Jack Kerouac Route 66

caricatura do Jack Kerouac

Pela estrada fora…

Papageno*

Li o On the Road de Jack Kerouac ainda adolescente, reli no quarto ano da faculdade e aprendi que na literatura norte-americana o “it” está no “West”. É o eterno regresso à criação, à conquista do Oeste. Em antítese completa à negritude escolhida pela geração beat invade-me a mente o Go West dos Pet Shop Boys em que se repete, que nem mantra, o título da canção intercalado com o Together. A estrada de Jack Kerouac era sempre a direito, seguia-se a famosa Route 66 “sem nada para fazer, nenhum lugar para ir e sem ninguém em quem acreditar”, vivia-se o momento, a viagem sem destino para se chegar ao fim e descobrir que o “to go” é bom por algum tempo, mas tem os seus limites.
Em tempos, a velha analogia da estrada com a vida regressou à minha. Não sei se é uma questão de idade ou cultural, mas o caminho que me apresentaram estava cheio de encruzilhadas e fazia-se com recurso a um GPS que teimava em não mostrar a melhor via. Tal como o Sal Paradise, o alter ego de Kerouac no livro, o meu viajante parava nas estações de serviço, porém, ao contrário do herói norte-americano, ele não se deliciava com tartes de maçã acompanhadas de bolas de gelado, mas pensava se não seria melhor voltar atrás. O meu viajante olhava para o aparelhómetro e como nenhum caminho lhe agradava achava que havia uma avaria no software, esquecendo-se que na vida não há GPS que nos indique o melhor caminho, existindo apenas um tradicional mapa em papel em que vemos um emaranhado de estradas que nos obrigam adivinhar qual o percurso mais adequado para nós, com o pressuposto de que, ao contrário da viagem sem destino do On the Road, temos a certeza do nosso.
Mais sinuoso, ou mais recto, cada um tem que fazer o seu caminho. Com um pouco de sorte há troços em que temos um compagnon de route, alguém que transforma o nosso caminho numa verdadeira viagem. As vezes, com a mesma frequência com que encontramos um bilhete de lotaria premiado, esse nosso companheiro de viagem até tem o mesmo destino que o nosso.
Acompanhei inúmeras vezes o Sal na sua fuga para frente, pela estrada fora, na travessia para o Oeste, tendo por banda sonora o refrão que nos recorda que a viagem se faz together. Sei que se contar o final do On the Road não estragarei a leitura a quem ainda não conhece essa obra-prima da literatura norte-americana, mas como não sabe o que é o “it” que procura, Sal acaba no seu ponto de partida, com recordações de mil aventuras, deixando partir o seu compagnon de route, Dean Moriarty, e com ele o “West Coast”.
E por cá, o que aconteceu ao herói da ocidental praia lusitana, que, por uma questão geográfica, se depara com um caminho mais cheio de cruzamentos, curvas e contracurvas do que a romântica Route 66? Ainda o imagino sentado numa qualquer estação de serviço a procura do mapa ou do GPS sem ainda se ter apercebido de que, ao contrário das nacionais norte-americanas, a vida é uma auto-estrada em que não há inversões de marcha, poderá até parar para pensar, mas só há um caminho e, por mais acidentes geográficos e desvios que existam, ele é em frente.
Ao contrário do On the Road, não sei como terminará a novela do viajante. Entretanto arrumei a sua história junto do Jack Kerouac, na minha prateleira de memórias, a espera que me mande um postal, de uma qualquer estação de correios, com o final do livro para o poder encerrar.

*Papageno escreve à 2ªfeira

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