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Antero foi dos poucos a “ensaiar” a Filosofia entre nós. As tendências da Filosofia na segunda metade do século XIX, As causas da decadência dos Povos Peninsulares, para dar alguns exemplos. Agora , ele é acima de tudo um dos nossos grandes poetas. Talvez o nosso “metafísico” por excelência. Por isso, pleno de humanidade, como dizia Dostoiesky, que caracterizava a humanidade por dois sinais: pela inquietação metafísica e pelo sentido de humor.

Quanto à análise da decadência dos povos peninsulares (a monarquia absoluta e o catolicismo, segundo disse em 1870), esqueceu-se, ou então ignorava, o catolicismo e a monarquia. Quanto ao catolicismo, em que é que este contribui para a decadência dos povos: pela “invenção” das Universidades?; por uma concepção de razão “católica”, isto é universal, de acordo com a “existência”e a razoabilidade do mundo (o próprio Einstein dizia que só é verdadeiro cientista aquele que admite o mistério, um x que resiste à “lupa”, mas que é o que a move a continuar mais e mais…), e de por isso ter “permitido” o espírito científico, como é sabido e reconhecido?; por ter criado a primeira Academia das Ciências, a única, que ainda “funciona” (no seio de uma Religião) e que acolhe especialistas de todas as áreas (e de todos os credos, agnosticismos e ateísmos) não por serem católicos mas por serem excelentes na teorização da verdade? Porque é que a certa altura na Rússia se retirou a filosofia dos Seminários? Indo até a coisas mais “simples” de entender: quem é que – e nem vou sair de Portugal – no terreno ajuda quem mais precisa, não são, muito, as obras católicas? Não é que não haja lugar para outros, mas veja-se quem está lá sempre, e às vezes até antes de “elas acontecerem”! Porque é que os pais, sobretudo os não crentes, preferem pôr os seus filhos em escolas católicas? Por terem mais dinheiro? Claro que se não tivessem não os poriam lá. Mas não é por isso que os lá põem. E obviamente que não estou a dizer que só as escolas católicas são boas. Pela simples razão que educar passa por uma especial relação pessoal, professor-aluno, e isso não depende do carimbo “público”, ou “privado”.

Sabes Antero, eu nisto estou com o Manoel de Oliveira. Sempre. E até parece que é simplista, mas não é. No último filme dele, que é “um apelo à paz”, ele reconhece que a causa da decadência dos povos – e não apenas dos peninsulares – está no esquecimento do Verbo. Por isso é que o povo diz, e bem, “a falar é que a gente se entende “. Mas não é falar por falar, é falar com o coração nas mãos, com as feridas à mostra…

Percebes isto muito bem. E eu estou do teu lado. Foi por teres deixado a tua bem exposta, sempre, que não aguentaste…

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