eoamor (1)

Ai esse é que É o amor Caxinas style?

 Papageno*

É o amor não é um documentário, mas também não é um filme, é um híbrido, e como é sabido, no mundo animal, o nosso, esse tipo de criaturas costumam ser inférteis, lembremo-nos das mulas por exemplo.

A viagem da Anabela Moreira às Caxinas do séc. XXI, guiada pela mestre do Marta Sofia, Sónia Nunes, é nos apresentada como a busca do seu “eu”, pessoal e profissional, cheio de dúvidas quanto ao valor que tem como actriz e mulher, acabando por se transformar num exercício de auto-comiseração penoso e snob: “Ai que não sei se sou boa actriz, ai que não sei amar…”. Após quase duas horas e meia de filme dá vontade de dizer, julgando por esta obra, e sublinho, apenas por esta, minha cara, não és boa actriz, e já do alto do meu snobismo, nem fazes puto de ideia do que é o amor, carago!

Nos entretanto das dúvidas existenciais da pobre Anabela podemos espreitar, pelo buraco da fechadura, o que é a vida nas Caxinas. Digo pelo buraco, mas podia dizer por uma fresta, porque as imagens, apesar de melhores do que as de uma câmara oculta, focam quase exclusivamente as personagens, salvo raros momentos em que vemos o mar. Sim, as Caxinas não são um lugar que definiríamos como bonito nem pitoresco, é uma amálgama de edifícios, divididos por ruas simétricas e vestidos de azulejos que bem poderiam estar a decorar um WC construído na década de 80. A constante névoa que lhe dá o tom cinzento também não ajuda a afastar a nostalgia cantada pelo bater das ondas. Mas, apesar de tudo isso serem as Caxinas, e terem pouco de romântico, nem isso vemos. Vemos esquinas, pedaços de rua, paredes interiores e exteriores da Igreja do Nosso Senhor dos Navegantes que na vida real “explode” num esplendoroso kitsch no coração da localidade.

No entanto, nas conversas da Sónia reconheço as das mulheres das Caxinas, reconheço-as nos seus gostos musicais, nos interiores das casas, nas cruzes de néon e no mobiliário quase barroco, nos vídeos de casamentos e baptizados que seguem o género “surrealista”, nas madeixas obscenamente contrastantes com a cor natural do cabelo, no vinho branco com 7UP, nas batas e nos “vós sois…”

Mas as Caxinas mudaram, há meninos que com três anos têm um Ipad, há muitos pescadores, ricos e pobres, há jogadores de futebol, mas também já há muitos licenciados, daqueles que amam a terra mas que enjoam no mar. Já não há velhotes que acreditam em Jesus Cristo porque viram no cinema o Jesus Christ Superstar, mas há escritores como o Valter Hugo Mãe, que me lembro de ouvir dizer na biblioteca de Carnaxide algo como que muitas pessoas vêm falar com ele por saberem que é escritor e contam-lhe coisas dignas de espanto, só que não as pode transcrever nos seus livros, tem que dar sempre um valente desconto, porque senão pareceria demasiado efabulado. 

Assim, vi o filme, não vi lá as minhas Caxinas, mas vi algumas mulheres fortes, que naquela terra mandam mais do que a nossa poderosa Presidente do Parlamento, são elas que têm o dinheiro, que gerem a vida em terra e consequentemente no mar, e fazem-no com o coração, e esse sim É o amor Que mexe com minha cabeça E me deixa assim; Que faz eu pensar em você E esquecer de mim; Que faz eu esquecer Que a vida é feita pra viver.

*Papageno escreve no 100mim à 2ªfeira

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