Vinil, wie einst Lili Marleen…

Marlenevinil

   Capa de disco de vinil de Marlene Dietrich

Papageno*

Gosto de vinil, sempre gostei, mais um daqueles gostos incutido pelos meus pais, ou talvez não? Olho hoje para a sua impressionante colecção de discos que agora se espalha pelo chão e pelas cadeiras cá de casa e não me consigo lembrar de uma única vez em que os tivessem posto a tocar. De melómanos não têm nada, mas algo os impeliu para aqueles círculos negros. As escolhas foram boas, clássicos estão cá todos, entre o Bach para a guitarra clássica, as sinfonias de Mozart e os bailados de Tchaikovski ainda cá cantam umas quantas óperas. Tenho o prazer de partilhar a casa com a Ella, Fitzgerald pois claro, a orquestra do Count Basie, mas também os Jethro Tull e o Stevie Wonder. Não sou purista, nem muito menos um coleccionador ou entendido, e há música que não imagino em vinil, penso nos Rammstein ou no John Legend, esses vivem no meu MP3. Já os Placebo, os Pearl Jam, Nirvana e os Guns N’Roses em CD, pois claro!

Porém, há os que em vinil ganham outra vida. Ao som da Marlene Dietrich e com um jantar a luz de velas quase ouvimos, longínquas, as botas a marchar enquanto toca a Lili Marleen, vai um pezinho de dança (?) irresistível, não é?! E o Charles Aznavour que me leva a Paris, onde aliás nunca estive, com a chanson, d’amour, but off course! E as parole parole da Dalida, que apesar de egípcia viveu a sua vida que nem uma verdadeira tragédia grega? Parolas são, um pouco, não discordo, tal como o Toto Cutugno que para mim será sempre o L’Italiano. O que vale é que no vinil tudo tem outra pinta, o parolo passa a ser kitsch e o velho torna-se vintage, tudo é puro style!

No fundo o que sempre me agradou foi essa capacidade mágica do vinil de transformar a realidade em sonho. Não sei se é aquele barulhinho entre as canções, se o aspecto negro e brilhante dos discos que reflectem o luxo de outras épocas, por oposição ao quadradão da K7, tão eighties e tão pouco original ao mimetizar a velhinha bobine, ou mesmo o CD com o seu metalizado futurista, para já não falar do MP3 que praticamente desmaterializou a música. Gosto do mistério de uma minúscula agulha que ao roçar no que parece ser apenas um bocado de plástico conseguir extrair as sonoridades mais maravilhosas. Sexy, não é?

Em criança era capaz de ficar horas a olhar para o gira-discos em perpétuo movimento. As mãozinhas, que nunca deixaram de ser desajeitadas, agarravam, concentradas, os discos, sabiam-nos de cor, faziam de conta que escolhiam, mas depois voltavam sempre aos mesmos, velhos conhecidos, o Hard Days Night dos Beatles, a banda sonora da Laranja Mecânica ou o Quebra-nozes de Tchaikovski. Dos dois primeiros gostava, sobretudo, da capa, do último, da música. As expressões dos quatro de Liverpool roubavam-me horas a tentar adivinhar a mecânica de se conseguir captar uma imagem e estampa-la em papel, da mesma forma como era possível aprisionar uma orquestra em vinil. Durante anos tive dúvidas quanto a humanidade do olhar de Malcom McDowell, que deu corpo a obra prima de Stanley Kubrick, e gostava de imaginar que o que ouvia era obra de um maestro que enlouquecera no momento em que dirigia a orquestra, o que  resultou numa alucinação Beethoveniana. Já o Quebra-nozes simplesmente fazia sonhar, pensar em vacas que pastavam em prados verdejantes e comiam erva e que para sobremesa regalavam-se com dentes-de-leão e ter a certeza que estar num campo cheio de pirilampos era igual a estar no espaço entre milhares de milhões de estrelas, com a vantagem de não haver problemas com a gravidade.

Hoje? Continuo a sentar-me no chão, na companhia de um copo de whiskey, no ice please (!), e nos dias mesmo bons também a de um pezinho, menos de chumbo do que o meu, e a curtir, com o mesmo fascínio, a magia que se faz apenas com uma agulhinha a roçar no disco, como antigamente Lili Marleen.

*Papageno escreve à 2ªfeira

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