Man Ray

Man Ray, Self-portrait with studio camera, 1932

Caleidoscópio

Papageno*

Diz quem sabe que “os olhos são o espelho da alma”, mas o que acontece à nossa alma quando os olhos que a reflectem desaparecem? Olhamos à nossa volta e procuramos noutros olhos a confirmação de que ela ainda cá continua, que nem vampiros passamos diante de espelhos que apenas nos devolvem o vazio e assim a ausência de reflexo quase nos convence da nossa própria inexistência. Então, desesperadamente, num derradeiro esforço de evitarmos a desmaterialização eminente, tentamos recordar-nos da nossa própria imagem, procurando snapshots de momentos felizes que o nosso coração, feito lente fotográfica “olho de peixe”, desfigura transformando a nossa mente num labirinto grotesco de espelhos distorcidos.
Lembrei-me de ter ouvido algures que os índios americanos não se deixavam fotografar porque acreditavam que o acto de fixar a imagem nos roubava um pouco da alma. Quantas vezes os olhos do outro não só espelham o que acreditamos ser a nossa imagem, mas, inclusivamente, transformam-se na objectiva que numa sequência de disparos a alta velocidade descarrega milhões de fotografias que agarram impiedosamente pedaços da nossa alma.
Acabada a sessão fotográfica, saímos da câmara escura e olhamos para cada uma das imagens, não nos reconhecemos, rasgamo-las em incontáveis pedaços de papel colorido que se espalham aos nossos pés, atiramos a máquina fotográfica à parede. Miramos o triste espectáculo das nossas entranhas estilhaçadas em inúmeros vidrinhos desordenados. Após horas a fio, alumiados apenas pela luz vermelha, rasgamos os cortinados e deixamos entrar o sol que nos cega e magoa a vista. Ainda atordoados pela dor lancinante, com os olhos envoltos numa névoa asfixiante eis senão que os milhões de fragmentos coloridos começam a formar padrões e a nossa alma, apesar de estilhaçada, já não é apenas um monte de cacos, mas um verdadeiro caleidoscópio.

*Papageno escreve no 100mim à 2ªfeira

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