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Caro Miguel

Resolvi escrever-te mais uma vez porque sim,  e não porque te conheça assim tão bem. Sempre achei é que há um tempo para tudo e que a vida não se reduz à Política. Tenho sim estima por essa nobre atividade humana. É que há umas semanas andaste muito na Berra dos media. Ouvi falar muito de ti, a dizer mal. Acho que há um limite para tudo. No XXXV Congresso do PSD, foste escolhido pelo presidente do partido, Pedro Passos Coelho, para encabeçar a sua lista ao Conselho Nacional.  Passos tem sido criticado e tu idem. Esta semana foi porque  a “saida não foi limpa”. E quando Passos entrou não estava tudo sujo? Não precisas da minha defesa para nada. Nem interessa a cor que tenho. Mas, e já agora, aproveito para dizer que sou colorida com todas as cores, gosto de todas, e há alturas em que vem ao de cima o preto e o branco. Dois pesos e duas medidas é que não. Podes rasgar e deitar fora, que não me importa. Importa-me sim dizer o que penso. Manias que me vêm da Filosofia, cuja arte está num perguntar. Mas não um perguntar por perguntar.

Que saíste e entraste. Qual não é o político que não o tenha já feito? Olha agora o Jorge Coelho! E quando disseste que não voltaste à política, e te criticaram, lembrei-me logo de Mário Soares, que disse, não há muito, que não estava na política “ativa”. Devem estar a gozar. Soares não faz política! Deixem-me rir. E nada lhe foi apontado. Antes pelo contrário: aparece quando quer e cirurgicamente, no momento que entende crucial, exato. E vestido para “matar” . Olha a Aula Magna, que ainda não há muito culminou uma série de aparições mediáticas, sempre a achincalhar quem governa e a apelar à violência. Ou no dia 25 de Abril, na Fundação Oriente ao dizer: este Governo é contra o 25 de Abril e Cavaco não soube nunca usar um cravo. Soares  chegou até ao recurso da ameaça. Até estou a estranhar tanto silêncio… Para herói da liberdade, com mais de “12 anos de escravatura” que “aulas” Magnas! Não devia ser política, não. Foi um momento poético. Os media, as pessoas como reagiram? Bem, claro. Soares é fiche! E “vende”…

E há tanto mais. Desde quando és o único a tirar um Curso Superior de forma “diferente”? Preciso de lembrar que o homem que foi estudar filosofia para Paris, não foi objeto das críticas que a ti te fizeram, a propósito de coisa semelhante!? Houve vozes, sim, mas mais soft. E depois Sócrates é tão negligée…E desde quando um Curso Superior forja um político? E que o problema é que mentiste. Mas terás sido o único a mentir? E por que só tu és alvo de tareia em tudo que é sitio! ? E não seria melhor dedicarmo-nos à paixão pela educação, e ao estado do nosso ensino? Mas não, é muito mais fácil esticar o dedo…

E a tua história no PSD, quem se lembra? E a tua cumplicidade com Passos, não é a que existe entre um líder de um partido e os que o acompanharam sempre? Por que é que se tem falado só de vocês os dois? E qual é o líder que não tem os seus segredos? Não é o segredo a alma do negócio? Negócio, sim. A política é um negócio. Não estou a falar “desses”, estou a querer dizer que a política é a arte do negociar o bem comum. Quanto aos negócios do mete no bolso, das brutais reformas vitalícias, ou dos lugarões para que vão os ex-ministros, ou ex-políticos…atire a primeira pedra quem não os tem, ou quem não teve (se calhar Salazar) Acho bem? Adivinhem..Mas aqui lembro-me de tantos nomes que o melhor é calar-me por agora. De todas as cores, de todos os cargos, de todos os gostos.

Era bom que a política fosse só beleza. Mas se nem eu a consigo na minha vidinha, porque hei-de olhar para o lado? Ouvi dizer que disseste que vieste para ajudar o Partido no melhor que puderes. Acredito. Já sei que vão pensar que eu milito no PSD, que esta carta é uma encomenda, e que isto é uma vergonha. Mas no fundo talvez ainda tenha azar. É que sou uma bloguista vulgar que enquanto faz a sopa e os TPC, não suporta a mediocridade, a começar com a dela. E que escreve melhor sobre cinema. Mas cartas de amor, quem as não tem?

E para acabar, que esta já vai longa, termino com uma coisa que escrevi e se prende a uma heroína do cinema Blue Jasmine, e ao homem que pela primeira vez na sua filmografia se “esconde” na câmara: “Mestre no mostrar os interiores de cada um. Na forma como interagem com os outros interiores. Nos desencontros. Nas relações amorosas, todas elas. Tudo isto no filme. Mas este filme é muito forte na forma como mostra quem é Jasmine e fixa-se quase todo ele nela. Talvez se deva muito à genialidade de Blanchet. Esquecemo-nos que estamos diante da actriz. Ela é mesmo Jasmine. Ao longo do filme, transforma-se transtorna-me. Convincente porque eu entro no filme. Ou eu entro porque é tão convincente, que não há mais portas: é aquela. A arte é assim: atrai e salva. E eu dou o meu passo, e ela passa. ” Eu cá não sou de estar partida. Partilho a relva com quem a mereçe.

Espero que passes bem. Que passem bem. E que saibam cuidar do menino de sua mãe

Fátima