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 Girl Lifting Up Her Skirt to a Dog, Paula Rego

Espreitem o meu futuro...

Papageno*

Tenho saudades de onde ainda não te levei. Tu, ainda não me conheces, porque não sabes para onde vou. Pensas que sabes de onde venho, mas não viste, e diz o povo que longe da vista, longe do coração. Não te preocupes, levo-te também ao passado e mostro-te o meu se me mostrares o teu, sabes, como fazem os putos? Com a mesma sofreguidão e alegria com que descobrem, no meio de uma brincadeira parva, que os meninos e as meninas são diferentes.

Dá-me a mão, não tenhas medo, conheço tanto o caminho como tu, pouco ou nada, e tropeço, tantas vezes… E as vezes caio mesmo! Não preciso de ti para me segurares e tu não precisas de mim para te mostrar o caminho, não fazemos falta nenhuma um ao outro, mas gosto de sentir a tua mão quando tropeço, o aperto forte como o bater do coração. As vezes vamos a andar e chego a desejar o tropeçar só para poder sentir esse aperto, felizmente não tenho que o fingir, acontece demasiadas vezes, o instante da expectativa da queda vertiginosa, o pressentir da dureza do chão, o aperto apoteótico que faz bater o coração numa injecção de adrenalina, continuamos o passeio, a tua mão descontrai e os batimentos cardíacos retomam o seu ritmo normal, já sem o suporte de vida.

Vamos a um passado onde nunca fui e a um futuro que conheço de cor. Quanto ao futuro, é fácil, diz que só a Deus pertence… O passado é que é mais imprevisível, deve ser por ter sido feito por Homens.

O passado, como te disse, é imprevisível. Das Invasões Napoleónicas deixaste em herança aos teus a cor dos olhos que não pode deixar de parecer uma brincadeira do Universo. A mim, o passado tem-me chegado por carta e, de uma forma irónica, se calhar até tens razão, não sou quem digo ser, não porque te ande enganar, mas porque nem eu ainda sei o que sou.

Só porque me deste a mão, vezes sem conta, vou-te desvendar o futuro que se adivinha na bola de cristal que são os teus olhos: há um rio com o nome de um tipo do rali no meio do qual teremos uma casa quando ganharmos o Euromilhões que vai sair a uma sexta, mais bien sûr; há uma cidade “que as tem no sítio” e onde encontraremos o meu passado do qual ainda tão pouco sei porque não o vivi, mas que vai ajudar a definir o nosso futuro, mas ; há fontes luminosas e musicais, que bem podem estar num qualquer país da Ásia Central ou do Médio Oriente, mas também pode estar já aqui ao virar da esquina; há a descoberta de que o cheiro a maresia é diferente de norte para o sul do país e de que há campos estrelados aqui e em S. Tiago; garanto-te ainda que a coisa vai aquecer, pelo menos até aos 90 ºC e que depois vais ter que aguentar os – 20 ºC, e mais não te posso dizer, se não perde a graça, e eu não quero que deixes de sentir em relação ao que nos aguarda a mesma adrenalina que sinto em cada tropeção.

 *Papageno escreve à 2ª feira

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