dogswithinsomnia

 Dogs with Insomnia, Sam Brown (blog explodingdog.com)

Papageno*

Hoje não me apetece escrever. Noite já vai longa e o café há muito arrefeceu, mas o ar continua quente e denso… Nem as janelas abertas dão uma trégua com uma aragem. Nada! Oiço o silêncio da noite. É diferente do que existe durante o dia. É um silêncio mais total e absoluto, talvez a melhor forma de o descrever é dizendo que tem presença, de tal forma que mesmo estando sozinho em casa tenho receio de o perturbar. Farto da folha branca que insiste em iluminar o ecrã do meu computador levanto-me, piso com cuidado o chão de madeira, como se caminhasse sobre brasas, e tento suster a respiração para ouvir melhor o silêncio… Agora tenho que justificar a minha acção, vou buscar um copo de água, faz todo o sentido com esse calor… Sei que tenho que escrever qualquer coisa, mas parece que o silêncio se instalou na minha cabeça, se calhar também nela é de noite… Volto a sentar-me e bebo o café… frio, enche a minha boca de amargor… obrigando o corpo a sacudir o torpor que parecia estar instalado. A folha branca cá continua, e eu também. Hoje não a consigo preencher, mas ela, com o seu vazio, domina todo o meu espaço. Despida de palavras é uma existência poderosa. Tento sair do escritório, viro-lhe costas, mas ela lá continua… como uma dor de cabeça latente… ainda não chegou, mas sabemos que vem a caminho… A sua presença começa a ser tão obscena que até o barulho da ventoinha do computador parece ensurdecedor. Carrego no botão para o desligar. Agora só oiço, sinto e penso silêncio… não o de dia, o da noite… denso e escuro como o café, amargo e pungente…

*Papageno escreve à 2ªfeira

Advertisements