Margritte 13

   Magritte

Diz que sim… Diz que não… Mas a maçã não cai longe da macieira…

 Papageno*

Nunca aprendi a dizer um “Não”, quer dizer, pronuncio a palavra em vários contextos mas tenho sérias dificuldades em usa-la como resposta. O meu pai nunca responde que “Não”! Não que seja um yes man, muito pelo contrário, é um homem de princípios e causas, e se algo é mau ou injusto insurge-se, por vezes até com um “Não”! Mas, quando lhe pedem algo, por mais irrealista que seja, diz sempre que “Sim”. Acho que o faz porque pensa que quem pede é como ele, que se o faz é porque acredita que de alguma forma faz sentido e que, sobretudo, se é a ele que se dirigem é  porque não o podem fazer junto de outra pessoa.

Já a minha mãe, nunca aceitou um “Não” como resposta. Lá em casa não havia um “Não quero” ou um “Não consigo”, para ela não existe nada tão difícil a que se pudesse responder com um “Não”. Não é uma mulher do yes we can, de grandes causas nem de sonhos como os que tinha o Martin Luther King. Deve ser a pessoa que menos acredita em ideais grandiosos e por isso tem fé nas pequenas pessoas. E apesar de ela própria não ter consciência disso, a sua aversão ao “Não” é a maior demonstração de confiança no Homem, no cidadão comum que tudo consegue.

A ironia dessa história reside no facto da minha mãe ser a única pessoa a quem o meu pai responde “Não”! Segundo ela, invariavelmente, qualquer coisa que ela lhe peça tem por resposta um “Não”. Ela acha que se trata de desconsideração, eu acho que é comovente. O facto de ele lhe dizer que “Não” torna-a especial. Talvez não seja o “especial” das baladas de amor, dos poemas e das comédias românticas, nesse filme não há alianças em flutes de champagne ou camas cobertas de pétalas de rosas, mas há um “Não”, um espaço de liberdade. Da mesma forma ternurenta, ele deve ser a única pessoa a quem ela admite a sua fraqueza de “não consigo” e, as vezes, ate permite que ele tenho os seus “não quero”. Esse “Não” deles é de tal forma “Sim” um ao outro que chego a pensar que se tivessem que voltar a casar e fazer os tradicionais votos teriam que responder “Não, não, e não” só para poderem ser fieis a eles mesmos e assim um ao outro.

Entre a infinita compaixão de um pelo mundo e a incessante luta do outro contra esse mesmo mundo eu nunca aprendi a responder “Não”. Começo a acreditar que seja genético, de tal forma me fere o coração quando tenho mesmo que dizer um “Não”. Que nem o meu pai tento compreender o pedido do outro, analiso todos os argumentos que possam racionalizar esse pedido e se é completamente ilógico tento explicar ao meu interlocutor. Se o “pedinte” insistir adopto a técnica da minha mãe, e penso que não há nada tão impossível que de facto mereça um “Não” e lá vou eu.

Teimei com o meu ser e a minha natureza, decidi que vou aprender a dizer “Não”. Que nem um mantra budista repito vezes sem conta “Não, não, não….”, tento que se entranhe na minha pele.  Porém quanto mais repito mais estranho se torna o som do “Não” na minha cabeça e quando o verbalizo ecoa como a voz de um outro alguém. Tal como numa soma matemática, mais com mais só pode dar mais, e assim também eu não poderia fugir à regra nem ser um “Não”, tendo que me contentar em ser um “Sim”. Acredito no pequeno Homem e na sinceridade e legitimidade dos seus pedidos da mesma forma como creio na sua capacidade de superar mesmo aquilo que pensa ser impossível. Acredito piamente nele porque ele sou eu, e tenho que ter fé em mim.

*Papageno escreve à 2ªfeira 

Advertisements