Beatles13

100 TÍTULO

Papageno*

O 100 MIM encerrou para obras e o Papageno aproveitou a boleia. Quando se iniciam obras a perspectiva é sempre romântica, imaginamos o resultado final, tudo é novo e reluz… Já o processo é sempre mais longo e penoso do que alguma vez conseguiríamos imaginar, o pó é miudinho e entranha-se em todas as frestas e afinal a infra-estrutura que pensávamos estar boa está à beira do colapso, lá vamos nós gastar mais dinheiro…Começamos bem, portanto…

Mas a única maneira de encarar a reconstrução é sonhando… Mesmo porque a tarefa que enfrentamos não é apenas uma operação cosmética, não basta pintarmos as paredes e disfarçarmos as rachas e as humidades, não podemos tapar os buracos no chão com tapetes e móveis, quer dizer, poder podemos, mas apenas enganamos as visitas, e pior, não impedimos que o edifício continue a ruir aos poucos. Não, desta vez é a sério, vai ser da cave ao telhado, do buraco mais recôndito até ao jardim…

E assim, cada vez que chegarmos a casa, exaustos de um dia de trabalho, e olharmos com os olhos e não com o coração para aquilo que é suposto ser o nosso lar e virmos escombros misturados com o material de construção e soubermos que temos uma longa noite de obras pela frente começam a escorrer-nos lágrimas de desespero… Não controlamos a tristeza que nos jorra dos olhos, não sabemos por onde começar, tão grande é a destruição, naquele instante parece-nos impossível que alguma vez consigamos terminar, que seja possível limpar todo aquele pó miudinho que nos impede de respirar e ver normalmente… Pensamos em virar costas e fugir, sem destino, para qualquer lado que não sejam aquelas ruínas que durante muito tempo chamamos de casa… Mas as lágrimas lavam a alma e turvam a vista, de tal forma, que há instantes em que até conseguimos ver a chaleira ao lume, ouvir o gira-discos na sala, ou sentirmos a água quente do chuveiro a libertar-nos das poeiras do dia… Sentimos algo que não são as obras, são as saudades do futuro…

Mas antes de começar a reconstruir sabemos que é preciso partir, por mais que a casa já esteja arrebentada é sempre preciso arrancar os azulejos, o chão, quem sabe até partir umas paredes? E essa é a parte de que Papageno gosta, a emoção de entrar em casa e ter a liberdade de partir o pouco que resta, como que possuído pela imagens da Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, munido de um bastão de ferro, faço questão de arrebentar com tudo. Na cabeça ecoam os acordes exageradamente acelerados de Ludwig Van Beethoven, a cada marretada sustenho a respiração, será que é dessa que acertarei num cano ou destruirei a instalação eléctrica? Quando não subsiste pedra sobre pedra, como numa noite de trovoada seca, é o silêncio absoluto… Apenas ouço o meu coração a bater acelerado por causa da descarga de adrenalina… E esse momento não tem banda sonora, só a ausência de som que ensurdece… De repente sei que estou cansado, já nem consigo segurar na marreta, ela cai e o seu tilintar ecoa no infinito, há demasiado pó, o ar está irrespirável, saio e sento-me nas escadas porque as pernas não me levam mais longe… Nesse momento apenas sinto a dor lancinante da respiração, cada vez que inspiro ou expiro é como se alguém se estivesse a divertir a partir-me as costelas, uma a uma…

Só quero dormir, hibernar, porque penso que se fechar os olhos por tempo suficiente as obras se farão sozinhas, como a pele que acaba por tapar uma ferida aberta… Mas a razão não deixa, a insónia não permite!

As obras têm que continuar, não há empresas de construção civil nem homens com capacetes e botas de segurança, nem o material é novo… Gente fina chamar-lhe-ia reciclagem ou diria que é uma construção ecológica, quem não tem recursos faz com o que está à mão, recorre a tutoriais e conselhos de quem sabe, engana-se, desfaz para voltar a refazer. Agora a destruição ainda é grande, tudo não passa de um monte de escombros, ainda não visualizo o fim das obras nem sonho com o resultado final, mas tento imaginar o dia em que voltará a funcionar a instalação eléctrica para ligar a música… Até lá, sei que a banda sonora é outra, é o bater de marretas, o arrastar dos escombros, que por vezes é interrompido por um qualquer amigo que, inesperada e desinteressadamente, oferece a sua ajuda…

Ainda não ouço a música, mas pelo menos já sei qual o disco que vou ouvir quando tiver electricidade, o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, parece-me apropriado, cantarolo o Fixing a Hole e o With a Little Help from My Friends! e quem sabe, até me volte a lembrar da letra do When I’m sixty four. Nesse dia, espero que passes à minha porta, talvez adivinhando que os acordes dos quatro de Liverpool já cortaram o silêncio que ficou desde a noite em que tive de iniciar as obras, que te lembres que para entrar lá em casa não precisas de chave e, por fim, me possas contar como correm as obras em tua casa sem que isso volte a calar a música.

*Papageno escreve à 2ªfeira

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