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“Ovo Cósmico” de Salvador Dalí

O sol não está sempre visível, mas está lá

Papageno*

Quando oramos muitas vezes pedimos, por ou para nós, por ou para outros, e ditam as regras da boa educação que, independentemente do nosso pedido ser acedido, agradeçamos ao nosso interlocutor. Agradeço sempre, como posso e como sei. Mas como agradecer a alguém que com um gesto, aparentemente insignificante, por vezes quase imperceptível, nos salva um pouco da fé nos Homens, da nossa alma e, em última análise, a vida?!
Há alturas na vida em que parece que vivemos na Lapónia, parece-nos que durante seis meses o sol simplesmente não existe para nós. Sabemos, com inveja mais ou menos saudável, que ele está lá algures, no sul a aquecer e alegrar a vida dos outros, mas não a nossa, com a única mas enorme diferença, de que mesmo os habitantes da Lapónia sabem que podem ter seis meses de escuridão, mas que depois, inevitavelmente, terão direito a seis meses de luz, e na nossa vida, feliz ou infelizmente, os períodos menos felizes não têm uma data final definida. Porém, até nos meses de escuridão não devemos esquecer que podemos não ter o sol, mas à noite temos estrelas, e as vezes, com um pouco de sorte, até uma lua assombrosa, só que para os vermos não podemos estar a dormir.
E porque orar não é só pedir, e porque não se agradece só aquilo que muito se desejou, hoje vou tentar contar todas as estrelas que me alumiaram as últimas noites, sentindo uma enorme frustração por saber que a esmagadora maioria me vai escapar, mas ficando com a certeza de que mesmo que para elas a minha existência até pode ser indiferente no grande esquema do universo, para mim elas não só são reais como são as minha estrelas. Agradeço assim aquele que me convidou para o concerto de música clássica, como o outro que me levou ver a sua banda de garagem, dou as graças por existirem aqueles que ofereceram o seu tempo e corpo para tratarem do meu jardim, sou grata por cada convite para almoço ou um simples telefonema, por um bom dia sorridente, por existirem pessoas que me oferecem coisas não porque já não prestem mas porque acham que tem mais a minha cara do que a delas, por existirem ferramentas electrónicas que me permitem manter a conversa em dia com alguém que está há mais de 5000 km de distância, por ainda haver médicos que nos salvam literalmente a vida e que cobram um balúrdio pela consulta, mas que também nos resolvem problemas por sms, por existir um senhor na bomba de gasolina que em vez de uma revista nos oferece três, por aprender que não havendo vinho tinto podemos beber champanhe, de tal forma que a luz das estrelas quase faz parecer que está de dia.
Por isso agradeço a todos aqueles que me lembram que o sol não está sempre visível, mas está lá, e enquanto não o virmos basta olharmos para as estrelas e termos a certeza de que há coisas inevitáveis na natureza e tal como na Lapónia ele volta sempre a renascer.

*Papageno escreve no 100mim à 2ªfeira

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