skull (1)

Skull

Voltaste querida…

Papageno*

Dor de cabeça vai e vem, vem e vai… Insiste, resiste e persiste… Instala-se sorrateira, aos poucos vai ganhando espaço até deixar de ser apenas uma subtil presença e transformar-se numa existência, ganhar vida própria. Agora é só ela… Só dor, de tal forma que já nem sei se é de cabeça… Toma conta dos sentidos, os olhos turvam, os sons ficam distorcidos, o sabor é metálico, os cheiros nauseabundos…

Voltaste minha companheira de noites em claro? Continuas emotiva e temperamental, ora sussurras impropérios, ora berras obscenidades, malvada ergues os teus punhos e martelas impiedosamente… Eu deixo… Põe tudo cá para fora! Exausta, após mais um ataque violento, parece que te vais embora, que te afastas aos pouquinhos… Quieto, tento não respirar, para não fazer barulho, experimento ser uma inexistência… Espero ansiosamente pelo bater da porta, para ter a certeza que te foste… Há momentos em que deixo de te ouvir, mas sei que estás aqui, mesmo ao lado, apenas a espera de um descuido meu, de um movimento mais brusco, para voltares, em todo o teu esplendor, com toda a tua pujança.

Impões-te, assim, poderosa, estridente, ciumenta, mais nada nem ninguém tem lugar! Nessa tua fúria possessiva apenas dás espaço à insónia… Sua interesseira, só o fazes porque sabes que assim possuis-me por mais tempo, de uma forma mais completa. És uma ditadora totalitária!

Tréguas, querida amiga? Tento acariciar-te… Não te quero mal! Apesar desse teu feitio terrível aprendi a conviver contigo, acho até que te tenho alguma estima… Talvez pela tua lealdade, pela persistência… Ou será pelo facto de, com essa tua presença esmagadora, preencheres total e absolutamente o vazio? Vais? Não? Ficas mais um pouco? Se tinha saudades? Nenhumas…Já sei, não sais sem bater com a porta… Já cá não estás, mas malvada, deixaste o teu perfume a pairar no ar… denso… na esperança de preencheres até o vazio da tua ausência…

*Papageno escreve à 2ªfeira

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