Che-Guevara 13

Celibato, uma questão política!

Papageno*

Papa novo, vida nova, ou assim parece ser desde que chegou o Francisco. Com a chegada deste Sumo Pontífice parece que ganharam nova vida as velhas questões, nos órgãos de comunicação social, nos blogues, nas redes sociais, o mundo espera ou tenta antecipar a palavra do Santo Padre acerca do celibato, da ordenação das mulheres, da contracepção, enfim, como dizem os anglófonos you name it. Não sei se é pelo facto de Jorge Bergoglio ser argentino como o Che Guevara, mas por  alguma razão ouve-se cada vez mais que irá  “revolucionar” a igreja.

A Igreja, nesse caso a Católica, é a casa do Senhor e como qualquer lar tem as suas regras. À semelhança das nossas casas insere-se num espaço político, o Estado, às cujas leis obedece. E, enquanto a instituição da Igreja respeitar as leis dos Homens, e aqui vou assumir apenas as leis justas como as definidas pelo S. Tomás de Aquino dando-me ao luxo de excluir as injustas que nos são impostas por regimes opressivos (independentemente da sua orientação política) e que não só nos autorizam mas até impõem a rebelião, respeitarei as regras da sua casa. E por isso pouco ou nada tenho a dizer quanto a pertinência ou não do celibato ou da ordenação das mulheres, não faço parte da Igreja, nem pretendo chegar a Papa, que, neste momento, pouco se deve preocupar quanto à existência ou não de actividade sexual na minha casa.

Mas se ser Católico é uma opção, pelo menos nesse nosso Portugal, ser cidadão não é. Nascemos, recebemos um nome, somos numerados inúmeras vezes por essa vida fora, optamos por votar ou não, podemos estar mais ou menos empenhados na vida social, política e económica do nosso país, mas não podemos deixar de ser cidadãos. Podemos mudar de nacionalidade e até podemos ser apátridas, mas há um conjunto de direitos de cidadania que ninguém nos deveria poder tirar. Na qualidade de cidadão desta República Portuguesa, e enquanto coisa pública que é, por oposição ao privado das nossas casas, mais ou menos sagradas, podemos e devemos sugerir medidas que promovam o bom funcionamento das instituições.

Porque não me cabe a mim contestar o celibato dos sacerdotes, discutirei o celibato dos políticos, esses sim, Homens que não só partilham o meu espaço, mas que sobretudo criam “as regras da casa”. Muito se poderia dizer quanto se ser político é uma profissão ou uma vocação. Hoje em dia já não é preciso ser rico para se poder votar ou exercer cargos políticos, princípio que tinha como argumento subjacente a ideia de que um indivíduo endinheirado seria menos permeável à corrupção. Hoje, pelo contrário, os cidadãos pagam impostos de onde saem os salários dos nossos governantes. Sendo uma actividade remunerada parece-me que se trata de uma profissão. Porém, tal como a profissão de médico, também a de político tem que ter por base a vocação pois, em ambas, os profissionais tratam dos corpos e das almas dos cidadãos, tendo, em última análise, nas suas mãos a vida das pessoas. Não quero com isso dizer que o facto de uma actividade ser remunerada a torna menos nobre, de forma alguma, até os sacerdotes são remunerados, porque o Homem não é só espírito, mas também corpo e para que continue vivo tem que ser alimentado.

Porque quero acreditar que o objectivo do celibato não seja simplesmente impedir os homens e as mulheres da hierarquia eclesiástica católica de gozarem as alegrias do sexo, mas sim liberta-los dos “fardos” associados ao casamento  (e aqui não podemos esquecer que na casa do Senhor o prazer carnal deve ter lugar no leito matrimonial) e assim terem mais disponibilidade temporal e espiritual para servirem os crentes.

Tendo em conta as pesadas agendas dos nossos dirigentes políticos, também eu gostaria que a cruz que carregam seja mais leve. Porém, ao contrário do modelo Católico, parece-ma mais adequado o Ortodoxo, em que o baixo clero pode casar e o alto não. Mesmo porque ao contrário da Igreja que é dogmática e em que a palavra do Senhor não se deve discutir, na República podemos escolher o sistema político, e além do mais o país debate-se com problemas demográficos e já não é fácil encontrar bons políticos entre os que não abdicam de nada, mais difícil seria encontrar entre uma minoria de Homens que deixaram a vida familiar. Ou seja, quem quiser estar na política ao nível de poder local que case a vontadinha, quem tiver ambições ao nível de Parlamento, Governo ou Presidência da República terá que se aguentar. O celibato dos políticos, não só os libertaria da “peso” das responsabilidades familiares, permitindo a total dedicação ao bem-estar do cidadão, mas ainda cumpriria duas importantes funções, por um lado daria maiores certezas aos eleitores de que se trata de homens e mulheres que fizeram a escolha por vocação e por outro impediria a emergência de dinastias políticas, fenómeno corrosivo para a democracia.

Dirão os céticos: “Mas Papageno, na República Portuguesa o sexo e a vida familiar não estão circunscritos ao casamento! E essa imposição não criaria uma feroz concorrência entre a Igreja e o Estado pelos corpos e as almas dos potenciais celibatários? Quem castigaria ou perdoaria os prevaricadores? Na Igreja existe a confissão e através do arrependimento sincero os nossos pecados são perdoados por Deus! Já não correu bem com as enfermeiras, que hoje em dia até podem casar,  onde iríamos encontrar políticos que cheguem sem que se torne uma actividade apenas para aqueles que por uma qualquer razão não conseguem arranjar parceiro?”.

Felizmente não acredito que haja muita gente a assinar pela minha causa de “políticos celibatários”, a não ser talvez aqueles que equiparam a política ao “Império do Mal” e como tal consideram que o animal político mereça pelo menos as sete pragas do Egipto e mais algumas, inclusive a de ausência de sexo. E as revoluções que se pedem na nossa praça são de natureza menos poética e mais prosaica. Pouco nos interessa com quem copulam os nossos dirigentes desde que não nos sodomizem a nós, os cidadãos. Mas essas batalhas travam-se nas urnas e nas ruas, na casa do Senhor manda aquele que mais ama Jesus, e esse seguirá sempre a vontade de Deus que não vai em modas e contra quem não há revolução que valha. Há quem tenha fé, eu, por hora, apenas manifesto a minha vontade nas urnas, libertando assim o meu espírito dos dramas da carne alheia.

*Papageno escreve à 2ªfeira

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