Decalcomania

                                           Decalcomania, René Magritte

Sem meias medidas...

Papageno*

Dizem os matemáticos que não existe nada tão pequeno no Universo que não seja divisível. E o Homem, uma minúscula partícula desse imenso infinito, é fruto de duas metades e do meio que o rodeia, num perpétuo movimento de princípio, meio e fim.

Um todo que se quer uma criatura de meios termos, meias palavras e meias verdades. Tudo ou nada não cabe no meio dos Homens, pelo menos dos sensatos, vox populi: “Diz tudo como os malucos”. E assim ficamos a saber que, a não ser que sejamos meio avariados da cabeça, convém guardarmos uma boa parte para nós, se é metade ou mais é que nem sempre é fácil de decidir.

Vemos os copos meio cheio ou meio vazio, talvez porque olhemos para eles à meia luz e nunca alumiados por inteiro. E assim somos criaturas que não sobrevivemos sem um meio de subsistência, e, para o conseguir, recorremos a meios mais ou menos legítimos ao nosso alcance. Por meia dúzia de tostões damos tudo o que temos, e muitas vezes o que não temos também, e parece que ficamos sempre com a sensação que mais de metade ainda ficou por fazer. Assim, vamos vivendo em regime de meia-pensão, procurando incessantemente a nossa cara metade para que, nem que seja por meia-hora, nos possamos sentir um todo, ou pelo menos parte dele.

E, no entanto, nesse mundo em que nada parece vir por inteiro, meias só as quero para calçar, e mesmo assim só no inverno! Porque, apesar de tudo, há coisas indivisíveis. Se na matemática todo é apenas a soma das partes, fico na dúvida o que acontece ao que for infinito? O infinito se for dividido tem metades finitas ou infinitas? Se forem finitas qual será a sua dimensão? E se forem infinitas, as metades têm o mesmo tamanho do todo, sendo assim uma e mesma coisa?

Já dizia o Aristóteles “O todo é maior do que a simples soma das suas partes”, gosto dessa ideia… Porque assim são os sentimentos humanos, até podem não ser necessariamente uma coisa ou outra, podem até ser ambos, mas nunca são metades. Posso amar e odiar simultaneamente, mas não conheço ninguém que sinta meio amor ou meia amizade, os sentimentos não se servem em meia dose! Poderão dizer, ah mas pode sentir-se um pouco de saudade, ou muitos ciúmes, sendo que pouco e muito não deixam se ser adjectivos que apenas servem para descrever parte de um todo que é o sentimento, e este ou é ou não é, uno e indivisível. Agora se são temporais? Isso é outra conversa! Mas como em tudo, é mais prudente prepararmo-nos para correr a maratona, mesmo que depois optemos pela meia, porque apesar de mais valer um pássaro na mão do que dois a voar, só com a soma deles é que se fazem mais passarinhos, caso contrário ficamos a meio caminho, e isso é que não pode mesmo ser!

*Papageno escreve à 2ªfeira

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