Mário Soares 2

E Agora?, perguntas Mário: a quem?

A crise tem levado Mário Soares a um regresso à política activa, de onde aliás não sai. E agora?, pergunta. Como diz Drummond de Andrade: a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, está sem discurso, o dia não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo mofou. E pedes outro governo, no artigo do JN, e no do Público, na 2ªf passada. Que este está moribundo, que ninguém toma a sério. E queres a intervenção de Cavaco. “Sou democrata [não seria preciso lembrar] e sei bem que não há democracia sem eleições. Mas há momentos em que as eleições não se justificam porque não resolverão nada e podem antes complicar muito a situação”. Percebo. Mas a quem fazes a pergunta? Aceito-a então para mim, que mais ordeno, e respondo. Faço-o com outra pergunta, que é, também, um pedido ou exigência de resposta. De capotes sem água, de ter sido enxotada, estou cheia. Prefiro o cara a cara. Porquê? Porque preciso de razões e gosto de tapetes limpos também por baixo.
Dás mais este passo sem ninguém to pedir. Sempre falas por ti, e são muitos os que te ouvem e seguem. O que pensas e dizes tem magia e força. És homem de missões impossíveis, bond sem rede nem duplos, de crédito ilimitado, ganho no terreno, em horas difíceis. És um jovem que não pára. Olha o Manoel de Oliveira. Outro. E não quero, nem posso medir o teu amor a Portugal. Nem tudo o que parece é, e sei que os actos ficam com quem os pratica e nada há de mais inestimável do que a liberdade. E que não foi o Zeca que o descobriu.
A situação que vivemos não surge do nada. Mas confesso que estou a ficar farta do bode expiatório a quem tudo o que se vive é atribuído. Sim, o que está na cidade do teu amigo francês. O caminho é cortar a direito. O que não é razoável é esconder o que aconteceu; dizer e fazer como se Portugal tivesse começado com este primeiro-ministro. Homem a quem não conheço falta de esclarecido empenho. Não o endeuso e, apesar de as contas não serem o meu forte, há seguramente casos de injustiça a serem corrigidos já. E vejo na troika um instrumento com o qual se poderá avançar no diálogo. Um comentador da nossa praça dizia há dias: sem ser a troika, que outra solução tem sido apresentada? Mostrem-ma e eu mudo de opinião.
Faz falta animar a malta, dar o poder à malta, mas não é assim, sem mais nem porquê. Muitos são os que têm apontado, e bem, como a herança recebida por Passos Coelho foi uma batata a escaldar. Eu não sei dizer tão bem como eles. O que a minha razão não aceita é que me encham de mentiras. Repito sempre as palavras de um dos meus top ten: “o erro é uma verdade enlouquecida”. Manifestações? Certo. Mas não me enganem, nem nos números nem me digam que a política se faz a contar cabeças e a cantar liberdade. A política faz-se com verdade, com os instrumentos possíveis e, felizmente, com as mãos sujas. Nenhum membro que ocupa um lugar no poder – hoje e ontem – é um anjo. Falo por mim, que lhes entreguei a minha soberania. E há ajustes que podem agora ser feitos. E se calhar serão. Mas Deus escreve direito por linhas tortas. Não estou na posse de todos os dados, mas sei que há um tempo para tudo.
Vamos tirar o lixo debaixo do tapete? As feridas saram ao ar. Não para fazer justiça na praça pública, mas para que se caminhe com serenidade e confiança uns nos outros. É simples. Porque é que não oiço nem uma palavra (da parte dos que agora se manifestam) em relação ao anterior primeiro-ministro? Portugal não se governa como uma corrida de estafetas! E não se trata de comparar as licenciaturas de Sócrates e de Relvas. Não é para escarafunchar, e fazer doer mais o dorido. É para construir, para que se cure a injustiça de atribuir todas as culpas a estes. Na rua vi coisas bonitas. A ideia de fraternidade atrai-me. Mas vi também cartazes e caras a transbordar ódio, numa cegueira que, em muitos casos, só foi ensaiada a ver o que se quer. E vi muitos que estão mesmo lixados. E que ali, naquele calor, se sentiram confortados. E agora?
E volto a Drummond: “E agora, José?/ sua doce palavra/, sua incoerência/,(…) você é duro, José!/(…) que fuja a galope/, você marcha, José!/ José, para onde?”. A sua pergunta – “E agora?” -, doutor Mário Soares, teria outro destinatário. Mas acontece que esse não cumpre o que diz o poema que tenho vindo a citar: “Sozinho no escuro/ qual bicho-do-mato/, sem teogonia/, sem parede nua/para se encostar/, sem cavalo preto”. Tem cavalo tem, e a culpa é do coelho!
Faço uma à Django, mas ao Django do que disse Tarantino ao receber o óscar – disse que este ano, era o ano dos… não digo! vão ver – e pergunto : “E agora José?”. Sei que a resposta não és tu que ma dás. É com o sangue que a brincadeira do cineasta deixou entrever. Virgens ofendidas com ketchup? Livra!

10 de Março 2013

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