o Espírito, esteja quem lá estiver.

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