A cena da Samaritana no filme O Acto da Primavera (1963) de Manoel de Oliveira

DO MINUTO 5:50 ao MINUTO 9:00

Porque é Primavera e o Evangelho de hoje é este:

Jesus e a samaritana. – Jo 4,5-42 *

Em Setembro de 2010 o realizador marcou presença no ciclo de cinema “Vozes do Silêncio”, apresentado no Museu Abade de Baçal. Este texto continua actual:

«O realizador Manoel de Oliveira esteve em Bragança, na semana passada, para rever o documentário rodado em Trás-os-Montes, em 1962, intitulado “Acto da Primavera”. Um filme que, como o realizador centenário recordou, o levou, na época, a passar uns dias na cadeia, às mãos da polícia política da ditadura de Salazar, a PIDE.

“Na altura, tive problemas com a PIDE, esta não era propriamente religiosa. Eu até estava doente, mas levaram-me para a PIDE e passei lá uns dez dias”, comentou. O “Acto da Primavera” é um documentário sobre a celebração popular da Paixão de Cristo que marcou todo o cinema português. Intemporal, a obra é marcada pelo gesto teatral dos actores e pela palavra, sendo pela palavra que se vai à essência do próprio filme, como explicou o realizador centenário.

“A Primavera é a ressurreição. As flores morrem no Inverno e ressuscitam na Primavera. Assim, a ideia é colocada nas flores, na ressurreição”.

Esta vinda de Manoel de Oliveira à cidade de Bragança inseriu-se no ciclo de cinema “As Vozes do Silêncio”, uma iniciativa de António Preto, desenvolvida no Museu Abade de Baçal, que visou mostrar ao público transmontano um conjunto de filmes rodados na região, dificilmente disponíveis no mercado.

Aos 102 anos de idade, Manoel de Oliveira não quis faltar ao evento, por uma questão de amizade, mas não só. “António Preto é um amigo e um apreciador do meu cinema que compreende bem os meus filmes. Para um artista, qualquer um que seja, não há nada mais que o possa satisfazer o que a compreensão do seu trabalho”, apontou.

Para o programador António Preto, esta foi uma boa oportunidade para o público rever alguns dos filmes de referência do cinema português na presença do “maior artista português vivo”. A realizar um doutoramento sobre a relação entre a literatura e o cinema na obra de Manoel de Oliveira, António Preto considera a obra do realizador “excepcional”. “É um cinema que propõe um mundo enorme de questões sobre a relação entre a literatura e o cinema. É um cineasta com um trabalho inesgotável, com uma obra ímpar”, considerou.

O ciclo “Vozes do Silêncio” apresentou um total de oito filmes produzidos na região transmontana e escolhidos de forma “criteriosa”. Todas as películas projectadas foram gravadas nas décadas de 60 a 90, um bom ponto de partida para a compreender a forma como o cinema do século XX contribuiu para a construção de um “imaginário transmontano” que nem sempre corresponde à realidade actual.

Sobre o nome do evento, António Preto quis remeter para a reflexão de André Malraux num seu livro intitulado, precisamente, “As vozes do silêncio” e que reflecte o impacto da gravura e da fotografia na reprodução das obras de arte e na forma em como esses objectos artísticos são apresentados e dados a ver. No entender de António Preto e indo de encontro à teoria de Malraux, “a gravura e a fotografia deturpam os objectos”, sendo, por isso, que o responsável do evento defende que os filmes deveriam ter sido projectados em película. “As condições técnicas não foram as ideais porque, infelizmente, não contamos com os apoios necessários para fazer as projecções em película. Dentro das limitações tentamos apresenta-los nas melhores condições possíveis”, explicou o responsável, frisando, no entanto, o apoio da direcção do Museu Abade de Baçal.»

* Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto da propriedade que Jacó tinha dado a seu filho José. Havia ali a fonte de Jacó. Jesus, cansado da viagem, sentou-se junto à fonte. Era por volta do meio-dia. Veio uma mulher da Samaria buscar água. Jesus lhe disse: “Dá-me de beber!” Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar algo para comer. A samaritana disse a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” Jesus respondeu: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva”. A mulher disse: “Senhor, não tens sequer um balde, e o poço é fundo; de onde tens essa água viva? Serás maior que nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual bebeu ele mesmo, como também seus filhos e seus animais?” Jesus respondeu: “Todo o que beber desta água, terá sede de novo; mas quem beber da água que eu darei, nunca mais terá sede, porque a água que eu darei se tornará nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna”. A mulher disse então a Jesus: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir aqui tirar água”. […] A mulher disse-lhe: “Eu sei que virá o Messias (isto é, o Cristo); quando ele vier, nos fará conhecer todas as coisas”. Jesus lhe disse: “Sou eu, que estou falando contigo”. Nisto chegaram os discípulos e ficaram admirados ao ver Jesus conversando com uma mulher. Mas ninguém perguntou: “Que procuras?”, nem: “Por que conversas com ela?”. A mulher deixou a sua bilha e foi à cidade, dizendo às pessoas: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?” […] Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram em Jesus por causa da palavra da mulher que testemunhava: “Ele me disse tudo o que eu fiz”. […]