coracao

   Imagem: Coração independente, Joana Vasconcelos        

“Coração independente”, mas este não é da Joana Vasconcelos,  é mesmo meu

Papageno*

Papageno: Dr. desconfio que não tenho coração…

Médico: Não tem coração para fazer o quê?

Papageno: Bombear sangue, levar oxigénio, essas coisas, não é para isso que serve?

Médico: E o Papageno acha que lhe falta esse órgão vital?!

Papageno: Deixei de o sentir… doeu muito e depois puff… acho que rebentou… Será que os tecidos que dele sobraram foram absorvidos pela corrente sanguínea?

Médico: Mhhhhh… Quer dizer que está triste, deprimido, apático talvez, é isso?!

Papageno: Não, não é Dr. Sabe que os sentimentos para mim são uma questão epidérmica… Tudo o que descreve sinto-o na pele…

Médico: Não o entendo… Tem a pele sensível, é isso? Quando se transtorna sente comichões e ardores? Já fez testes às alergias?

Papageno: Também não me parece que seja por aí…

Médico: Começo é a achar que o problema está na sua cabeça!

Papageno: Ah, isso não, quanto a essa parte estou descansado, na cabeça faz tudo sentido, está tudo certo e organizado…O coração é que acho que pifou de vez… E é o que lhe estou a tentar explicar… Já não o sinto bater… De todo… É que nem uma arritmia de vez em quando…

Médico: Deixe-me lá escutá-lo…

Papageno: Pois claro, já há cinco minutos estou a tentar explicar o meu problema e o Dr. só pensa em dermatologistas e psiquiatras…

Médico: Não é isso… vou ouvi-lo com estetoscópio…

Papageno: Vai ser frio? E fazer cócegas? Sempre gostei do momento surpresa em que o médico encosta o estetoscópio e manda inspirar e expirar!

Médico: Expire, inspire, expire, inspire…

Papageno: Bate?!

Médico: É claro que bate!!!

Papageno: Posso ser eu a ouvir-me? Gostava de poder voltar a ouvir o meu coração…

Médico: Não confia na minha avaliação? Por amor de Deus, se há coisa que distingo é um coração que bate de um outro que não bate!!!

Papageno: Em relação ao coração não é bem uma questão de confiança… É mais como quando nos aleijamos no pé, depois temos medo de voltar a pisar, andamos um tempo a coxear, com medo de voltar sentir a dor, mas um dia temos que abandonar as muletas e voltar a pô-lo no chão…

Médico: Mas afinal dói-lhe ou não o sente? Importa-se de deixar de metáforas?  É que se não o sente é normal, é que é daqueles órgãos que sentimos se metermos a mão no peito, ou escutarmos, ou depois de uma actividade física muito intensa… Se lhe dói mando-o fazer exames, se bem que do que ouvi pareceu-me perfeitamente normal… Palavra que raramente se aplica à sua pessoa aliás!!!

Papageno: Não o sinto… O Dr. não me deixa ouvi-lo… Mas se calhar tem razão, não faz diferença nenhuma que o sinta… Uma pessoa não morre por não o ouvir, aparentemente poder até continuar a viver… Mas cá para mim é como diz a publicidade “poder, pode, mas não é a mesma coisa”…

*Papageno escreve à 2ªfeira

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