Volto sempre a este dia. Desta vez passei um bocadinho para o papel.

Soljenitsin13

Um dia na vida de Ivan Denisovich (Alexandre Soljenitsin)

Ou “O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE.”

Alexandre Solzhenitsy está na minha mesa de cabeceira. Em casa duns amigos vi uma entrevista que o nobel da literatura (1970) deu em 2008, pouco antes de morrer. Nunca perdeu o coração, nem o sentido de humor. Nem na prisão, nem no campo de concentração, nem no exílio. É um homem. Basta ver um dia da vida dele. Razões mais que suficientes para se ler o seu livro Um dia na vida de Ivan Denisovich, que nada tem de especial. Ou melhor, tem tudo de especial.

O “dia” é o que nos é dado, o que encontramos ao acordar. Cheio de sentido a provocar uma liberdade a realizar. Não é o eterno retorno do mesmo, mas uma possibilidade de satisfação cada vez maior. É como um dia da minha vida. Ou como a vida dum amigo meu que tinha cancro, podia morrer a qualquer altura (o que nos pode inesperadamente acontecer daqui pouco), e se vestia como se fosse sair. “Para quem tinha ele de se pôr bonito?” (p.28)[i], pergunta Ivan – ou o S 854 que tinha na jaqueta (p.37) – nesse “dia”, no campo de concentração onde passou oito anos (1945-1853). E bem passados porque no peito só tinha uma coisa: “a alma.” E essa não lha roubaram, mesmo quando lhe tiraram as roupas interiores.

Não se alienou no trabalho, que era o principal objetivo daqueles campos, que na agitação e horários (mas onde não havia relógio) pretendiam fazer esquecer: “aquecer com o trabalho, eis a única solução” (p.10,12,20,70), dizia-se. “O trabalho é um remédio de primeira ordem para qualquer género de doença” (p.29) “À parte do sono, o único tempo que um prisioneiro tem são os dez minutos para almoçar e cinco minutos para jantar “(p.23). “Maravilha das maravilhas! Como o tempo voa quando se trabalha!” (p.77). O que me soa familiar nos dias que vivemos…

Não deixou que os seus pensamentos se fixassem apenas na preocupação do pão que escondera – será que o vão descobrir? (p.48) – nem que a beata fedorenta que consigo partilhavam valesse para si mais do que a liberdade (p.38).  Podiam até tirar-lhe a roupa interior (p.39) mas não a sua consciência. Perguntava sempre : “Onde está  a tua consciência?” (p.101).

Numa palavra, não o manipularam a um projecto de poder que Soljenitsin resume assim: pode levar-se um homem a ser tudo aquilo que dele se pretender (p.142). Soube sempre gritar silenciosamente: “Ó Deus do Céu! Salva-me” (.p.150)

O segredo é então: “ Se um homem precisa de auxílio, só há um caminho: pedi-lo” (p.123). Ivan tinha um companheiro Aliosha, o Baptista, que lia o Evangelho quase em voz alta. “Aliosha era esperto: fizera um buraco na parede e escondia a Bíblia, que jamais fora descoberta em qualquer das buscas efectuadas à barraca” (p.33).

“Orava” ( p.61). Era feliz ali, aos olhos de Ivan que o reconhecia: “ Aliosha não enganava. A sua voz e os seus olhos afirmavam, sem dúvida alguma, que ele se sentia feliz na prisão.” (p.195). Era diferente dos outros que já se tinham esquecido “de que mão se deviam servir para fazer o sinal da cruz.” (p.21). Estava mesmo ao seu lado, e Denisovich soube mais uma vez dar-se conta de que “um homem é mais precioso que o ouro.” (p.45)

Em todo o seu “dia” – o do livro, o meu, e o do meu amigo – experimentamos que é possível “ganhar a vida”. “Consegue-se viver” (p.8). Porque a medida – ou o vocabulário – é Deus (p.101; 150;160), não o orgulho, ou o querer medir e possuir aquilo que simplesmente “é”, e que é para me espantar. Por ser maior que eu e, paradoxalmente, para mim. E é preciso pedir assim como lembrou Aliosha: “ A única coisa pela qual Deus nos ordenou que orássemos, Ivan Denisovich, é o pão nosso de cada dia. ’Dai-nos o pão nosso de cada dia’.”.

Acredita em Deus? Pergunta a Ivan um dos chefes. “Porque não?” (p. 131). “O destino cumpre-se.” (p.79) “Apesar de tudo, Criador, Tu existes aí nos Céus. Sofres com Paciência, mas quando dás, dás forte.” (p.101).


[i] Seguimos a edição portuguesa: Alexandre Soljenitsin, Um dia na vida de ivan denisovitch, trad. De H. Silva Letra, Publicações Europa-América.

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